Editoras

O que é que a Oneworld tem que as outras editoras não têm?

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Os dois últimos vencedores do Man Booker Prize foram publicados pela Oneworld, uma pequena editora independente com 30 anos de história.

O norte-americano Paul Beatty venceu o Man Booker Prize com o romance "The Sellout"

Getty Images

A história da Oneworld Publications, uma pequena editora independente nascida em Londres há pouco mais de 30 anos, parece fazer-se em círculos. Apenas um ano depois de o jamaicano Marlon James ter recebido o Man Booker Prize, a Oneworld voltou a ver um dos seus autores a arrecadar o mais importante galardão de literatura de língua inglesa.

Paul Beatty, nascido em Los Angeles, tornou-se em 2016 no primeiro norte-americano a vencer o prémio desde a sua criação — da mesma forma que Marlon James foi o primeiro jamaicano. Os dois autores, negros, abordaram nos seus romances temas como o racismo e a discriminação, e escreveram livros fortes, violentos, que caíram nas boas graças do júri. Para a Oneworld, trata-se de um feito que poucas editoras podem gabar-se de terem alcançado.

Antes da editora londrina, apenas a Faber & Faber tinha sido capaz de arrecadar dois Bookers consecutivamente, em 1988 e 1989, com os autores Peter Carey e Kazuo Ishiguro, respetivamente. E isso só torna a façanha ainda mais impressionante — a Oneworld foi a primeira editora independente a consegui-lo. Nada mau para uma empresa que emprega cerca de 23 pessoas e que só começou a publicar ficção em 2009.

A literatura global que nasceu à mesa de jantar

Juliet Mabey e Novin Doostdar, donos da Oneworld, conheceram-se nos anos 70 quando eram ainda estudantes universitários. Juliet queria ser antropóloga, Novin contabilista. Mas as coisas acabaram por acontecer de outra forma: depois de se casarem, mudaram-se para o Chipre por causa do trabalho de Novin. Juliet tornou-se mãe e dona de casa a tempo inteiro.

Foi assim até 1986, quando ambos decidiram que estava na altura de mudar de vida. Saíram do Chipre e mudaram-se para Oxford com uma única coisa em mente: criar uma editora de livros de não-ficção para o grande público. Montaram um computador Amstrad na sala de jantar, Juliet fez um pequeno curso sobre edição e meteram mãos à obra, fazendo nascer a Oneworld Publications.

A editora nasceu da necessidade de preencher uma lacuna no mercado editorial. “Percebemos que havia não existiam livros de não-ficção competentes, bem escritos e dirigidos ao grande público no mercado”, contou Juliet Mabey, a partir de Londres, ao Observador. “Por exemplo, se quiséssemos aprender mais sobre psicologia (e não tivéssemos tempo para nos inscrevemos num curso), os únicos livros de fácil acesso nas livrarias eram os textos originais de pensadores como Freud ou Jung ou textos académicos secos.”

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Mas para ter bons livros de não-ficção também é preciso ter bons autores, e Juliet e Novin decidiram ir diretos à fonte e contactar diretamente académicos e especialistas. “Pedimos-lhes para preencherem a lacuna. Queríamos que eles trabalhassem com ideias e problemas atuais, produzindo livros que fossem globais no conteúdo e que pudessem ser vendidos no mundo inteiro.” Era uma maneira mais lenta de fazer as coisas (se tivessem ido direitos aos agentes literários tudo teria sido muito mais rápido), mas o casal estava mais preocupado com a qualidade do produto final.

Passados trinta anos, o catálogo da Oneworld é o que Juliet e Novin queriam que fosse. Há um pouco de tudo, desde a psicologia (sem textos originais, integrais e aborrecidos) à filosofia, passando pela história, a antropologia e a ciência. Este ano, a editora londrina adquiriu também os direitos dos Panama Papers, que traduziu diretamente do alemão com a ajuda de um grupo de cinco tradutores.

À procura de autores com a sua própria voz

Apesar de sempre ter gostado de romances, Juliet Mabey nunca tinha pensado em editar livros de ficção pela Oneworld Publications. Foi só em 2009 que tomou essa decisão, depois de ter chegado à conclusão que, ao longo dos anos, tinha lido “muitos romances bons” que gostaria de ter sido ela a publicar — romances de autores como Vikramn Seth, Chimamanda Ngozi Adichie e Monica Ali, que abordam “temas, ideias e culturas de uma forma muito emotiva”.

“Muitas vezes, em vez de lerem um livro de não-ficção sobre um tema como, por exemplo, a escravatura, as pessoas preferem um romance”, afirmou. “Foi por isso que, 20 anos depois de termos criado o nosso catálogo de não-ficção, decidimos atirar-nos de cabeça e procurar por romances que a pudessem complementar.” E Juliet sabia muito bem o que queria.

“Adoro livros brilhantemente bem escritos, com uma voz e história fortes. Mas procuro sempre aqueles que também dizem alguma coisa importante, que fazem as pessoas pensar e discutir. E é isso que um bom romance faz — transporta-nos para o seu mundo e permite-nos criar empatia com situações e pontos de vista que estão para além das nossas experiências.”

