Adelaide Ferreira: “Quando cheguei a Lisboa dormia às escondidas no Teatro Aberto”

10 Setembro 2017268

Foi primeiro do teatro e só depois da música. Começou pelo hard rock e venceria um Festival da Canção. Mas, quando era nova, queria ser professora primária. Adelaide Ferreira em entrevista de vida.

O que realmente queria era ser professora e não cantora. Mas cedo Adelaide Ferreira, ainda adolescente, foi para Évora estudar teatro, deixando as Caldas da Rainha para trás — na verdade, o que deixou para trás foi a “desilusão” que o pai lhe causou após um episódio de violência em casa. Quando chegou a Lisboa vinda do Alentejo, anos depois, não tinha onde dormir e fazia-o “às escondidas” no Teatro Aberto — foi lá que se estreou profissionalmente a convite de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho –, alimentando-se durante o dia de leite achocolatado e bolas de Berlim. “Foi uma vida dura.”

Com o guitarrista Luís Fernando, ex-marido de Adelaide, comporia num quarto de pensão lisboeta “Baby Suicida”. O sucesso foi imediato e a canção proibida, por exemplo, na Renascença. “Na rádio acusavam-me de dizer a palavra ‘merda’. Mas a verdade é que não dizia ‘merda’ em nenhum lado!” A “revolta” de Adelaide (vinda sobretudo da adolescência e da relação com o pai) tinha-a levado para o hard rock, ainda que nunca tenha experimentado os seus excessos que neste se experimentavam à época: “Fumei uns charros, é verdade, mas nunca snifei nem injetei nada”.

Tozé Brito levou-a para um lado mais “romântico” e para o Festival da Canção, que Adelaide venceria em 1985. “Hoje sou popularucha. Mas na altura fui um bocadinho gozada. Tinha fugido um bocadinho do rock e aquela aparência era horrível! A roupa ainda vá que não vá; os cabelos é que não. Não curtia muito. Nem gostava que me abordassem nada rua.”

Nunca desejou o sucesso que alcançou. “O que queria era ir para a floresta e conversar com as árvores. Quando gravei o álbum ‘Amantes e Mortais’, o manager da Madonna — à época um tal de Lipstick — ouviu-o e quis-me editar no mundo todo. Mas nunca quis ser figura pública, nem a fama, o sucesso — nunca quis nada disso.”

Em 1981, num festival que decorreu no antigo estádio José Alvalade (Créditos: Manuel Moura/LUSA)

Sabes, começo a ficar um bocadinho cansada.

Cansada?
Sim, começo a ficar. Sobretudo porque às vezes faço concertos um bocadinho mais modestos. Há condicionalismos que… [pausa] incomodam, pronto. Acho que quando se vai fazer um concerto ou uma peça de teatro, tem que haver boas condições para que possamos corresponder àquilo que esperam de nós. Quando se faz algo ligado à arte, quem o faz deveria ter condições para fazer. Seja na arte ou seja onde for, claro. Acho que o mínimo que se pede é dar um bocadinho de condições às pessoas para serem felizes no local de trabalho. Ainda recentemente na revista [“Parque à Vista”] também não tinha condições nenhumas, eram condições muito adversas, condições que só mesmo alguém muito resistente aguentaria. Aguentei seis meses, mas foi duro, duríssimo. É quase impossível lidar com a falta de condições, estás sempre a lutar contra a adversidade, estás a fazer o teu trabalho mas a lutar. O que tens é que estar feliz. O mundo é um lugar onde se deve ser feliz. E ser feliz para as pessoas hoje em dia é ter um trabalhinho. Não chega.

Entrevistei há umas semanas o Tozé Brito e ele contou-me que, na província, chegou a dar concertos em cima de carros de bois. Isso certamente não acontece hoje…
Agora já não é assim. E nunca me aconteceu isso — porque sou posterior ao Tozé. No princípio dos anos oitenta já não se apanhava isso. Mas aconteceram peripécias fantásticas. Sei de colegas que foram para o palco, disseram à organização que estava com falta de terra, e veio um camião cheio de terra para cima do palco. “Mas para que é que é esta terra toda?” “Vocês não pediram terra?!” [Risos] Isto acho que foi com os UHF — que eram do rock como eu.

