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Elon Musk. Quem é o génio da Tesla que todos querem em Portugal?

28 Novembro 2016744

Elon Musk vai construir uma fábrica da Tesla na Europa e os portugueses querem convencê-lo a vir para cá. Com a Terra quase conquistada, quer pôr 80 mil pessoas em Marte. E talvez encontrar namorada.

Quase tímido, ombros “absurdamente” largos, sapatos de couro, calças de ganga e uma t-shirt preta. “Pareço-lhe louco?”, perguntou a Ashlee Vance, o jornalista que escreveu que Elon Musk é “o génio que está a inventar o futuro” numa autobiografia que é oficial, mas que esteve quase para não ser. “Tornámo-nos uns moles de m*rda“, afirmou mais tarde enquanto visitavam a sede da Tesla, em Palo Alto, nos EUA. Nas mãos, tem uma fortuna pessoal avaliada em 11,3 mil milhões de dólares – qualquer coisa como 10,7 mil milhões de euros -, segundo a revista Forbes. Sotaque sul-africano, 45 anos e 1,85 metros de altura, é uma rock star da comunidade tecnológica. Um “génio possesso”, diria Ashlee Vance. Elon Musk é o 34.º homem mais rico do mundo.

Foi em 2008 que assumiu o controlo da Tesla, a startup de veículos elétricos que Martin Eberhard e Marc Tarpenning lançaram em 2003. Para o primeiro trimestre de 2017 está prevista a construção da primeira fábrica de carros 100% elétricos e baterias da marca na Europa. Será a segunda Gigafactory da marca. Até lá, está nas mãos de Musk escolher que país será esse. A comunidade tecnológica portuguesa, o Governo e a AICEP já começaram a rezar para que Portugal vença Espanha, França, Holanda e alguns países da Europa de Leste. As orações chegarão a quem também quer colonizar Marte?

"Acho que se pudéssemos encontrar uma fonte de energia sustentável e tornarmo-nos uma espécie interplanetária, com uma civilização auto-sustentável noutro planeta, para lidar com um cenário catastrófico em que a consciência humana esteja em risco de extinção, seria muitíssimo bom."
Elon Musk, presidente da SpaceX, Tesla Motors e SolarCity

O homem que todos querem que tenha um pé em Portugal é físico de formação. Mas também é empreendedor, gestor, investidor. É o rosto por detrás do sistema de pagamento digital PayPal, que vendeu ao eBay por 1,5 mil milhões de dólares. Fã de videojogos, é “membro certificado do clube tecno-utópico de Silicon Valley“, como escreveu Ashlee Vance. Não é difícil de entender. Falamos da “divindade” que divide o vale que também é meca da tecnologia: adorado por muitos, detestado por outros tantos. “Ele faz o que quer, e é implacável no que a isso diz respeito. Este é o mundo do Elon. Nós, os outros, apenas vivemos nele”, contou a primeira ex-mulher, Justine Musk, ao jornalista norte-americano.

Implacável, o homem que construiu uma fábrica de foguetões no meio de Los Angeles é o mesmo que, para celebrar o 30.º aniversário, arrendou um castelo no Reino Unido para que os amigos pudessem jogar “às escondidas” das 2h às 6h da manhã. Anos mais tarde, arrendou outra mansão do género em Nova Iorque, convidou 50 pessoas, vestiu-se de samurai e lutou com um campeão de sumo que pesava 160 quilos. Diz o multimilionário Richard Branson que Musk é “alguém que arrisca mesmo quando é assombrado por contratempos”.

Os contratempos, na verdade, não impediram o sul-africano de protagonizar os maiores progressos das últimas décadas nas indústrias automóvel, espacial e energética. “Gostaria de pensar que a humanidade tem um futuro brilhante. Acho que se pudéssemos encontrar uma fonte de energia sustentável e tornarmo-nos uma espécie interplanetária, com uma civilização auto-sustentável noutro planeta, para lidar com um cenário catastrófico em que a consciência humana esteja em risco de extinção seria muitissimo bom”, disse a Ashlee Vance, na biografia autorizada que em Portugal é editada pela Vogais. Parece louco?

Elon Musk na apresentação do Model X da Tesla, em 2014

De onde vem a fortuna do homem que quer 80 mil pessoas em Marte?

