As coisas são assim em todo o lado: os temas noticiosos registam ciclos, obedecem a modas; o que hoje inunda o prime time dos noticiários e as primeiras páginas dos jornais amanhã cairá no esquecimento.

No que respeita à corrupção há que contrariar essa tendência. O objectivo é manter o tema na agenda de todos os dias, para que o tenham sempre presente não só, e em primeira linha, responsáveis políticos, magistrados, polícias e jornalistas, como todos os cidadãos em geral, porque todos seles são vítimas inominadas do fenómeno.

Não receemos proclamar, não obstante ser já hoje um lugar comum, que a corrupção leva ao enfraquecimento do Estado de Direito e viabiliza práticas que aumentam as tensões sociais, diminuem e encarecem a oferta de serviços, facilitam a actuação do crime organizado e comprometem o desenvolvimento. Não receemos afirmar que o “negocismo” instalado em que se traduz a corrupção, a captura de meios públicos por interesses privados, a sobreposição de objectivos meramente egoísticos ao bem comum, afectam irremediavelmente a vida em sociedade, projectando malefícios transversalmente. Não haja dúvida de que as alterações climáticas que estão na ordem do dia têm entre as suas causas, de forma destacada, opções políticas de natureza estratégica contaminadas por actos de corrupção. Não se ignore que os fenómenos migratórios que pressionam a Europa e outras regiões mais desenvolvidas, gerando aí tensões sociais e fazendo germinar ideias xenófobas e soluções populistas e radicais, têm seguramente na sua génese décadas de má governação e níveis insuportáveis de corrupção nos países de origem.

A corrupção tem, pois, tamanho potencial lesivo dos valores mais profundos das sociedades modernas que não tardará que a comunidade internacional acabe por classificar os crimes a ela atinentes como crimes contra a Humanidade.

Cidadãos do Mundo que somos, vítimas que nos reconhecemos das consequências múltiplas desse mal, insurjamo-nos, por isso, contra qualquer tentativa de desvalorização do tema, de subalternização do fenómeno na ordem de prioridades do Estado, de veiculação de matreiros relativismos éticos. E reivindiquemos a permanente e máxima atenção ao assunto por parte de todos os poderes constituídos, sem cedências a quaisquer abrandamentos ou desvios por alegado surgimento de outras prioridades, de outros temas, de outras modas. Porque nada há que mais afecte a nossa vivência em sociedade e a saúde das democracias que lográmos construir e queremos manter. A corrupção é, verdadeiramente, um crime contra a Humanidade!

Coimbra, 9 dezembro 2019