E hoje em dia?
Hoje em dia as condições são precárias. Mesmo precárias. Na última peça de teatro que fiz o som de retorno ora dava, ora não. As pessoas que lá [Teatro Maria Vitória] trabalham há muitos anos já se habituaram a isso. Mas isso não dá tranquilidade aos atores. Estamos sempre num stress desgraçado, a sério. Houve pelo menos duas vezes que faltei à cena porque lá em cima, nos camarins, não se ouvia nada do que acontecia em cena!

Mas ainda aguentou seis meses, portanto…
Foi difícil. Fui para lá descobrir condições… [pausa] absolutamente rudimentares! Não é que eles não façam o seu melhor, são pessoas que amam o que fazem, mas não se fazem omeletes sem ovos. Fui estoica, aguentei seis meses, mas não concebo a arte de forma infeliz e saí. Lembro-me perfeitamente dos dias em que chegava à cena e era a pessoa mais alegre daquele teatro, daquele elenco. Sou assim: alegre, viva, contente. E não concebo a vida e a arte sem contentamento. E alma! Quando fazemos algo, ao menos que o façamos com alegria. Acho inadmissível que o patronato hoje em dia não providencie essas condições. Muitas vezes ter que trabalhar já é uma grande seca. Para a maior parte das pessoas, claro. Quando trabalhamos em algo de que gostamos é melhor um pouco. Mas não deixa de ser uma seca quando as condições são adversas e deixa de nos apetecer ir trabalhar. Foi o que me aconteceu.

Fez teatro mas nunca tinha feito revista. Não sabia que as condições no Paque Mayer há muito que não são as melhores? O que é que a levou a aceitar o convite?
Não sabia, não sabia. Não fazia ideia nenhuma. Até porque já tinha trabalhado, há muito tempo, num teatro do Parque Mayer e tinha tido as condições todas. Agora é que deixaram aquilo cair. Destruíram o Parque Mayer, o público deixou de ter aquela apetência para ir ao coração da arte em Lisboa. Deixaram aquilo depauperar porque vai hoje menos público ao teatro, há crise, e para piorar ainda resolveram abrir em frente ao pobre e pequenino teatrinho resistente um sítio onde põem música altíssima, até às tantas da noite. Isto é uma pouca vergonha e é gozar com quem trabalha.

E isso atrapalhava muitas vezes o espetáculo, é?
Pois! No começo diziam-me: “Se ouvires música altíssima não estranhes…” Isto é um desrespeito total pela arte. Acho que aquelas pessoas do Teatro Maria Vitória merecem mais e melhor. Não consegui aguentar, não fui resistente, vim-me embora e desisti. Também pela minha saúde… [Pausa] Estava a ver que não conseguia curar uma grande constipação com tosse recorrente. E tive mesmo que sair. Ou ficava e perdia a voz, ou saía. Aqui há tempos morreu-me uma pessoa muito querida com duas pneumonias e isso traumatizou-me um bocado. Comecei a imaginar-me a sair do teatro com uma pneumonia e isso é complicado. Saí de forma brusca, é verdade, até abruptamente, mas sempre fui um bocado assim: sou de roturas.

Foi mesmo só isso que a levou a sair? Ou o facto de muitas vezes a sala estar algo vazia também a fez querer sair?
Não, de maneira nenhuma. Não! Não sou esse tipo de pessoa. E felizmente nunca tive a sala completamente vazia. Acho que nesta revista a sala estava quase sempre boa. E fico muito contente por eles. Espero que a minha saída abrupta tenha contribuído para melhorar alguma coisa. Não sei se contribuiu ou não.

"O primeiro grande amor da minha vida foi o meu pai. E o primeiro grande amor da minha vida deu-me uma grande deceção. E foi por causa do segundo grande amor da minha vida que o meu pai me dececionou, que fez o que fez. Eu tinha dezasseis anos. Não era nenhuma coisa do outro mundo namorar com dezasseis anos. Posso dizer abertamente: saí de casa virgem."

