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Somos melhores do que a nossa falta de virtude.

Vimos centenas de pessoas encherem os paredões: passeios higiénicos, exercício, banhos, bicicletas, skates e patins, no primeiro fim de semana do confinamento. As imagens repetiram-se nos media, com entrevistas a quem trazia máscara, a quem presumia que não lhe fazia falta, e a quem se sentava a ver o mar. As excepções incluídas nas regras do segundo confinamento, interpretadas com mais ou menos abuso criativo, permitiram-no. A irresponsabilidade filmada e transmitida em directo.

Em simultâneo, e após um apelo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, em apenas quarenta e oito horas, mais de mil e quinhentas pessoas deslocaram-se para doar sangue. Algumas esperaram cinco horas para o fazer. Em pé, ao frio. Nos media estas imagens pouco passaram.

Seremos o povo desordeiro, arrogante, que sai de casa para passear? Seremos o povo solidário que sai de casa para doar sangue?

Somos o que decidimos ser. E acima de tudo, somos o povo que sai porque não pode ficar em casa e tem de continuar a limpar e lavar escritórios vazios, a cortar cabelos às escondidas e a reinventar-se para levar comida aos clientes. Porque não podemos não o fazer. Estes são os limites da pobreza. E este é o rosto da nossa vergonha, ao fim de trinta e cinco anos de integração na União Europeia e de sucessivas bazucas, oportunidades perdidas.

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Quem enche as carruagens dos comboios na linha de Sintra – em imagens partilhadas que deveriam fazer corar os nossos governantes –  não é um povo desinteressado e apático, nem é um povo irreverente, é um povo submetido pela necessidade e pela pobreza.

A abstenção, para quem quiser ouvi-la, é mais do que a voz da negligência, é a voz de quem se considera insignificante, irrelevante, menor. Invisível. Quando somos milhares, não somos ninguém. Ensinados, de berço, a aceitar o pior, a pior habitação, as piores escolas, as piores condições de trabalho, silenciamos. Peças substituíveis. O terreno fértil dos discursos radicais e populistas. O último vínculo com a sociedade que não vê.

Se somos o que decidimos ser, e para decidirmos em consciência, então temos de olhar para a pobreza que fingimos não ver e ouvir o que diz a abstenção.