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Francisco Assis em entrevista a dias do congresso do PS: “Há proximidade ideológica entre PS e PSD”

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A dez dias do congresso do PS, Assis promete dizer o que pensa sobre o próximo Governo: coligação com o PSD, deixando o CDS de fora. À esquerda é impossível, diz. E Costa não está à esquerda.

Assis não imagina uma coligação do PS à esquerda, nem com o CDS. Sem maioria absoluta, o PSD é o único parceiro que garante "estabilidade política"

A dez dias do congresso do PS que elegerá António Costa como líder, o eurodeputado Francisco Assis deixa pistas sobre a intervenção que fará do púlpito do Parque das Nações: “Se houver necessidade de um governo de coligação (…) terá de ser à direita”. Numa entrevista ao Observador, Assis é questionado sobre quem seria o parceiro ideal dessa coligação e a resposta é direta: “O Partido Social-Democrata”. O CDS fica de fora? “Apesar de todo o respeito que tenho pelo CDS-PP, é inquestionável que há uma maior proximidade ideológica entre o PS e o PSD, do que há com o CDS-PP”, justificou o deputado europeu.

Ainda assim, Francisco Assis admitiu nesta conversa com Maria João Avillez que a sua posição “nem sempre é muito popular, nem muito compreendida” no PS, mas defende que “se ninguém tiver maioria absoluta é desejável que exista uma coligação [à direita] (…) para garantir a devida estabilidade política”, porque não vê “francamente como é que se possa fazer uma coligação à esquerda”.

Mas que direita? Uma que não seja liderada, preferencialmente, por Pedro Passos Coelho. “À direita dir-me-ão alguns: com quem e em que termos? Se o PS ganhar as eleições, à direita vai haver mudanças e essas mudanças facilitarão entendimentos”, reforçou o socialista, referindo-se a uma eventual liderança de Rui Rio. Aliás, esta posição já tinha sido assumida pelo antigo ministro socialista Augusto Santos Silva, em entrevista ao Observador.

O caminho do PS passa pela Europa

Assis revelou, ainda, o que pensa sobre o papel do próximo Governo na Europa e qual será a estratégia do PS caso consiga a vitória nas eleições legislativas. O caminho socialista passará, não por afrontar ou “não cumprir” o Tratado Orçamental (TO), mas sim por aproveitar o facto de o “TO estar redigido de uma forma que permite interpretações diferentes. É aí que entra a negociação política” de Portugal na Europa, nomeadamente para a “mutualização parcial das dívidas públicas” do nosso país e de outros países europeus.

Aqui, e mais uma vez, Francisco Assis estendeu o desafio de defender os interesses do país na UE à “direita [que existe] em Portugal, que se reconhece nisto” e sobretudo ao “PSD, [onde] há uma linha (…), que eu julgo que tem expressão e que tem força, que não se reconhece neste modelo [de austeridade]”, referindo-se concretamente à ala do partido que apoia uma eventual candidatura de Rui Rio à liderança do partido.

Todavia, o ex-candidato a secretário-geral do partido socialista reconheceu que “nem sempre é muito bem compreendido por alguma esquerda que depois me [o] ataca com leviandade” quando assume esta ideia de que o futuro do país depende de largos entendimentos com esta ala do PSD, de forma a conseguir melhores resultados nas negociações com a Europa.

Francisco Assis admitiu, também, que o PS, caso forme Governo em 2015, terá como preocupação conduzir a sua política em conjunto com os parceiros europeus – desde logo com o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker – que querem protagonizar uma mudança profunda nas políticas económicas e orçamentais da União Europeia (UE). De outra forma, o socialista não antevê que qualquer Governo, à esquerda ou à direita, consiga por si só resolver os problemas estruturais do país.

“As posições dos partidos à nossa esquerda” inviabilizam coligações

Confrontado por Maria João Avillez com uma possível aproximação de António Costa aos partidos posicionados à esquerda do PS, e lembrando que Costa, principalmente no seu primeiro mandato como presidente da Câmara de Lisboa, celebrou acordos com o partido comunista, o deputado europeu afastou a possibilidade de um eventual entendimento com o PCP e com o BE no âmbito governamental.

Descrevendo como “disparatada” a avaliação generalizada que coloca António Costa mais à esquerda do que os seus antecessores – Mário Soares, António Guterres e José Sócrates – Francisco Assis argumentou que qualquer entendimento com os partidos mais à esquerda do PS está a priori afastado pelas “posições assumidas” pelo BE e principalmente pelo PCP, designadamente as relativas às questões europeias e de política internacional. O socialista lembrou, inclusivamente, o artigo recentemente publicado pelo jornal Avante! sobre a “chamada queda do Muro de Berlim” e a República Democrática Alemã.

Assis, no entanto, não descartou a hipótese de os socialistas se coligaram com o “Partido Livre ou com qualquer outra formação” que surja entretanto, “desde que respeitem as linhas matriciais do PS”, enquanto partido do centro-esquerda.

A herança de Sócrates, de Seguro e o virar de página com Costa

Apesar de nunca renunciar ao passado do PS quando tinha como líder José Sócrates, Francisco Assis acredita que “se o discurso político se fizer a partir de um fantasma político, que, ainda por cima, não está lá no Parlamento para se defender é evidente que isso nos prejudica”, referindo-se ao episódio vivido no debate do Orçamento do Estado para 2015, quando o atual líder parlamentar da bancada socialista, Ferro Rodrigues, evocou o nome do antigo primeiro-ministro, o que motivou um “coro de assobios” dos deputados do PSD e do CDS.

Ainda assim, o deputado socialista no Parlamento Europeu não deixou de defender José Sócrates, um homem “obstinado”, que “tentou até ao último momento (…) evitar a necessidade de pedir este auxilio [da Troika]”.

O socialista também não esquece António José Seguro, de quem foi apoiante nas eleições primárias – uma decisão que reconheceu como “muito difícil de tomar” – e que considera ter sido um dirigente de “grande rigor na forma como produziu o seu discurso político” e na forma como “não cedeu à tentação de radicalizar o discurso do Partido Socialista, o que talvez lhe tivesse dado um apoio momentâneo mais elevado”.

Reconhecendo que Seguro foi “muitas vezes injustamente atacado (…) pelo meu [seu] próprio partido e por pessoas fora do partido (…)”, Francisco Assis previu que o antigo secretário-geral “ainda vai ter papel importante na vida política portuguesa”, depois do natural período de hiato político.

Mas, agora, essa “página está virada” e António Costa é a figura que o PS escolheu para candidato a primeiro-ministro de Portugal. Sobre o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Francisco Assis considerou que “a afirmação de António Costa está feita: se ganhou como ganhou [primárias socialistas] é porque, na verdade, é respeitado no país inteiro como uma das grandes personalidades da vida política portuguesa e [porque] despertou uma enorme esperança” nos portugueses.

Mesmo quando questionado sobre o início do agora líder da oposição aparentemente “aos solavancos” – nas palavras de Maria João Avillez, que lembrou o atraso na apresentação do Orçamento da Câmara, a hesitação na definição da devolução da totalidade ou de forma parcial dos cortes salariais em 2016 e as dúvidas sobre a questão da renegociação da dívida soberana – Francisco Assis desvalorizou, justificando algumas dessas questões como resultado de um período de “adaptação” de António Costa e sobretudo do partido, que, no final do mês, elegerá oficialmente e ao que tudo indica Costa como secretário-geral dos socialistas.

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