Escassas horas depois, de ter sido designado primeiro-ministro da Turíngia, estado federado alemão, o liberal Thomas Kemmerich, renunciou ao lugar. O seu efémero governo foi o resultado duma conjugação de votos ainda inédito na Alemanha: incluía o apoio parlamentar de democratas-cristãos, liberais e da Alternativa para a Alemanha, a AfD, ou seja, a extrema-direita.

A Turíngia, cujo símbolo é o leão ludovingio, é um estado do centro-leste da Alemanha, com pouco mais de 2 milhões de habitantes, portanto uma percentagem muito pequena da população alemã com mais de 80 milhões. Este estado tem, aliás, a mesma população que tinha em 1905, sendo, pois, um caso exemplar de estagnação demográfica. Foi na Turíngia que, no início do Séc. XIX, se fundou uma das primeiras monarquias constitucionais no território que hoje é a Alemanha. Foi também no Estado Livre da Turíngia que se fundou a designada República de Weimar, o sistema democrático que regeu a Alemanha entre a I e a II Guerras. Mas em 1932, ainda a Républica de Weimar subsistia, já o NSDAP, abreviadamente partido Nazi, conquistava o poder — em eleições livres, note-se — elegendo o chefe do distrito do partido, Fritz Sauckel, como Chefe do Governo do Estado da Turíngia. Sauckel perfilou a Turíngia como modelo de estado para o Terceiro Reich. Posteriormente, em 1937, foi construído na Turíngia o campo de concentração de Buchenwald, um dos maiores campos de extermínio nazis. Fritz Sauckel, em 1946, foi um dos condenados à morte no julgamento de Nuremberga, por crimes contra a humanidade.

No termo da II Guerra, o território da Turíngia ficou integrado na zona de ocupação soviética e nessa sequência passou a ser parte integrante da futura RDA, apenas retornando à Alemanha em 1991, com a absorção da RDA pela República Federal da Alemanha. Em mais de metade do Séc. XX a Turíngia não foi governada por regimes democráticos, tendo passado do jugo do Partido Nazi, que a sua população começou por eleger em 1932, para o controle do SED em 1946, ou seja do Partido Comunista, que na Alemanha Oriental se designava Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED). Não há qualquer comparação entre o Partido Nazi e o SED, note-se bem, pois isso seria uma enorme distorção dos factos e da história, embora, verdade seja dita, em ambos os regimes não existiram eleições democráticas.

Visto este pequeno enquadramento histórico, voltando ao presente, em Outubro de 2019, realizaram-se eleições regionais no estado da Turíngia, das quais resultou uma vitória dos partidos da esquerda. Mas uma vitória — 31% para o Die Linke, uma espécie de SED renovado — que ficou completamente abalada pelo facto de apenas ficar 7 % acima do surpreendente resultado da AfD, isto é, da extrema-direita. Nestas eleições, o histórico SPD passa para uns quase irrelevantes 8,2%, os verdes e os liberais não descolam dos 5% e a CDU de Merkel, com 21,8%, tem um resultado inferior à extrema-direita. Com este quadro de resultados,a formação de um governo, com alguma “lógica política”, torna-se um exercício de equação quase impossível. Não se vislumbra que o SPD faça o papel de muleta do Die Linke, ou seja do SED reformulado. Também se torna impossível ignorar que a extrema-direita vale agora eleitoralmente 23,4%.

E foi por esta última alternativa que se seguiu: um governo liderado por um liberal com 5%, acrescido dos votos parlamentares dos 21,8% da CDU e dos 23,8% da AfD. Essa “coligação de voto”, ultrapassa a linha vermelha” da doutrina Merkel, que impede em qualquer circunstância a inclusão da AfD em soluções governativas com a participação da CDU, e por isso esta solução de governo durou menos de um dia. Mas será que esta orientação louvável de Merkel tem pés para andar se o eleitorado da CDU (e de outros) começar a transferir o seu voto para a AfD?

Quem se queira dar ao trabalho de ler o programa eleitoral da AfD vai encontrar medidas, em quase todas as temáticas, que um programa eleitoral de um partido democrático pouco europeísta geralmente comporta.

O programa da AfD propõe-se devolver competências aos Estados nacionais, que lhes foram retiradas pelos tratados de Maastricht, Schengen e Lisboa. Propõe um referendo ao Euro. É contra a união bancária. Tantos partidos democráticos europeus defendem o mesmo. Propõe castigos mais severos para quem agride funcionários públicos. Não é o mesmo que em Portugal reclamam médicos, professores, enfermeiros, polícias ou bombeiros?  A AfD é contra a criação de um exército europeu e apenas aceita a participação de tropas alemãs em operações fora da zona do tratado da NATO a pedido da ONU. Não é essa a política de quase todos os governos democráticos europeus? Propõe mais benefícios fiscais para as famílias, consoante o número de filhos. Não é isso que o governo socialista português também acaba de fazer? Muito mais exemplos se poderiam citar. Então se fosse por estas causas, os aderentes do AfD, bem se poderiam dividir pelos restantes partidos existentes na Alemanha, sendo inútil a criação do seu próprio partido. Mas não o fazem porque o objectivo central da AfD, não é nada disto. É necessário separar o óbvio, que consta em qualquer programa eleitoral, dos aspectos que realmente o distinguem dos restantes.

