Crítica de Livros

Goethe, o maldito: demasiado grande para ser grande

O livro que João Barrento escreveu sobre Goethe apanha muito bem o seu lado mais sombrio. Não se trata de uma monografia, antes de um ensaio que se erige claramente contra esta figura.

O.J.

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “Goethe – O eterno amador”
Autor: João Barrento
Editora: Bertrand
Páginas: 320

Não será injusto afirmar que Goethe foi o grande modelo de escritor durante o século XIX. À figura moderna, do escritor maldito, miserável e maus-fígados, em confronto com o poder e intransigente com a sua arte, precedeu um modelo certamente mais polido, em que Goethe foi ao mesmo tempo pioneiro e referência máxima.

Os exemplos de Vitor Hugo e de Garrett, dos escritores com uma intensa vida política, respeitados e respeitáveis, cujas palavras eram tão obedecidas quanto lidas, empalidecem diante de Goethe. Sim, Vitor Hugo também teve exéquias de estadão e uma aura napoleónica, de invencível e grandioso homem de letras; também Garrett foi político e poeta, dramaturgo e cortesão, tutela do bom-gosto e um hábil construtor da sua imagem; Goethe, porém, é o exemplo mais acabado do grande escritor, do escritor nacional que durante anos alimentou o ideal canónico da literatura.

Goethe é culto mas ao mesmo tempo arguto, tão capaz de entrar na liça mais clássica, entre os antigos, como de aproveitar a voz do povo, conhece a etiqueta mundana e as inquietações solitárias, é o grande político, o poeta clássico, o dramaturgo, o filósofo, o cientista e em todos os campos ombreia com os maiores.

É provavelmente neste sentido que Thomas Mann o toma como grande símbolo do espírito burguês. Goethe, como João Barrento faz questão de lembrar, não é apenas o escritor do espírito liberal, mesmo que embelezado nos seus contornos mais prosaicos. Claro que há em Goethe um ar de respeitabilidade mundana, uma certa vontade de consenso entre os vários espíritos, um apetite pela honraria, que são característicos do espírito burguês; também há certamente uns grãos de empáfia patriótica, ou um respeito pelo povo abstracto, típicos do que viria a ser a burguesia Prussiana. Estas, no entanto, são características que estão sempre em conflito com um Goethe mais íntimo e mais forte, que nunca deixa de se manifestar. É isto que o torna ao mesmo tempo tão grande e misterioso: apesar de ser o grande escritor da era respeitável da literatura, há sempre nele alguma coisa que não corresponde a essa imagem. Dos semi-escândalos amorosos à fuga para Itália, de uma desconfiança em relação à Revolução Francesa que tão mal ficava num espírito iluminado, às irreverências do Sturm und Drang, há sempre em Goethe um movimento demasiado forte para suster a casaca.

Goethe tem um amor verdadeiro pelo conhecimento, uma curiosidade de criança, que lutam permanentemente com o seu lado mais mundano. O drama de Goethe, mais do que o de Werther, é sobretudo o de Fausto.

Há nele uma verdadeira vontade de síntese entre mundos impossíveis, e uma noção de que há algo de mentiroso nessa síntese. Se aprofundarmos o espírito burguês de Thomas Mann para um segundo patamar, podemos tomá-lo como esta ideia individualista do Homem acabado, a vontade de ser tudo, de ser a medida e a síntese do mundo inteiro. Goethe, neste sentido, é de facto o grande escritor do espírito burguês, embora de um modo angustiante: aquilo que está em causa no Fausto é precisamente a ideia de que neste degrau último do conhecimento, no princípio último de todas as coisas, na síntese total, há qualquer coisa de diabólico, de mentiroso. A verdade implica sempre uma rejeição de alguma coisa, não pode ser total. O conhecimento total é, assim, antes de uma questão de verdade, uma questão de vaidade, de desejo de grandeza. Este lado sombrio faz de Goethe muito mais do que um “grande” à maneira burguesa. Faz dele alguém que cobiça essa mesma grandeza, de uma maneira superior a todos os outros – afinal, tanto sabe ser um poeta clássico, como um romancista romântico, tanto um escritor tradicional, como um vate erudito –, mas que ao mesmo tempo a percebe como perniciosa.

O livro que João Barrento escreveu sobre Goethe apanha muito bem este seu lado mais sombrio. Barrento conhece bem os tópicos literários da época, está à vontade entre a bibliografia sobre Goethe e também no mundo dele (Schiller, depois Novalis, a sociedade alemã) e esforçar-se por nos dar conta do método aproxivo de Goethe, um método que o leva a repensar sempre os seus temas de uma maneira mais ambiciosa e mais profunda, e que dá ideia do lado menos mundano da sua personalidade.

É uma monografia surpreendente, uma boa surpresa editorial, porquanto não se está à espera de um livro com esta forma académica, com alta densidade técnica, e mesmo sem nenhum esforço de ligeireza estilística (o abuso de parêntesis, por exemplo, dificulta um pouco a leitura), vindo de uma editora generalista. Não se trata de uma monografia propriamente esclarecedora – os factos biográficos, por exemplo, estão claramente dirigidos a um leitor que já os conheça –, antes de um ensaio que, pelos problemas que levanta, se erige claramente contra esta figura “grande”, burguesa, que tanto fascinou os intelectuais do século XIX.

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