A Adelaide foi primeiro do teatro e só depois da música. Mas sei que na infância, em casa, a música era muito presente, sobretudo por causa do seu pai — que era colecionador de música clássica. É verdade?
Sim, ouvia muita. Cresci nas Caldas da Rainha. O meu pai devia ter uns quinhentos discos de música clássica em casa, era um “devorador”. Ele chegou a tocar trombone. E toda a família dele tocava nas orquestras locais, bandas filarmónicas e assim. E ele tinha um amor extraordinário à música clássica, então, cresci a ouvir aquilo desde que me lembro. Não há coisa mais enriquecedora para uma criança, acredita. Posteriormente, tivemos um amigo espanhol que era visita de casa e nos conseguia trazer música que à época era proibida em Portugal, sobretudo rock — Black Sabbath, por exemplo. Depois do 25 de Abril chega-me a música toda de intervenção: o José Mário Branco, o Zeca Afonso… Nunca ouvi música foleira, tive muita sorte. Agora é que ouço música foleira em Portugal. As rádios estão absolutamente insuportáveis, é só música comercial estrangeira, em inglês. Vou à província e só se ouve música mixuruca. O conteúdo é desprovido de qualquer senso. É muito triste ver o mundo a caminhar para um lugar onde a arte não tem lugar — perdoe-se-me a redundância. A arte está a morrer, paulatinamente mas está. Acho que por exemplo o Salvador Sobral veio interromper o funeral da música em Portugal. Gosto muito dele.

Na infância acabou por ter alguma formação musical?
É assim: desejei ter, tentei, ainda andei a rondar a filarmónica lá do sítio [Caldas da Rainha], mas acabei por ir aprender a cerzir, a coser. [Risos] Depois fiz teatro…

Ainda nas Caldas?
Sim, sim. Teatro musical. Também fiz ballet. E cantava na escola primária — tínhamos o canto coral. Depois ingressei num curso de teatro onde, aí sim, tive formação musical a sério.

Foi estudar teatro para Évora. Custou-lhe sair de casa tão cedo? Tinha 17 anos.
Era um pedacinho cedo. Mas teve que ser. Não era o que queria, mas teve que ser. O que eu queria mesmo era ser professora primária e ganhar dinheiro para levar a minha mãe a passear — ela estava sempre em casa. Mas até queria muito mais ser cantora do que professora ou atriz. Sempre gostei muito de ler, também. E também houve uma altura em que queria ser escritora. Em menina lia muito — José Mauro de Vasconcelos, Richard Bach, Antoine de Saint-Exupéry… — debaixo dos cobertores com uma lanterna para que o meu pai não visse.

O que é que precipitou a ida para Évora?
O meu pai. A postura do meu pai na minha vida não foi fácil. Ele era um bocadinho… [pausa] nervoso. E certo dia foi de tal maneira “nervoso” para comigo que resolvi sair. Deixei lá a minha alma gémea, que faleceu há um ano. Até hoje choro a morte dele. E tive que me afastar.

Estamos a falar de violência doméstica, é isso?
Sim, sim. E sabe Deus como foi traumatizante para mim. Mas não quero falar disso, vou começar a chorar e não quero… [Pausa] Foi muito traumatizante, sim. Nem tanto pelo que o meu pai fez, mas porque deixei lá a minha alma gémea. Isso talvez tenha sido a parte mais dolorosa. Deixei-o lá e depois perdi-o. É triste.

A “alma gémea”é o José Pires?
Sim. Ele era pintor… Faleceu há precisamente um ano.

O José Pires foi portanto o seu primeiro namorado?
Foi. Foi, foi. E o meu primeiro amor. O meu primeiro beijo foi com ele, na Foz do Arelho. Meu Deus, vi estrelas! Quando as meninas dizem que veem estrelas, é verdade. Eu vi estrelas. Comigo não foi uma efabulação. Foi o grande amor da minha vida, o José. Sem dúvida.

