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Nostalgia

7 gestos românticos do século passado

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A anos-luz da era Tinder, os namorados trocavam bilhetinhos, falavam horas ao telefone (fixo) e dedicavam músicas na rádio. Relembre e enterneça-se com alguns cromos do amor no final do século XX.

O casal de namorados da coleção Amor É foi criado pela neozelandesa Kim Grove em 1967.

DR

Autor
  • Tiago Tavares

Não é preciso recuarmos até ao tempo em que as meninas namoravam à janela e os rapazes lhes dedicavam serenatas. No último terço do século passado, aqui tão perto, os namorados gozavam já de uma maior liberdade de movimentos, mas a forma como partilhavam o seu amor, aos olhos de hoje, mantinha uma enorme candura. Aqui ficam alguns desses gestos inocentes dos apaixonados de antigamente.

1. Encher cadernos com os cromos da coleção “Amor É”

A neozelandesa Kim Corne começou por fazer estes desenhos como recados de amor que deixava ao seu futuro marido, Roberto Casali, nos sítios mais inesperados. A série “Love Is…” ganhou depois vida em livros e em tiras de BD nos jornais, rendendo milhões à sua criadora. Em Portugal, surgiu nos anos 70, em forma de caderneta de cromos, cartões e papel de carta. E os cromos iam com frequência parar à capa dos cadernos e dossiês das meninas apaixonadas. Os mais nostálgicos podem matar saudades com esta app para iPhone.

O casal de Amor É, ele de cabelo preto e ela de cabelo louro, eram quase sempre representados nus mas sem sexo à vista.

O casal de Amor É, ele de cabelo preto e ela de cabelo louro, eram quase sempre representados nus mas sem sexo à vista.

2. Falar horas ao telefone… fixo

É verdade que o telefone continua a ser um instrumento essencial entre namorados — o engate pode começar no Tinder, as combinações fazem-se por chat e o estado da relação é atualizado no Facebook. Mas, até quase ao virar do século, o telefone servia apenas para falar. E ligar para casa da pessoa amada implicava fazer figas para que não fosse o pai cioso ou o irmão gozão a atender o telefone. Quando não se queria que o resto da família ouvisse a conversa, ou um dos dois estava de férias em parte distante, a alternativa era comprar um Credifone e falar da cabina telefónica.

O Credifone era muito útil para telefonar à pessoa amada quando íamos de férias com a família.

O Credifone era muito útil para telefonar à pessoa amada quando íamos de férias com a família.

3. Dedicar uma música no “Quando o Telefone Toca”

O equivalente nos dias de hoje seria partilhar um videoclip do YouTube no mural do Facebook do/a namorado/a. Mas, entre as décadas de 60 e de 80, tudo levava mais tempo: os apaixonados tinham de ligar para a rádio, “dizer a frase” do patrocinador (que funcionava como senha de acesso) e pedir uma música para dedicar à cara-metade. O primeiro programa interativo da rádio nacional teve vários apresentadores, sendo o mais conhecido José Matos Maia, o mesmo locutor que recriou, em 1958, a invasão marciana relatada por Orson Wells em 1938. O modelo de “discos pedidos” ainda perdura, sobretudo nas rádios locais, mas já não tem o mesmo impacto de quando ouvíamos este genérico:

4. Cantarolar a canção “Quando o Coração Chora”

A canção portuguesa mais ouvida em 1983 foi um dos presentes de eleição entre namorados nesse ano, com mais de 100 mil discos vendidos. Imitando a voz do tenor Carlos Guilherme, aqui acompanhado por Júlia Gonçalves (o duo Romeu & Julieta), todos cantávamos “Quando o Coração Chora de Amor”, mas a letra correta era “Quando o Coração Chora é a Dor”. A canção romântica era uma versão de “Save Your Love“, de Renee Renato, que também chegou ao primeiro lugar de vendas no Reino Unido.

5. Gravar uma cassete com as músicas mais românticas

Ficar a ouvir rádio com atenção, para carregar no REC assim que começasse a canção que nos interessava (e tentando que não ficasse a voz do locutor), ou copiar músicas a partir de um gira-discos ligado ao leitor de cassetes. Assim se fazia um presente que era música para os ouvidos da pessoa amada. Os mais dedicados tinham como opção fazer um desenho nas costas do papel de capa, onde se escrevia também o alinhamento das músicas.

Para os menores de 15 anos: isto era uma cassete e dava música (quando a fita não enrolava).

Para os menores de 15 anos: isto era uma cassete e dava música (quando a fita não enrolava).

6. Fazer uma declaração nos “Pregões” do Blitz

O jornal de música nasceu em 1984 (tendo passado a revista em 2006), e um ano depois ganhou uma secção destinada a mensagens pessoais sem filtro, que incluíam as que eram dedicadas “à paixão de uma noite, uma tarde ou de toda a existência, que se apercebeu fugazmente e nunca mais se viu”, assim dizia o cupão onde cada jovem podia inscrever até 30 palavras. Os tempos já eram outros e a linguagem sexual foi ficando cada vez mais explícita, mas a ideia de enviar pelo correio uma declaração ao apaixonado não deixa de ser muito à moda antiga.

A secção Pregões e Declarações do jornal Blitz foi palco para originais mensagens de engate.

A secção Pregões e Declarações do jornal Blitz foi palco de originais mensagens de engate.

7. Dançar um slow numa matiné

Antes de terem idade para sair à noite, os adolescentes “iam a jogo” à tarde, nas matinés que muitas discotecas faziam ao fim de semana. Em Lisboa, era o caso da Acapulco (depois Crazy Nights), das Caves Mundial ou do Loucuras. Rapazes e raparigas dos liceus vestiam as suas roupas mais caprichadas e esperavam pelo melhor slow para dar o primeiro beijo. Por vezes, no fim de um período de aulas, as matinés eram na própria escola, com a sala de convívio transformada em discoteca e as janelas tapadas por cartolinas pretas para ficar mais escuro.

As matinés das discotecas eram a ocasião para os primeiros "amassos".

As matinés das discotecas eram a ocasião para os primeiros “amassos”.

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