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Quinta feira à noite, véspera do confinamento geral. Estaciono no parque da Gulbenkian, quase cheio. Ao fundo, a saudosa Citroën HY, Biblioteca Itinerante  ao serviço de um país pequeno, pobre,  de horizontes fechados e futuro progressivamente aberto pela insistência de quem acreditava que a cultura se transporta em páginas, se mostra e se aprende, se adquire e se transmite. A ampla sala do Grande Auditório enche-se devagar até metade da sua capacidade para respeitar as restrições sanitárias.

Sentada na penúltima fila da plateia, com tempo, vejo quem chega. Casacos quentes, máscaras coloridas, olhos franzidos a denunciar os sorrisos agora invisíveis, acenos para o outro lado da sala. Um grupo de quatro entra na fila da frente. Conferem o bilhete,  procuram os números nas cadeiras, sentam-se, levantam-se, trocam de cadeira, sentam-se, riem. As conversas cruzam-se. Uma senhora, de mais de oitenta anos, desce com o andarilho, sem medo dos degraus. Olho: a população de espectadores não é jovem nem tão pouco de meia idade – estes são as excepções. Estão ali, e sabem, não há como não saber, do risco acrescido do vírus depois de uma certa idade, mais quando há doenças associadas. Mas chegam e ocupam os lugares de sempre ou de acaso. E há uma razão para que nos juntemos todos ali, cadeira sim, cadeira não, obedientes aos funcionários que entre baias e cordões, pastores nos conduzem aos lugares voltados para o palco, pasto mais do que de cultura, da beleza, alimento de civilizações e nossa alegria, outro nome para comunhão.

Sexta feira de manhã, primeiro dia do novo confinamento geral. A obra no prédio ao fim da rua recomeça. São oito horas. Também aqui, no meu prédio, o elevador sobe carregado com o material para as obras do quinto andar. A janela do segundo andar em frente, abre-se para o cigarro da manhã, ainda de pijama. Os carros passam devagar, como é costume, à procura de estacionamento em zona vermelha, antes das nove. O café da esquina não abriu. Sem take away não pode. A tasca em frente da farmácia também não. Nem a loja de colchões. O supermercado, que ocupa meio quarteirão, já abriu. Se aqui houvesse uma escola, teria ouvido o toque de entrada.

É o novo confinamento geral. Compará-lo com o de Março de 2020 não é possível. Em Março produzimos o milagre português. Acreditávamos que o nosso comportamento tinha consequências e estávamos dispostos a pagar o custo das nossas perdas. Ficámos em casa. Agora não: Lisboa está na rua. Se Lisboa está na rua, por que razão os músicos da Gulbenkian não sobem ao palco e sacrificámos a temporada? Os nossos bilhetes sustentam não apenas os músicos e os técnicos, mas quem nos conduz ao lugar, quem imprime as folhas de sala, quem aspira o chão.

Este meio confinamento não dá sentido ao nosso sofrimento. O que se perde, de privilégio e de essencial, e quem perde nesta discriminação sem paridade, não justifica o pouco efeito que esta meia decisão entre Deus e o diabo trará.

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