Infelizmente, muitos de nós, os britânicos que vivemos na Europa, mas fora do Reino Unido, não temos uma voz no referendo da semana que vem. Fora do país há mais de 15 anos, também não tenho voto num assunto que terá consequências diretas para todos os britânicos com residência em Portugal.

Falta-nos o voto, e falta-nos também qualquer de voz no Reino Unido, pelo menos uma voz que seja levada a sério. Para além de uma mão cheia de correspondentes da imprensa britânica no estrangeiro, ninguém fala por nós no Reino Unido. Quando digo às pessoas de lá que escrevo crónicas num jornal em Portugal, eles pensam “ah, que engraçado, tão pitoresco!”… — vejo isso nos seus olhos. Esquecem-se que os conheço bem. Mas nós, os “Euro-Britânicos”, também somos gente, também temos uma opinião sobre tudo isto, e custa-nos estarmos a acompanhar o debate no Reino Unido numa espécie de dentro-de-fora, sem podermos ajudar e fazer a diferença.

(Bem, entre os Euro-Britânicos não estou a contar com aqueles “expatriados” da Costa del Sol — e da nossa costa do sul aqui em Portugal – que dizem nos vox pops que saíram do Reino Unido por causa dos imigrantes, e que agora querem sair da Europa por causa da imigração… Sim, vocês são um nojo. Já repararam que também são imigrantes?).

Mas, ainda pior do que sentirmos-nos excluídos, pior do que a preocupação sobre o que pode significar o Brexit para nós em termos reais e práticos, pior do que tudo isso, é vermos o que este referendo está a fazer ao Reino Unido, como o país se está a rasgar em duas partes (no momento em que escrevo, as sondagens dão 50/50), como o fervor nacionalista está a vir ao de cima, e perguntamo-nos se ainda pode ser pior: o país onde nascemos e crescemos está a tornar-se numa coisa que já não reconhecemos. Pelo menos, eu já não o reconheço.

Ontem, a deputada Jo Cox foi brutalmente assassinada. Ainda não sabemos exatamente porquê, se foi um ataque aleatório da autoria de alguém com problemas de saúde mental, ou se foi um ataque dirigido contra ela, por alguém com problemas de saúde mental, mas com uma raiva anti-europeia, anti-imigrante, nacionalista, industriado pelo grupo “Britain First” (um partido de neo-nazis, nacionalistas e racistas). Existem testemunhos estranhamento contraditórios sobre o ataque: segundo uns, o assassino gritava-lhe “Britain First”, enquanto a atingia com três balas, a esfaqueava e lhe dava pontapés; segundo outros, não era isso que gritava. Esperemos que, seja qual for a verdade, seja apurada em breve. Mas é um facto que há pessoas na internet, hoje, a proclamar a sua morte como uma vitória da “causa” deles.

Esta onda de ódio, incitada e exacerbada pelos falsos totós, desviados e perigosos, que são Nigel Farage e Boris Johnson (ver também: Trump) é perturbante, e faz lembrar os anos 30 na Europa. Ontem, Farage estreou um novo cartaz de propaganda pela causa “Leave” (sair), que mostra uma longa fila de refugiados do Médio-Oriente. A única diferença entre este cartaz e os cartazes de propaganda nazi dos anos 30 é que o cartaz de Farage é a cores e não está escrito em alemão.

Por que hoje temos a internet, é muito mais fácil para extremistas como os do Britain First, do Daesh, etc., organizarem-se, falarem entre si, viverem na sua bolha de ideias erradas e — o mais importante — massajarem os egos uns dos outros, de modo que cada um deles se sinta importante, enquanto brincam ao “real”. A internet ajuda um pateta a contactar facilmente os outros patetas, danificados e com auto-estima baixa, e a inflamá-los.

Embora a internet faça parte do meu dia-a-dia, a internet tem muita culpa neste caso, embora, sendo a internet, não haja ninguém em particular para assumir as culpa. E tal como no caso da internet, também não existe um partido nem um grupo que possam vir a ser, sozinhos, os responsáveis pelo resultado do referendo — um resultado que, ao contrário do que acontece em eleições legislativas, não pode ser invertido em novas eleições daqui a quatro anos, uma vez que daqui a quatro anos já tudo terá corrido mal (ou bem… enfim, sejamos otimistas quanto ao resultado…). Esta é uma decisão demasiado importante para ser definida num processo em que participam demasiados racistas e nacionalistas preconceituosos e patetas.

(traduzido do original inglês pela autora)

One voice on Brexit

Unfortunately, many of we Britons who live abroad in Europe don’t have a say in next week’s referendum. Those of us who have lived outside of Britain for more than 15 years don’t have a vote on a subject which will have direct consequences for us.

Nor do we have any other kind of voice in the UK, not one that is taken seriously, anyway. Apart from the handful of mandated foreign correspondents of the press, no one speaks for us over there. When I tell people from there, both press people and normal people, that I write a column in a newspaper, they think “oh, how quaint!”… I can see it in their eyes. They forget I know them. However, we “Euro-Britons” ARE sentient beings* and are sitting here helplessly watching the debate as inside-outsiders, and they forget we Euro-Britons probably have some valid thoughts about the whole damned thing.

But, worse that feeling disenfranchised, and worse than worrying about what Brexit might mean for us in real terms, we are watching what is happening in Britain with this vote, how it is tearing itself in two (as I write the the polls are at 50/50), watching this fresh rash of nationalistic fervour from afar, wondering how much worse it can get, wondering how did the country that made us turn into something we don’t recognise anymore. At least, that’s what I’m doing.

Yesterday, Jo Cox MP was brutally murdered. We still don’t know why, whether it was a random attack by someone mentally ill, or a targeted attack by someone mentally ill, burning up with anti-Europe, anti-immigrant, nationalistic hatred, having been groomed by Britain First (an extreme right wing party of neo nazis, nationalists, racists). There are weirdly conflicting accounts as to whether her murderer was shouting “Britain First!” at her as he killed her or was not. Hopefully the truth, whatever it is, will out, soon. Whichever is true, I have seen people on the net, today, claiming her death as a victory for their “cause”. A truly chilling sight.

This wave of hatred, incited and exacerbated by the devious and dangerous faux-buffoons that are people like Nigel Farage and Boris Johnson (see also: Donald Trump) is truly troubling, reminiscent of 1930s Europe. Yesterday, Farage produced a pro-exit propaganda poster, showing a vast file of middle eastern refugees. The only difference in the poster from nazi propaganda posters from the 30s was that it was in colour and it wasn’t written in German.

Because of the internet, today, it is so much easier for extremists, such as Britain First, such as Daesh, to organise, talk to each other across the country, across the world, live in their bubble of wrong ideas and, most importantly, to massage each other’s egos, make themselves feel important, while they play at being a secret army. The internet makes it easier for them to reach other damaged, pathetic people with low self-esteem like themselves, and work them up into a lather.

Although it is my bread and butter, the internet has an awful lot to answer for, but there is no one responsible for it in all its enormity. And just like the internet, there is no party responsible for the outcome of the referendum, an outcome that cannot be voted out of office in four years’ time, once it has all gone horribly wrong (or right… ever the optimist). That’s an awfully big decision for a whole lot of bigots to be a part of, non?

*well, most of us. A quick shout out to the “expats” on the Costa del Sol and here down south, the ones who tell us in vox pops that they left Britain because of the immigrants, and the ones who want Britain out of Europe because of “immigration”, you disgust me. Oh, and, not trying to be funny, like, but you ARE immigrants, luvs.