Mas o seu pai não aceitava esse namoro.
Não. E isso obrigou-me a partir. Foi uma amargura muito grande. O primeiro grande amor da minha vida foi o meu pai. E o primeiro grande amor da minha vida deu-me uma grande deceção. E foi por causa do segundo grande amor da minha vida que o meu pai me dececionou, que fez o que fez. Eu tinha 17 anos. Não era nenhuma coisa do outro mundo namorar com 17 anos. Mas foram encher os ouvidos ao meu pai. Só por causa disso é que certamente ele fez o que fez. Posso dizer abertamente: saí de casa virgem. O que diziam não era verdade. Sempre fui uma menina muito respeitadora dos meus pais. A situação foi: ou fico aqui [Caldas da Rainha] e não sou feliz, ou vou já embora. E fui.

E como é que surge a possibilidade de ir para Évora, para o Centro Dramático de Évora?
Fui atrás da minha irmã mais velha, a Laurinda. Ela foi um modelo de vida para mim. Sabes: antes do 25 de Abril ela tinha um póster do Che Guevara atrás da porta do quarto! Lembro-me perfeitamente de o meu pai andar a dizer para ela tirar aquilo, com medo que a PIDE descobrisse e acabássemos todos presos. [Risos] Todas as coisas que ela amava eu amava.

Foi com a Laurinda que ganhou consciência política? Nunca escondeu que é de esquerda.
Não, na altura [do 25 de Abril] tinha 14 anos e era muito pouco culta a esse nível. Ainda não tinha despertado para a política. Só posteriormente é que despertei. Quando comecei a ouvir as letras do José Mário Branco e do Zeca Afonso, despertei. Tornei-me uma mulher de esquerda. Só por uma vez me filiei num partido e foi no Partido Comunista Português. E continuo filiada. Assumo-o abertamente. Sigo quem ajuda os que mais precisam, quem realmente está mal. Estou-me marimbando se me voltam a convidar [Câmaras Municipais] para ir cantar aos sítios ou não — quero é cantar onde sou feliz! –, mas tenho que o dizer: sou uma mulher de esquerda.

Mas voltando à ida para Évora. Que influência é que a sua irmã Laurinda teve?
Ela foi primeiro do que eu.

Ambas queriam estudar teatro, portanto.
Sim, nós fizemos teatro nas Caldas, na Sociedade Recreativa “Os Pimpões”. Até cheguei a substituí-la numa peça. E posteriormente fiz teatro “mais a sério”, uma peça de Alfred Jarry — o “Rei Ubo” — no Centro Cultural [das Caldas]. Depois, acabei por ir para Évora. Fiz o 10.º ano e fui. E não me arrependo minimamente de ir ido…

Sendo tão novas — a Adelaide era ainda adolescente –, como é que se sustentavam em Évora?
Naquela altura o Partido Comunista “mandava” em Évora e havia subsídios para os jovens estudarem teatro. Hoje em dia ninguém subsidia nenhum curso de teatro. Na altura eu tinha três contos para o mês inteiro. Não era muito mas chegava-me — porque nós é que servíamos o pequeno-almoço uns aos outros na escola, o quarto era um conto e quinhentos para as duas, e chegava.

"Quando cheguei a Lisboa não tinha onde dormir. Houve umas noites em que dormi às escondidas no Teatro Aberto sem que ninguém soubesse. Tinha acabado de chegar, não tinha um salário e durante o primeiro mês foi horrível. O meu almoço nos primeiros tempos era uma bola de Berlim e um UCAL, na Praça de Espanha."

Depois de sair de Évora vai logo para o Teatro Aberto. Como é que surge esse convite? É do próprio João Lourenço, o diretor?
Não foi o João Lourenço que me convidou, não. Foi assim: na altura fazua canto livre nas festas do PCP e, certo dia, o Paulo de Carvalho e o Fernando Tordo viram-me e convidaram-me para ir para o Teatro Aberto. Não queria ir.

Então?
Chorei imenso, não queria vir para Lisboa. [Risos] Queria ficar em Évora. Lembro-me de me sentar a chorar nas escadinhas do Teatro Garcia de Resende. E de dizer ao Mário Barradas, o diretor, que queria ficar lá. Havia muita liberdade, muita verdade, muita autenticidade em Évora. E queriam-me levar para um lugar que eu não sabia exatamente o que era.