Elon Musk cresceu dotado “de talentos tecnológicos” e de um “amor” à ficção científica e à fantasia, explica Vance. Estava prestes a fazer 18 anos quando deixou a África do Sul, onde nasceu e cresceu, para se mudar para o Canadá (a mãe era canadiana). De lá, voou para os EUA. Acabou por estudar Física e Economia na Universidade de Pennsylvania e, com 24 anos, foi para Stanford tirar um doutoramento em Física Aplicada. Desistiu dois anos depois para lançar a sua primeira empresa, a Zip2, com o irmão Kimbal, e que teve clientes como o The New York Times. Em 1999, vendeu-a à Compaq por 307 milhões de dólares em dinheiro e 34 milhões em ações. Da venda da Zip2, Musk recebeu 22 milhões de dólares.

É aqui que o dinheiro começa a atrair dinheiro. Deste montante, Musk pegou em 10 milhões e fundou a X.com, uma empresa de serviços financeiros online que mais tarde (e após a fusão com a Confinity), se chamaria PayPal — e que pôs Musk e o recém-lançado sistema de pagamento digital no palco da comunidade tecnológica mundial. “O chefe da máfia do PayPal”, como viria a ser conhecido — ainda que pelo caminho tenha sido atraiçoado pelos colaboradores e substituído no cargo de CEO pelo icónico e polémico Peter Thiel. Mas isso não foi um problema. Se Musk não podia influenciar a empresa de uma forma, decidiu influenciá-la por outra.

"Acho que há, provavelmente, demasiadas pessoas inteligentes dedicadas à internet, às finanças e ao direito. É, em parte, por isso que não se gera muita inovação."
Elon Musk, presidente da SpaceX, Tesla Motors e SolarCity

Afastado da posição de liderança, o homem que Eric Jackson, autor do livro The PayPal Wars: Battles with eBay, the Media, the Mafia, and the rest of Planet Earth, afirmou ser um “idiota egocêntrico” começou a investir no PayPal até se tornar o seu principal acionista. A venda milionária da empresa ao eBay — por 1,5 mil milhões de dólares –, em 2002, acabou por ser a sua rampa de lançamento. É com os 200 milhões de dólares que capta com esta operação que começa a investir noutros campos da tecnologia. “Acho que há, provavelmente, demasiadas pessoas inteligentes dedicadas à internet, às finanças e ao direito. É, em parte, por isso que não se gera muita inovação”, disse a Ashlee Vance.

É por esta altura que começa a sua obsessão por Marte e pela civilização auto-sustentável que quer que exista no planeta vermelho. Em 2002, e com 100 milhões de euros, Musk fundou a SpaceX, a primeira empresa privada de exploração espacial a conseguir um contrato com a NASA para o abastecimento da Estação Espacial Internacional. Musk saiu de Silicon Valley e mudou-se para Los Angeles, onde tem a sede da empresa e arrancou com aquela que passou a ser considerada a “Agenda de Marte”. Em 2040, Musk quer ter uma colónia auto-sustentável de 80 mil pessoas a viver no planeta vermelho, onde todos os transportes serão elétricos.

De acordo com o The New York Times, Musk estima que o foguetão que vai permitir levar pessoas a Marte custe 10 mil milhões de dólares e o plano é que a primeira viagem ocorra já em 2024. Enquanto a nave não descola, a empresa de Elon Musk vai gastando dezenas de milhões de dólares por ano a desenvolvê-la — serão precisos 10 mil voos para colonizar o planeta. A ideia é que cada voo transporte cerca de 100 pessoas e que os preços da viagem andem entre os 100 mil e os 200 mil dólares Até que a cidade auto-sustentável de Marte esteja efetivamente pronta, Musk estima que passem entre 40 e 100 anos.

Elon Musk no lançamento da nave espacial The Dragon V2, da SpaceX

O milagreiro que salvou a Tesla em 2008

A SpaceX foi a primeira empresa do mundo a colocar um satélite em órbita geoestacionária e tem vindo a concentrar-se na produção de equipamentos reutilizáveis, que pode tornar as missões espaciais comercialmente viáveis. Mas o foguetão Falcon 9, que utiliza como combustível uma mistura de oxigénio líquido e RP-1 — e que já conseguiu levantar e aterrar na vertical, com aceleração-zero, ou seja, sem provocar danos na sua estrutura — não é a única obsessão de Elon Musk. Com o dinheiro que recebeu da venda do PayPal e que o transformou num “milionário das dotcom“, Musk investiu ainda 70 milhões de dólares na Tesla e outros 10 na SolarCity.