É por isso que na hora de decidir que autores publicar, a Oneworld escolhe sempre aqueles que “fogem ao padrão, explorando ideias interessantes”, que são “corajosos” e que não têm medo de experimentar com a forma e a linguagem. “Somos particularmente apaixonados por ficção do mundo, vozes e pontos de vista que refletem a diversidade rica do nosso mundo.” Uma receita que parece funcionar, dado o número de galardões que os autores da Oneworld têm arrecadado desde 2009.

Mais recentemente, Juliet e Novin decidiram apostar em autores estrangeiros. “Temos romances de mais de 30 países a serem traduzidos”, confessou Juliet. “E para o ano vamos lançar dois romances traduzidos do português — A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da autora brasileira Martha Batalha, e Prometo Falhar, de Pedro Chagas Freitas. Essencialmente, quero construir um catálogo de qualidade, muito diverso. E se um dos nossos romances ganha um prémio, isso beneficia o catálogo todo.”

O sonho de qualquer editor

No ano passado, o Man Booker Prize foi atribuído ao jamaicano Marlon James, autor de A Brief History of Seven Killings (editado recentemente em português pela Relógio d’Água). A obra, que gira em torno de uma tentativa de assassinato de Bob Marley em 1976, conquistou o júri apesar da linguagem forte e das descrições violentas, tornando-se assim na primeira obra da Oneworld a ser galardoada com o importante prémio de literatura de língua inglesa.

James foi, na verdade, o primeiro autor de ficção a ser publicado pela Oneworld, com The Book of Night Women (2009), mas não foi o único a ser nomeado para o Booker. Desde que a editora mergulhou de cabeça no mundo da ficção, já viu três dos seus autores serem nomeados para o prémio. Este ano, foi a vez de Paul Beatty, o primeiro norte-americano a vencer o Booker Prize. O autor venceu com The Sellout, uma sátira poderosa sobre a América contemporânea, marcada pelo racismo e a intolerância.

Juliet Mabey descobriu Paul Beatty durante uma conversa com Andrew Holgate, editor de literatura do jornal Sunday Times. Os dois encontraram-se durante uma entrega de prémios no ano passado, e Holgate mostrou-se surpreendido por nenhuma editora britânica ter pegado em The Sellout. “Fiquei interessada e comprei logo uma cópia. Li-o e adorei-o”, contou Juliet, que considera o romance “um livro importante”, que “mostra um mundo que os leitores poderão nunca ter visto antes”. “Fá-lo de uma forma acessível e engraçada, enquanto aponta os dedos afiados aos efeitos pérfidos do racismo. Isso torna-o particularmente especial. Tinha de o ter no meu catálogo.”

Naquela altura, porém, Paul Beatty, era praticamente desconhecido no Reino Unido. Apesar de terem sido publicados os seus primeiros três romances terem sido publicados em terras de sua majestade, pouco ou nada venderam. “Deve ter sido por isso que The Sellout foi recusado por tantas editoras aqui”, considerou Juliet. Mas a fundadora da Oneworld estava decidida e estava determinada em tornar The Sellout num sucesso.

As suas certezas foram confirmadas quando, pouco tempo depois, o romance foi selecionado para a lista de finalistas do National Book Critics Circle Award, um importante prémio literário norte-americano, e depois para o Bollinger Everyman Wodehouse Prize. “Isso deu-nos muito mais certeza de que poderíamos replicar no Reino Unido o sucesso que tinha tido na América. Mas ganhar o Man Booker Prize é o sonho de qualquer editora.”

Um sonho que Juliet Mabey e o marido já viveram duas vezes. “Tivemos muita sorte que dois júris diferentes, em dois anos seguidos, tivessem percebido a ficção que publicamos e que tivessem atribuído a A Brief History of Seven Killings e a The Sellout — dois romances soberbos — aquele que é unanimemente considerado o prémio de maior prestígio da língua inglesa.”

#Repost @burleyfisher with @repostapp ・・・ Bookseller's recommendation from Joe: – 'Who would guess that a book about re-introducing slavery and segregation in Obama’s ‘Merica could be funny? . Strap in for Paul Beatty’s driving prose, which through a rich tapestry of dynamic, satirical digressions takes us from intellectual debates in an LA Dum Dum Donuts to smoking pot during a Supreme Court case. It’s so chock-full of wit, cultural references and profanity that it might leave some readers reeling with the literary equivalent of brain freeze. . The Sell Out is anything but a gentle ride. But this on-the-nose subversion of a post-racial US is a trip worth taking.' – Please continue to support our #kickstarter campaign. Link in bio! – #burleyfisherbooks is an #indiebookstore in #Haggerston specializing in #smallpress #books

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Mas qual é a chave para o sucesso? Num meio dominado por grandes grupos editoriais, não deixa de ser surpreendente que uma pequena editora como a Oneworld tenha sido capaz de ganhar o Man Booker Prize durante dois anos seguidos. Para Juliet Mabey, o sucesso da Oneworld está na meta que ela e o marido se propuseram a seguir desde o início: publicar livros de qualidade, escritos por autores com uma voz própria e que são capaz de abordar temas complexos e importantes. Livros que tenham alguma coisa a acrescentar.

“Definimos que iríamos publicar livros para o grande público que comunicassem ideias importantes e, mais tarde, que iríamos publicar romances originais, corajosos e brilhantes que mostrem novos mundos aos leitores,”, afirmou Juliet. “É isso que continuamos a tentar fazer.”

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