Mas nessa altura já sabia quem era o Rui Mendes, a Irene Cruz, o próprio João Lourenço, ou seja, aqueles com quem iria trabalhar no Aberto.
Não sabia quem era ninguém. Eu queria lá saber! [Risos] Eu sabia era quem era o Stanislavski, o Grotowski… Não conhecia ninguém ou quase ninguém aqui. Só aceitei porque em Évora me disseram que tinha que mostrar ao mundo o que aprendi lá. E aceitei. Mas não queria.

Mas aprendeu certamente muito no Aberto.
Não cheguei a trabalhar com o João Lourenço, por exemplo. Mas fiz coisas maravilhosas no Teatro Aberto, sim. Fiz Ary dos Santos. Estive seis meses em cena com dois espetáculos [“Os Macacões” e “O Caso da Mãozinha Misteriosa”] dele — e sempre com sala cheia. Aprendi tanto, conheci pessoas incríveis, a Helena Isabel, o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo é uma jóia de pessoa, o Pedro Osório — as pessoas que eu guardo mais até são curiosamente as pessoas na música no Teatro Aberto. E foi absolutamente enriquecedor, porque nós cantávamos tudo em harmonia. Fazíamos teatro de esquerda e cheguei a ir cantar à antiga União Soviética.

A sério? Como foi isso?
A Luísa Bastos tinha ido estudar canto para a União Soviética e quando regressou foi trabalhar connosco no teatro. Certo dia ela tinha que ir cantar a Sóchi, não podia e acabei por ir eu, com 19 aninhos. Fui aventureira — até inconsciente. Cantei e vim-me embora, não deu para ver muito.

O que é que se segue ao Teatro Aberto?
Depois fui até ao Algarve, com o meu ex-marido, o [guitarrista] Luís Fernando. Antes tinha tido um romance, um pequenino romance com o maestro Pedro Osório — é a primeira vez que eu conto isto! –, tive três meses de amor e um grande, grande desgosto. Ao fim de um ano de desgosto um colega de teatro convida-me para sair, porque eu estava sempre em casa e no camarim a fazer malha. [Risos] Nessa saída conheço o Luís Fernando e acabo por ir com ele para o Algarve. E fui muito feliz. Muito mais feliz do que em Lisboa. Quando cheguei cá não tinha onde dormir! Houve umas noites em que dormi às escondidas no Teatro Aberto sem que ninguém soubesse. Tinha acabado de chegar, não tinha um salário e durante o primeiro mês foi horrível. Foi uma vida dura. O meu almoço nos primeiros tempos era uma bola de Berlim e um UCAL, na Praça de Espanha. E pronto, lá fui para o Algarve com o Luís, aprendi a cantar com menos medo, tinha muito pouca responsabilidade e era feliz assim.

E onde é que cantava no Algarve?
Bares. Restaurantes. Onde nos deixassem cantar. E ganhei muito dinheiro assim no verão. Só voltámos a Lisboa no inverno a seguir. Fomos viver para uma pensão. E é nesse quarto da pensão que nasce o “Baby Suicida”. Ele estava lá a tocar, eu comecei a improvisar por cima e saiu-me a melodia toda de enfiada. A melodia é toda minha. E depois gravámos o Baby Suicida. A canção foi um sucesso descomunal, algo absolutamente inesperado para mim. Depois? Depois acabo por me separar do Luís um tempo, o Tozé Brito apercebeu-se disso e convida-me para ir cantar ao Festival da Canção. Fui cantar o “Quero-Te, Choro-Te, Odeio-Te, Adoro-Te” em 1984. A coisa correu bem. Mas é só no ano seguinte, com o “Penso Em Ti (Eu Sei)”, com música do Tozé e letra minha, que venço. É pela mão do Tozé que me torno uma cantora mais “romântica” e menos do hard rock.

Mas não gostava de ser do rock? Por causa dos excessos, talvez, que existiam no rock à época…
Excessos? Não. As pessoas do rock eram atinadinhas. [Risos] Fumar uns charros não era nada do outro mundo.

Não eram só “charros”. Era realmente um tempo de excessos.
Talvez. Eu também fumei os meus charros. Mas nunca cedi a adição de espécie alguma. Não vejo mal nenhum em tê-lo feito, abriu-me muito a mente e, provavelmente, ainda os irei fumar — quando já não tiver que ser um pessoa absolutamente centrada nos meus filhos. Mas não fumo um charro há uns vinte anos.