Primeiro, a Tesla. Foi em 2004 que Elon Musk investiu 7,5 milhões de dólares na empresa de carros 100% elétricos, liderando a ronda de investimento Série A da empresa e tornando-se seu presidente não executivo. A liderança nas operações, enquanto CEO, chegou quatro anos depois, na sequência da crise financeira. Foi aí que o investidor tomou as rédeas operacionais da empresa, mas foi preciso um milagre de Natal para salvar a Tesla da falência. Será preciso outro para convencer Musk a construir a primeira fábrica europeia da marca em Portugal? A 5 de dezembro, há uma conferência que junta o Governo, municípios e outros interessados para decidir a estratégia que quer persuadir Musk a escolher o nosso país.

Neste momento, já existem estações de carregamento para carros Tesla — que custam cerca de 100 mil euros e são vendidos diretamente ao consumidor pela marca, ignorando e afrontando o modelo tradicional dos concessionários automóveis — em algumas das maiores auto-estradas dos EUA, Europa e Ásia. Na Europa, há 261 postos de carregamento, os chamados Supercharger, onde é possível carregar um veículo em 30 minutos para percorrer 270 km, sem custos (mas só até 1 de janeiro). Elon Musk estima que sejam vendidos 500.000 carros Tesla por ano. Na primeira Gigafactory, nos EUA, foram investidos mais de 5.000 milhões de dólares e as estimativas apontam para que sejam criados 6.500 postos de trabalho diretos e 11 mil indiretos.

"Tenho de arranjar uma namorada e, para isso, preciso de encontrar só mais um pouquito de tempo. Creio que umas cinco a dez horas - quanto tempo por semana quererá uma mulher? Dez horas? Será isso o mínimo? Não sei."
Elon Musk, presidente da SpaceX, Tesla Motors e SolarCity

Mas a luta do “milionário das dotcom” por um mundo de energia limpa tem sido mais marcada por prejuízos do que por lucros. Depois de 13 trimestres consecutivos no vermelho, a Tesla anunciou, no terceiro trimestre de 2016, um resultado líquido de 22 milhões de dólares (cerca de 20 milhões de euros) e apresentou números recorde em termos de produção, vendas e faturação. Foi a segunda vez que a empresa registou lucros desde que foi admitida em Bolsa, em 2010, que muito se deveram aos chamados “créditos ambientais” que a Tesla tem vendido a outros fabricantes, os mesmos a que Donald Trump quer pôr um fim. Elon Musk já veio afirmar, contudo, que o fim dos créditos que vigoram em dez estados norte-americanos não vai prejudicar a empresa.

A Tesla tornou-se, assim, no produtor de carros elétricos mais reconhecido do mundo e as aventuras empresariais de Elon Musk valeram-lhe porta aberta na Casa Branca de Barack Obama. Quando vendeu o PayPal e fundou a SpaceX, além de ter investido na Tesla, Elon Musk investiu 10 milhões de dólares na SolarCity, que foi fundada pelos primos Lyndon e Peter Rive em 2006 e que foi recentemente adquirida pela irmã Tesla por 2,6 mil milhões de dólares.

A SolarCity tem-se dedicado à produção e instalação de painéis solares e — apesar de as suas dívidas ascenderem a 6,3 mil milhões de euros — conseguiu recentemente pôr a ilha de Ta’u, no Oceano Pacífico, a ser abastecida por painéis solares quase na totalidade. A ilha da Samoa Americana, que se situa na Polinésia, mas é administrada pelos EUA, tem menos de 600 habitantes e 5328 painéis solares e 60 Tesla Powerbacks, que substituem os 413.910 litros de gasóleo que a ilha tem de importar todos os anos. “Parece o industrial mais inovador da América“, escreve Vance.

O projeto mais recente de Musk é a Hyperloop, um novo comboio supersónico que deverá conseguir percorrer uma distância de 600 quilómetros em meia hora, atingindo 1.223 quilómetros por hora. O primeiro protótipo, que se chama DevLoop, está a ser construído no deserto de Las Vegas. E a autoridade responsável pelos transportes do Dubai já realizou um acordo com a empresa, para que comece a estudar a construção da primeira rede de passageiros e mercadorias entre o Dubai e Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos, que vai percorrer cerca de 160 Km em apenas 12 minutos.

Elon Musk junto ao foguetão Falcon 9 da SpaceX

O “pensador bizarro” quer salvar o mundo da inteligência artificial

Tal como divide a guarda dos cinco filhos — gémeos e trigémeos –, que teve com a primeira mulher, Justine, Elon Musk também divide a semana entre Los Angles e Silicon Valley. Conta Ashlee Vance que o multimilionário passa o fim de semana na mansão que tem em Bel-Air, começa a semana de trabalho na SpaceX, em LA, onde dorme, e na terça-feira à tarde, apanha o jato particular para Silicon Valley, onde é a sede da Tesla, que emprega cerca de 14 mil pessoas. É lá que dorme num hotel de luxo ou na casa de amigos. Entra novamente no seu jato na quinta-feira à tarde para regressar a Los Angeles.

