Aos 89 anos, Roza fez uma burla de 300 mil euros e foi presa. É a mais velha reclusa do país

13 Janeiro 2018121

O crime foi planeado no interior da cadeia pelo filho de Roza, que estava preso, e por um colega da prisão. São sete arguidos acusados de vender um prédio que não lhes pertencia. Estão a ser julgados.

O corpo franzino, os movimentos escorreitos e o cabelo branco não denunciam os seus 90 anos. Mas os argumentos saem-lhe sem nexo. A idade serviu-lhe para justificar a ignorância do que assinou e a falta de memória para especificar com quem e onde esteve. Roza Vegele, a reclusa mais velha do País, começou a ser julgada no Campus de Justiça, em Lisboa, por ter vendido um prédio por 300 mil euros que não lhe pertencia. Mas há mais elementos da família na barra do tribunal: dois filhos, uma sobrinha e um neto, todos brasileiros que se juntaram a dois portugueses para o crime. São sete arguidos no total.

Tudo começou a ser pensado no interior da cadeia de Pinheiro da Cruz por dois reclusos que cumpriam pesadas penas por burla: o brasileiro José Eduardo, 58 anos, filho de Roza, a cumprir uma pena de 12 anos, e o português Luís Sobreira, 51 anos, que enfrenta 19 anos de prisão. Os dois que já se conheciam de outro processo crime terão, segundo o despacho de acusação, planeado o crime ao pormenor. Mas havia uma falha no plano. Precisavam de ajuda para concretizar a venda de um prédio na Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa, que pertencia à empresa Green Earth – Investimentos Imobiliários e Turísticos, Lda.

Os investigadores dizem que foi Luís Sobreira que conseguiu toda a documentação do prédio e da Green Earth e que tratou do assunto por email. Mesmo estando preso. Não conseguiram identificar quem falsificou as duas atas de reuniões da empresa que nunca aconteceram, mas sabem que foram estes documentos que permitiram colocar a arguida Roza Vegele como gerente da empresa. Segundo o Ministério Público, traçado o plano, o arguido José Eduardo pediu à mãe que viesse a Portugal. E, numa visita à cadeia, pediu-lhe que o ajudasse.

Roza apanhou o avião a 27 de abril de 2016 com um bilhete que lhe permitia regressar ao Brasil a 20 de maio. Na primeira sessão de julgamento, a idosa disse que tinha vindo a Portugal para o aniversário da neta, “para os 25 anos”. E que aproveitou para visitar o filho na cadeia de Pinheiro da Cruz. “Fui com o meu neto lá. Era muito longe”, descreveu. Mais à frente, no julgamento, acabou por admitir que o filho “comentou” consigo o plano da burla. Mas que nada lhe pediu.

O filho de Roza Vegele, José Eduardo, cumpria uma pena de cadeia de 12 anos quando planeou a burla com um colega da prisão. Meses depois, conseguiu fugir da cadeia

O Ministério Público diz que, durante essa estadia em Portugal, Roza foi a um cartório ao Porto com uma ata falsificada para passar a ser a gerente da empresa Green Earth. Mas as descrições da arguida sobre estas viagens não pareceram ter qualquer nexo e até cansaram a juíza. “Vamos falar a sério sem fazer este discurso de tontinha?”, perguntou-lhe mesmo a juíza presidente Helena Pinto, já irritada. A ata em causa diz que “no dia 27 de abril de 2016, pelas nove horas, reuniram-se em Assembleia Geral Extraordinária os sócios da sociedade Green Earth – Investimentos Imobiliários e Turísticos, Lda., os quais deliberaram por unanimidade nomear como gerente da sociedade a arguida Roza Vegele”. Essa reunião nunca aconteceu. O registo ficou como provisório, uma vez que havia incongruências nos documentos apresentados.

Na prisão, José Eduardo conseguiu encontrar um potencial cliente, de nome Sérgio Silva, que lhe foi indicado por amigos com quem contactou através de email. Nos contactos com Sérgio, José Eduardo identificou-se sempre como José Souto Mayor, médico num hospital em São Paulo e proprietário do tal prédio. Roza viria a encontrar-se com Sérgio num local próximo da embaixada da Rússia, em Lisboa. No entanto, havia um erro nos documentos do prédio que Roza trazia e não foi possível realizar a escritura.

Ainda assim, para garantir o negócio, o comprador “deslocou-se às Finanças para liquidar os impostos devidos pela escritura e efetuou um pedido de preferência na Câmara Municipal de Lisboa”, diz o despacho de acusação. Mas quando, através de um arquiteto da câmara, tentou obter o contacto do proprietário do imóvel, percebeu que este não se chamava Soto Mayor. E recusou a compra.

Roza regressou ao Brasil e o filho José Eduardo começou a tentar encontrar outro cliente para o negócio. Tudo através de email, e enquanto estava na prisão. Em julho, conseguiu evadir-se do estabelecimento prisional e refugiar-se em casa de um amigo, também arguido no processo, Fernando Marcelino, um português de 54 anos. Escondido, José Eduardo voltou a estreitar contactos com a ex-companheira, que também é sua prima, Adriana Farias, 49 anos. Esta acabou por juntar-se a ele em Portugal em agosto. Segundo Roza, foi ela que lhe telefonou a dizer que regressasse a Portugal para estar com o filho.

— “Ela disse que ele tinha saudades minhas”, justificou Roza perante o coletivo de juízes.

Naquele dia 4 de outubro de 2016 Adriana e Fernando foram esperar Roza no aeroporto de Lisboa. Roza diz que foi levada para casa de Fernando, onde Adriana e o filho José Eduardo estavam a viver num quarto arrendado. Como o filho estava evadido e não podia ser visto, foi ela que começou a fazer-lhe os “recados”. Era Fernando quem a levava aos cartórios, às repartições de Finanças e ao banco. “Ele esperava à porta. Tinha um Citröen”, disse a idosa em julgamento, num rasgo de memória.