Mas não deixa de ser estranho — ou curioso — que alguém tão pacato, sempre voltada aos livros, que fazia malha nos camarins do teatro, de repente se vê no rock português dos anos oitenta.
Foi a influência do meu ex-marido. E confesso que tinha uma revolta muito grande no meu coração por causa do meu pai. Foi por isso. Os meus ídolos na música também eram do rock sinfónico: os Pink Floyd, o Rick Wakeman… E a atitude estava lá: porque tinha ouvido muito aquilo e porque estava em “modo” revolta. Não gostava do mundo. A sociedade era um vómito, abominava tudo aquilo. Em tempos houve um jornalista do Diário de Notícias que na crítica a um desses álbuns de rock [“O Realizador Está Louco”] disse que eu me devia deixar daquilo e ir cavar batatas! [Risos]

As críticas afetavam-na muito? Importava-se?
Aquele disco foi o meu último grito de alerta para mundo. O que basicamente estava a dizer é que quem “realiza” isto tudo [sociedade] está louco. E esse crítico não gostou disso, pronto. Sempre me estive marimbando para as críticas, sempre fui out of the box, e continuava a fazer o que queria. Aliás, nunca li críticas. Não estava nem aí. Não tinha tempo, era muito hippie e o que queria era escrever letras e cantar. Na rua sempre fui olhada, nessa altura, como uma pessoa um bocado “estranha”.

Estranha?
Sim. Nunca tive uma vida muito linear. Mas também nunca fui drogada como a certa altura chegaram a dizer que fui. Nunca snifei cocaína, nunca espetei uma agulha no corpo, nunca fiz nada disso. Era um ser estranho, só isso. E acabei por ser um bocadinho gozada quando fui ao Festival da Canção…

Porque nada daquilo — o penteado, as roupas… — era a tal Adelaide “estranha”…
Nada. Tinha fugido um bocadinho do rock e aquela aparência era… [pausa] horrível. Era horrível! As roupas ainda vá que não vá; os penteados é que não. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Tinha 25 anos e não curtia muito. Nem gostava que me abordassem nada rua, por exemplo.

Hoje gosta?
Hoje gosto, hoje sou “popularucha”, o que quero mais é que venham ter comigo na rua. As pessoas que vão aos espetáculos, aos pequenos espetáculos que ainda faço sabem isso perfeitamente. Desço à plateia e dou-lhes carinho. Mas naquela altura não era assim. E cheguei a ser proibida de passar na Renascença.

Então?
Lembro-me perfeitamente. Foi na altura do sucesso do “Baby Suicida”. Na rádio acusavam-me de dizer a palavra ‘merda’. Mas a verdade é que não dizia ‘merda’ em nenhum lado! Fui proibida, pronto. Mas é bom ser proibido às vezes. [Pausa] Enfim, era gente vazia e desprovida de qualquer alegria…

Venceria o Festival da Canção em 1985 (Créditos: Acácio Franco/LUSA)

Quando vence o Festival da Canção tudo muda…
Sabes: incomodou-me muito ganhar.

Incomodou?
Sim, ficaram pessoas muito tristes porque ganhei… [Risos]

Não entendo.
Não gostei de ser posta à prova, de competir. Não faz parte da minha personalidade. E a minha vitória deixou imensa gente imensamente infeliz. Porque ganhei e não queria. Eles sim, queriam.

Quem? A Eduarda, que ficou em 2.º lugar? Os irmãos Feist, que ficaram em 3.º?
Não interessa, agora não interessa…

"Em 1984 fui chamada de urgência a Espanha, à Universal, para gravar um disco para a América Latina. Não gravei. Não era ambiciosa. Perguntaram-se se sabia falar castelhano, disse que sim, mas eu era uma hippie: fiquei de gravar uma canção dos Héroes del Silencio para enviar para a Universal lá em Madrid e nunca gravei nem enviei."