Se a semana for típica é assim que se divide. Se não for, é provável que Musk entre mais vezes no jato para jantar com Barack Obama, em Washington, na quarta-feira, e passar o fim de semana numa conferência organizada pelo presidente da Google, Eric Schmidt, noutro ponto do país. Todos os anos, o milionário que o jornalista norte-americano diz ser também “o pensador mais bizarro” dos EUA, contabiliza as horas que passou dentro de aviões — numa tabela que criou para o efeito — para perceber se “as coisas estão a descontrolar-se”.

Nada é deixado ao acaso, nem as horas que tem para namorar. Depois de se ter separado de Justine, Elon casou-se com a atriz Taluah Riley, na altura com 25 anos, em 2010, de quem se separou dois anos depois. Em 2013, voltaram a casar-se e três anos depois voltaram (também) a divorciar-se. Os rumores mais recentes davam conta de que o milionário estaria envolvido com a ex-mulher de Johnny Depp, a atriz Amber Heard, mas ambos têm negado que tal seja verdade.

"Acho que deveríamos ter muito cuidado com a inteligência artificial. Se tivesse de adivinhar qual seria a maior ameaça à nossa existência, eu diria que é, provavelmente, essa. Precisamos de ter muito cuidado."
Elon Musk, presidente da SpaceX, Tesla Motors e SolarCity

Durante o ano em que esteve separado de Riley, Musk disse a Vance que estava tudo bem na forma como geria os filhos e os negócios, mas não na forma como geria a sua vida sentimental. “Gostaria de dedicar mais tempo a namorar. Tenho de arranjar uma namorada e, para isso, preciso de encontrar só mais um pouquito de tempo. Creio que umas cinco a dez horas — quanto tempo por semana quererá uma mulher? Dez horas? Será isso o mínimo? Não sei.”

Namoros à parte, o que assusta Musk não é o amor, mas a inteligência artificial. Vance conta que, na altura em que escreveu o livro, o que roubava o sono ao milionário era imaginar que o líder da Google, Larry Page — de quem era amigo –, podia estar a desenvolver um exército de robôs dotados de inteligência artificial, capaz de destruir a humanidade. O medo de Musk era que Page partisse do princípio de que as máquinas estariam sempre às ordens dos humanos. “Não sou tão otimista. Ele pode muito bem produzir acidentalmente algo maléfico”, afirmou.

Numa conferência no Massachusetts Institue of Technology (MIT), Elon Musk chegou mesmo a dizer que a inteligência artificial é a nossa maior ameaça. “Acho que deveríamos ter muito cuidado com a inteligência artificial. Se tivesse de adivinhar qual seria a maior ameaça à nossa existência, eu diria que é, provavelmente, essa. Precisamos de ter muito cuidado. Estou cada vez mais inclinado a pensar que devia haver algo que regulasse e supervisionasse isto, se calhar a um nível nacional e internacional, para termos a certeza de que não fazemos nada mesmo muito parvo”, disse .

Elon Musk com a ex-mulher, a atriz Talulah Riley, com quem se casou duas vezes

No final do ano passado, Elon Musk lançou uma empresa de investigação não-lucrativa em inteligência artificial, a OpenAI, cujo objetivo é encontrar soluções que sejam benéficas à humanidade. Ao líder da Tesla, juntaram-se mais nomes importantes da comunidade tecnológica, como o fundador do Y Combinator, Sam Altman, ou o polémico investidor Peter Thiel. Foi também através de um investimento de Elon Musk que a investigadora portuguesa em inteligência artificial Manuela Veloso — que é docente e responsável pelo departamento de Machine Learning na Carnegie Mellon University, em Pittsburgh –, recebeu uma bolsa de 200 mil dólares para criar mecanismos seguros para a Inteligência Artificial.

Vance diz que Elon Musk é “o génio que está a inventar o nosso futuro”, mas não falta quem critique o multimilionário por ter objetivos irrealistas, maltratar verbalmente funcionários e fazer com que “trabalhem até caírem para o lado”. Ao jornalista, disse: “A lista de pessoas que não lastimaria o meu desaparecimento está a aumentar. A minha família receia que os russos me assassinem.” Já os portugueses querem dizer-lhe “Bem-vindo ao nosso país”.

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