No caso da AfD as suas questões facturantes face à generalidade dos restantes partidos alemães são essencialmente as seguintes: liberalização do acesso a armas de defesa pessoal pelos cidadãos; rejeição de todas as políticas de identidade de género; suspensão da decisão de descarbonização da indústria alemã; rejeição da política de acolhimento de imigrantes. Muito parecido com o programa de Donald Trump. É seguramente por estes, ou pelo menos por algum destes objectivos, que a AfD, recolhe os 23% de votos que obteve na Turíngia e em outras votações, com pelo menos dois dígitos, que já vai obtendo no restante território alemão.

Se o objectivo de garantir o livre acesso a armas, de inverter as políticas de identidade de género ou travar a descarbonização não serão seguramente muito populares na Alemanha, já quanto às propostas de recusa dos imigrantes pode dizer-se que são música para os ouvidos dos alemães, como aliás o são na Europa, para os restantes países, salvo aqueles que não sofreram ainda a pressão imigratória, como é o caso de Portugal, Irlanda ou Finlândia, “protegidos” pela sua periferia.

O próprio objectivo das políticas anti-imigratórias da AfD têm um alvo muito específico: os islamistas. O programa da AfD tem o cuidado (cínico, mas certamente “simpático”) de aceitar o acolhimento dos “islamistas integrados na sociedade”, que até apelida de “membros valiosos da nossa sociedade”, mas interdita todas as expressões ou manifestações culturais identitárias de tais comunidades. É interdito o financiamento externo de construção de mesquitas; de quaisquer escolas especiais para a comunidade islâmica; propõe o encerramento das escolas corânicas e o fim de quaisquer excepções para alunos islamistas, como o direito de recusarem professoras do sexo feminino, etc. É só um palpite, mas não parece que muitos dos eleitores portugueses do PCP, PS, PSD e CDS até não entendessem estas interdições como razoáveis numa sociedade constitucionalmente laica como a nossa.

Na política de asilo, a AfD propõe-se cumprir a Convenção de Genebra de 1951, de que a Alemanha é signatária (e por causa da qual, aliás, a Convenção existe, pois foi a Alemanha que com a II Guerra criou talvez a maior deslocação de população do Séc. XX), aceitando a concessão de asilo apenas a refugiados políticos, com excepção dos refugiados de guerra, climáticos e especialmente os imigrantes puramente económicos.

As razões desta recusa não estão fundamentadas na impossibilidade de acolhimento ou até na sua necessidade. Radicam numa posição ideológica e, essa sim, é a sua última razão: a recusa expressa de uma sociedade multicultural na Alemanha faz parte do programa da AfD. E, neste particular, só há uma designação: isso é racismo. É o regresso à pureza da raça (qual raça, quando raça humana só há uma) e aos piores pesadelos do passado.

De certeza que combater este preconceito não será seguramente com a abertura generalizada das fronteiras e com a criação do caos social. Isso seria o melhor favor que se poderia fazer à extrema-direita. Mas os governos democráticos europeus têm mesmo de criar uma política comum de imigração, pois esta vai continuar e é imparável. A História é a melhor testemunha que quando os humanos querem migrar, mudam mesmo e nada os trava.

Hoje o alvo mais fácil para este racismo larvar são de facto os muçulmanos. É certo que esta comunidade por vezes adopta algumas atitudes identitárias, que são tidas como confrontativas pelos países de acolhimento, que as tomam como impróprias, para quem tem de ter consciência que está noutro país, com outra cultura, ao qual chegou voluntariamente e sem ser convidado. No caso específico da Alemanha, que é hoje o Estado de Direito mais completo da Europa, os hábitos e costumes nacionais são muito arreigados. Há uma tradição regulamentarista muito especial em todos os domínios. Na Alemanha não pode lavar o automóvel no quintal da sua casa, porque é anti-higiénico. Tem de o lavar numa estação de serviço ou é multado. Na Alemanha, caso se engane no contentor em que deve deitar cada tipo de lixo, o conteúdo do contentor não é simplesmente recolhido pelos serviços e o infractor vai passar pela vergonha perante os seus vizinhos de ser o culpado do mau cheiro. Muito mais exemplos se poderiam citar.

Preconceituosos somos quase todos, com mais ou menos consciência disso. Mas as políticas ideológicas baseadas na raça não são apenas preconceito. São racismo. Em tempos mais recuados podíamos dizer que sabíamos como tudo isto começava, mas ainda não sabíamos como acabava. Hoje sabemos. É indiferente que no passado tenha começado com os judeus e agora comece com os islamistas. Liberdade e racismo sabe-se que são incompatíveis. Depois dos islamistas serão os judeus, depois os opositores políticos, a liberdade de expressão, de manifestação etc.

Com as alterações climáticas, com a globalização e com toda a riqueza concentrada numa parte pequena do mundo, a opção é aceitar que o futuro é vivermos numa sociedade multicultural e multiétnica, onde de acordo com o cumprimento da lei, teremos de viver uns com os outros, que implica conviver com aquele que é diferente. Ou em alternativa entregamo-nos à protecção dum estado securitário, no qual abdicamos das nossas liberdades em troca dum purismo rácico que, aliás, ainda ninguém soube sequer indiciar, quanto mais provar, que tal coisa exista.

Está na decisão de cada eleitor, onde existe democracia, fazer essa escolha, talvez complicada, mas ninguém nos enganou quando nos disse que a vida, não é propriamente uma coisa fácil.

Votar ou não votar na AfD alemã e nas outras “AfD” que existem em toda a Europa passa muito por esta reflexão. A cada um os seus direitos e a cada um as suas responsabilidades.