Mas o Festival da Canção deu-lhe uma visibilidade que até então não tinha. Isso não foi importante?
Sim. Sim, sim. Foi. Mas nunca me deslumbrei com isso. Nunca procurei o sucesso. E tenho histórias que o comprovam, acredita. Muitas vezes pensei: “Este mundo não é para mim, o que quero é ir para o meio da floresta conversar com as árvores…” Contava às árvores os meus sonhos, também os erros. Agora li algures que as árvores conversam entre si — se calhar não sou tão maluquinha como pensava que era. [Risos] Mas vou-te contar uma história que nunca contei a ninguém: em 1984 fui chamada — de urgência! — até Espanha, à Universal, para gravar um disco para a América Latina. Não gravei. Não era ambiciosa. Perguntaram-me se sabia falar castelhano, respondi-lhes que sim, mas eu era uma hippie: fiquei de gravar um canção dos Héroes del Silencio para enviar para a Universal lá em Madrid e nunca gravei nem enviei. Mas tive outra possibilidade de sair no mundo inteiro, queres saber?

Quero, claro…
É maravilhoso! A seguir a isso tenho talvez a oportunidade que me parece ser a mais ridícula de todas, que foi quando gravei o “Amantes e Mortais” — um álbum bilingue, em português e inglês.

Ridícula?
Na altura o manager da Madonna — um tal de Lipstick — ouviu as versões em inglês e quis-me editar no mundo todo. Mas o proprietário da editora disse ao tal Lipstick durante um jantar: “Vou ficar milionário à conta da Adelaide Ferreira…” E acho que foi tão gabarolas que o manager da Madonna o mandou bugiar. Mas nunca quis ser figura pública, nem quis a fama, o sucesso, nunca quis nada disso. Esse disco [“Amantes e Mortais”] está à venda no eBay por quatrocentos-e-tal dólares e foi considerado o melhor disco de sempre de hard rock em Portugal. Não sei se é verdade ou não. Foi o que me disseram. O disco foi produzido em Paris pelo Jean Louis Milford, o vocalista dos Century.

Além da música, além do teatro, a Adelaide fez também cinema. Entrou no “Kilas, o Mau da Fita” do José Fonseca e Costa…
Foi ele que me convidou. E também queria que fosse a protagonista do filme seguinte, o “Sem Sombra de Pecado”. Mas acabei por não aceitar. A protagonista seria eu e não a espanhola [Victoria Abril]. Mas depois tentei impingir o meu ex-marido ao Fonseca e Costa e a coisa não correu lá muito bem. [Risos] A Lena D’Água também chegou a ser convidada para o filme [“Sem Sobra de Pecado”]…

Havia uma certa “rivalidade” entre a Adelaide e a Lena na década de oitenta, não havia?
Havia. Havia, havia. [Risos] Confesso: tinha uma certa inveja do escritor fantástico [Luís Pedro Fonseca] com quem ela trabalhava. Mas entre nós não existia uma rivalidade no sentido mau do termo. A Lena nunca teve essa personalidade de confrontação — nem eu. Eu era a “bruta” do rock; ela era a “fofinha”. E sempre tive carinho — e continuo a ter — pela Lena D’Água. Uma coisa eu acho: acho que na altura a Lena queria ter um bocadinho da minha brutalidade e eu queria ser um bocadinho fofa como ela a cantar. Mas sempre nos acarinhámos muito. Nunca tivemos um problema. Tenho pena que a Lena não tenha hoje o reconhecimento que deveria. Tal como não tenho.

Mas sente que não tem esse reconhecimento?
[Pausa] Hoje dou menos concertos do que antes dava. Discos? Vendo menos. Mas também não sei se tinha pedalada para dar mais concertos ou gravar mais discos. Acho que é o percurso normal da vida. Não estou magoada com nada nem ninguém. Ou melhor: estou. O que realmente me magoa é o estado em que a arte está em Portugal. A arte está tão superficial, tão fútil.

Passou por dificuldades financeiras por causa da falta de reconhecimento de que fala?
Nós, músicos, não somos mais do que os outros. Nem menos. Em todas as profissões as pessoas podem passar por momentos menos bons financeiramente. O problema é que quando [músicos] estamos sem trabalhar não temos direito, por exemplo, ao fundo de desemprego. Somos um bocadinho maltratados pelos políticos. Quando não temos trabalho, passamos fome.

