Pós-troika

Fernando Medina: “Não podíamos ter evitado esta crise”

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O provável sucessor de António Costa na Câmara de Lisboa defende que Portugal não podia ter evitado a crise. Mas acha que o PS já devia ter discutido o tema. Agora, teme as feridas que se abram.

Foi chamado por António Costa para número dois na Câmara para “encontrar uma solução de continuidade para o projeto” – é tudo o que Fernando Medina diz, nesta altura, sobre se será o sucessor de Costa à frente da cidade de Lisboa (“lembro-me do que ele me disse, mas há coisas que não posso dizer!”). O segredo, pequeno, não tem porém paralelo no debate sobre o futuro do PS e sobre o país – passado, presente e futuro.

Numa entrevista a Maria João Avillez, Fernando Medina defende a herança recente do PS – nomeadamente a do último Governo de José Sócrates. “A leitura que se faz da crise é nuclear: por que é que aqui chegámos? Hoje é evidente que a leitura de que esta situação ocorreu por causa da despesa do Estado está profundamente errada”, diz o ex-secretário de Estado da Economia. “O que temos hoje é uma crise da balança de pagamentos, que resultou de uma acumulação de dívida (e não é sobretudo do sector público, garante) e de uma rutura do mecanismo de financiamento dessa dívida dentro da moeda única”.

Mas o Governo anterior não devia ter agido de modo diferente, para evitar a rutura?  “Se o Estado tivesse cortado os salários em 2009, isso não tinha evitado a crise. Se a política tivesse sido contracionista, a minha opinião é que não tínhamos evitado a crise. A Europa deixou que se introduzisse uma dúvida sobre se havia ou não financiamento aos Estados. A crise de financiamento começou nos bancos, mas estes têm financiamento no BCE – os Estados não”, acrescenta o socialista, braço direito de António Costa. Em suma: “Nós não podíamos ter evitado o problema da rutura de financiamento.”

Fernando Medina acredita, de todo o modo, que esta discussão devia ter sido feita no PS – e critica a atual direção por ter “silenciado” o passado. Mesmo que o debate não fosse pacífico no PS, teria sido clarificador, diz na entrevista. E acrescenta que essa seria uma vantagem de uma liderança de António Costa: “É ser ela própria e falar livremente. Assumir de frente o passado do PS, no que tem de bom e no que tem de mau. José Sócrates não é fantasma nenhum – cometeu erros, fez coisas grandiosas”.

Pelo meio ainda vem a longa disputa pela liderança – com as primárias marcadas para final de setembro. “Não teme ressentimentos, que as feridas sejam dificilmente sanáveis?”, pergunta Maria João Avillez. “Temo, isso naturalmente temo. É por isso que faço sempre um apelo à elevação do debate, com a tentativa de abrir menos feridas. Para que depois da clarificação o partido possa estar unido em torno da liderança que emergir”.

Um consenso novo, renegociando a dívida (sem perdas)

No que respeita à governação, Medina olha para os últimos anos como um fracasso. “O que comporta o risco é não termos uma solução sólida. Temos uma dívida de 130 do produto, crescimento inexistente, ainda um com défice com significado. Não vale a pena enganar os mercados”, anota o socialista.

As medidas de consolidação, defende, “estão a levar-nos para uma situação de insustentabilidade”. Sendo a sua solução a de uma “negociação séria na Europa sobre a situação da dívida”. Medina recupera a proposta de Miguel Cadilhe, apresentando-a como “a mais inteligente”: “O que ele diz é que devemos negociar um crédito suficientemente barato, que nos permita pagar a dívida, preservando o seu valor”. É uma “solução europeia: nós vamos à Europa, precisamos de apoio ao pagamento da dívida, com honra. E temos de assumir compromissos sobre como nos organizamos.”

Essa solução lembra a conseguida por Vítor Gaspar, então ministro das Finanças. Mas Fernando Medina acredita que o ex-ministro “tinha tido condições de fazer esta negociação” em melhores condições. “Não foi com a profundidade suficiente. E precisamos de uma solução mais forte.”

É para isso que espera António Costa. Diz que ele tem condições de promover “um entendimento interno”, também ele necessário, por considerar “irrealista pensar que vamos ter crescimento motivado por défices orçamentais sucessivos”. Um consenso que só vê possível depois de eleições, no pós-Passos Coelho. “O primeiro-ministro e Vítor Gaspar tiveram o pecado da soberba: que uma solução muito radical era a solução do problema. Hoje não tem nenhuma condição de liderar uma procura de consenso. Não sei se mesmo no PSD recolheria essa unanimidade”.

É esta, assim, a proposta de Costa que Medina apoia: “Uma base do compromisso na Europa – equilíbrio entre dívida, défice e crescimento. O que está em causa são as condições que nós temos para cumprir o tratado orçamental”.

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