Em tribunal, Roza teve um dicurso sem nexo. A juíza considerou que estava a passar-se por "tolinha". Roza diz que não sabe o que assinou e que foi obrigada a participar na burla

Nesse mês, acusa o Ministério Público, Roza regressou ao Porto já com outra ata, também falsificada, que lhe permitia registar-se definitivamente como gerente da empresa Green Earth, proprietária do prédio na Rua Luciano Cordeiro, que tinha uma avaliação patrimonial na ordem do meio milhão de euros. Ela, o filho e Fernando foram também a um escritório de advogados, no Estoril, informar-se de tudo o que precisavam para vender o prédio. José Edurado apresentou-se sempre como José Maria Coutinho e a mãe, Roza, como proprietária do imóvel. O advogado, além das informações prestadas, ainda lhes indicou um potencial cliente: a empresa Construções São Joanino.

Por esta altura, José Eduardo telefonou a um agente imobiliário, de nome Pedro Sequeira. Apresentou-se como Joaquim Quintino e disse-lhe ter disponível para vender um prédio devoluto de meio milhão de euros. Ainda lhe cobrou uma comissão de cinco mil euros. O agente encontrou imediatamente investidores interessados. E, a 8 de novembro, Roza dirigiu-se ao Cartório Notarial do Estoril para o reconhecimento da sua assinatura como gerente da Green Earth. O objetivo era obter um registo de aquisição provisória do imóvel. Dois dias depois, Roza foi à Caixa Geral de Depósitos abrir uma conta em nome da empresa, em que só ela podia mexer. A escritura acabaria por ser feita a 14 de novembro. Em tribunal, Roza tentou justificar que foi obrigada a assinar.

Roza: Eu nunca li nenhum desses papéis…

Juíza: Mas fartou-se de assinar…

Roza: Sim, porque a dona Catarina do cartório disse me para eu não assinar, que era uma coisa séria. Mas os quatro homens que estavam lá, bateram em cima da mesa e disseram que eu tinha que assinar, que já tinham gastado dinheiro.

Juíza: Que homens?

Roza: Foi o comprador, o Pedro Henrique, um Paulo qualquer coisa… eram quatro… Eu não conhecia… eu fui com eles porque eles quiseram fazer negócio.

Juíza: Qual negócio?

Roza: Ah, isso aí… o Senhor Fernando é que tratava.

Roza saíu do cartório com um cheque de 300 mil euros e um envelope com 3350 euros em dinheiro nas mãos. O cheque foi passado por António Campos à empresa Green Earth. A idosa levou o dinheiro para o banco, depositou uma parte na conta da Green Earth e depois deu ordem para várias transferências. Mais tarde, com a sobrinha Adriana, fez ainda vários levantamentos. Num só dia, em vários balcões da Caixa, as duas levantaram um total de 85.900 euros. De uma só vez, na Parede, foram 30.900 euros. O Ministério Público tem ainda registo de vários pagamentos com este dinheiro feitos pelo neto de Roza, João Vegele, o arguido mais jovem, de 24 anos — que é filho de José Eduardo.

Segundo o Ministério Público, a arguida Adriana comprou depois uma lupa por 25 euros. E tentou comprar mais de 5000 euros em joias na loja Cartier. Mas nesse momento a conta já tinha sido bloqueada pelo Banco e não conseguiu pagar. As autoridades já estavam em cima do grupo.

A acusação refere ainda que, depois da venda, o grupo tentou adquirir novamente o prédio vendido pelo valor de 434 mil euros, para depois o vender a João Joanino — da empresa que o advogado tinha indicado — por um milhão de euros. O negócio só não se concretizou, porque os suspeitos foram entretanto detidos.

Arguidos estavam a viver num hotel quando foram detidos

A PSP encontrou Roza a 17 de novembro de 2016, e a filha Rosanne, que entretanto se juntara a ela em Portugal, alojadas no hotel Baía, em Cascais. As duas estavam a ali a viver há cerca de uma semana. Em tribunal, Roza disse estar demasiado cansada com todas as “voltas” que deu. E pediu à filha para se juntar a ela a Portugal, para depois regressarem juntas ao Brasil.

Depositei o cheque no balcão, na firma Green Earth, o resto do dinheiro foi para uma passagem da minha filha para me vir buscar… Eu só recebi 500 euros para a minha passagem e para poder pagar o hotel. Estava muito cansada, com a pressão muito alta e ela não queria que eu regressasse sozinha, justificou Roza em tribunal.

A polícia apreendeu no quarto, com o número 420, 270 euros em dinheiro, faturas e vários documentos que comprovam a abertura de conta e as transferências que fez posteriormente.

No mesmo dia, José Eduardo e Adriana Farias foram detidos o Hotel Olissippo em Lisboa. No cofre do quarto do hotel tinham 60.760 euros, na mesa de cabeceira estavam telemóveis, vários cartões telefónicos diferentes e vários documentos que servem de prova à burla. Também Fernando foi detido naquele dia, mas em casa. No bolso de um casaco tinha 2850 euros em notas. Na sua posse estava uma certidão permanente relativamente ao imóvel na Luciano Cordeiro.

Os arguidos foram acusados de três crimes de burla qualificada, um consumado e dois na forma tentada, três crimes de falsificação de documento, um de associação criminosa e um crime de branqueamento. O Ministério Público pede que José Eduardo e Luís Sobreira sejam julgados como reincidentes. O julgamento decorre no Campus da Justiça, em Lisboa.

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