Mas passou?
Não recentemente. Só quando vim, como te disse, de Évora para Lisboa. Mas há muitos músicos que passam hoje.

Voltando atrás. A Adelaide era uma mulher muito bonita. Era assediada?
Bonita? Não. Não, não. Talvez tivesse algum charme… [Risos]

Mas tinham-na — as revistas e o público — como “sex symbol”.
Um bocadinho, sim. Mas acho que era mais pela atitude do que propriamente pela beleza. Tinha um je ne sais quoi, pronto. [Risos] Estou aqui a falar em francês e lembrei-me que na altura até diziam que era parecida com a Françoise Hardy. Acho que o que havia em mim de mais interessante era a postura. Quanto a ser assediada, hmmmm, era o normal.

Houve um período em que os concorrentes — sobretudo as raparigas — dos programas de talentos na TV interpretavam sempre o “Papel Principal”. Era tiro e queda.
Isso é um orgulho. Não me sinto a última Coca Cola do deserto mas é um orgulho. E continua a ser assim, adoram a canção, não sei o que é que se passa. A canção é maravilhosa e o Tozé Brito foi abençoado naquela composição. Mas eu transformei-lhe um bocadinho a canção…

Então?
Porque a canção não era para ser cantada assim. Quando ele me dá a canção, dá-ma numa determinada oitava. Como tinha voz e à vontade, não queria saber de nada, transporto o refrão para a oitava acima. E isso deu um poder extraordinário à canção. Aquilo para mim, aquela letra, é um grito de emancipação feminina, de libertação. E é por isso que as mulheres, de todas as idades, se reveem naquela canção. Ainda reveem.

Mas porquê “emancipação”?
A sociedade em Portugal é machista, muito machista. Sempre foi. Talvez por existir ainda alguma reminiscência do tempo em que os árabes por cá estiveram. Dizem que a sociedade é matriarcal mas é sobretudo patriarcal. O homem faz o que quer. Manda. E esta canção é precisamente sobre isso: o homem fez-se de herói, ele é que é o maior e não-sei-quê, mas de repente é a mulher que vai embora, acabou. Quantas e quantas mulheres é que, sendo vítimas de violência doméstica, ficam em casa a ser espancadas e, no final, acabam mortas? Quantas?! Isto é o grito de uma mulher que optou pelo contrário, por ir embora. Digam os intelectualóides o que quiserem, mas a realidade é esta: é uma canção de emancipação da mulher. Acho que a sociedade tem que mudar. Eu tenho filhas e digo-lhes: se um marido não partilha as tarefas connosco, se não nos trata como iguais, não faz sentido estar com ele. “Se não és feliz vai à tua vida!” Tenho a certeza que as minhas filhas não vão tolerar um marido assim.

O que ainda gostaria de fazer na música?
Nada. Na música, nada. Gostaria de escrever um livro, ou melhor, acabar de escrever um. É um romance disfarçado de biografia ou biografia disfarçada de romance. [Risos] A certa altura sentia uma dor muito grande, senti-me maltratada pelo meu país, e escrever foi uma forma de exorcizar essa dor.

Creio que quando fala em “maltratada” se refere ao episódio em que a sua filha mais velha, Luana, na altura com 15 anos, ficou grávida e praticou um aborto no Brasil.
Sim, estou. Pouca gente, muito pouca me apoiou. Houve quem publicamente dissesse, como o Marinho e Pinto, que fui uma “mãe coragem” e isso deixou-me muito feliz. O papel de uma mãe é sempre o de proteger os filhos — seja em que circunstâncias for. Um pai ou uma mãe devem sempre amparar os filhos. Eles podem bater com a cabeça na parede, podem errar, mas como pai e como mãe devemos estar sempre ao lado deles. Foi o que fiz. Medo? Tive medo de não estar à altura quando viajei para o Brasil para a trazer de volta. Mas estive. Mas estive…

Esse episódio fechou-lhe muitas portas?
Talvez. Talvez… [Pausa] Não estou nem aí para isso! Fui sempre muito ajuizada, trabalhei muito até aqui, que nem uma escrava, poupei e estou bem. O dinheiro vai chegando. E ainda ajudo quem precisa de ajuda.

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