Estivemos offline com Paddy Cosgrave, líder da Web Summit. Provou leitão, andou de táxi e até escreveu um tweet à mão

06 Novembro 20171.322

Desafiámos o CEO da Web Summit a estar 1 hora offline. Descobrimos que lê Rousseau, acredita que as redes sociais estão prestes a acabar e que o fado, apesar de triste, ajuda a manter os pés na terra.

— Há problema em estarmos offline?
— Não, está tudo bem.
— Não fica ansioso quando está sem telemóvel?
— Não, regra geral nem utilizo o telefone. Desligo-me totalmente.
— A sério?
— Sim. É útil para pensarmos.

Passavam 15 minutos da hora marcada quando nos encontrámos com Paddy Cosgrave em frente à Casa Bota Feijão. Fachada laranja, barra azul e porta de madeira à antiga. Do lado de cá, nada fazia prever a agitação de talheres e pratos que ouviríamos mais tarde nas várias salas — pequenas, apertadas, bem temperadas com azeitonas, pão e manteiga. Quando chegámos, porta fechada. Mas lá dentro estão duas doses de leitão religiosamente guardadas à nossa espera. “Isto já fechou”, disse um dos empregados.

Pedimos desculpa (o atraso era nosso) e minutos depois estávamos sentados numa espécie de mini divisão soalheira: uma mesa em L com seis lugares e uma janela. “Estão bem aqui?” Estávamos. Do outro lado da janela, na rua que fica bem perto da FIL e do Altice Arena — que esta semana vão receber 60 mil pessoas –, não se ouve nada, mal passam carros. A azáfama que se sente no resto do Parque das Nações não chega ali. “Mas que tipo de sítio é este?”, perguntou Paddy quando saíamos. É um restaurante tipicamente português.

— Então e para beber o que vai ser?

O português do empregado de mesa do Bota Feijão é claro como a água que acabaríamos por beber mais tarde, mas para obter uma resposta de Paddy é preciso tradução. Perguntamos se quer um copo de vinho. “Não, não costumo beber.” Insistimos. Acaba por contar que um dos cofundadores da Web Summit, sempre que vê vinho português na carta de um restaurante, pede, seja em que país for, mas que ele nunca bebe. E uma cerveja portuguesa? “Não, quero mesmo só água com gás.” Nem uma cerveja sem álcool? “Não, fico mesmo bem com uma água com gás.”

— Duas águas com gás, por favor.
— Gelo e limão?
— Sim.

Para estarmos em pé de igualdade, pusemos o nosso telemóvel em “modo de voo”. Na próxima hora, não iam surgir telefonemas, mensagens ou notificações para nenhum dos dois. Ainda estávamos a recuperar da primeira resposta de Paddy — quando assumiu que raramente utilizava o telefone –, quando lhe perguntámos se achava que podia replicar em breve o que fez Aziz Ansari (ator, comediante e criador de uma das séries da Netflix que mais sucesso tem feito entre os millennials, a “Master of None”): desligar-se completamente da Internet. A resposta já não surpreendeu: “Sim”.

“Acho que há questões muito sérias que temos de colocar a nós próprios enquanto sociedade, no que diz respeito a vícios. Cada vez há mais provas de que os adolescentes que passam mais tempo em redes sociais têm maior risco de sofrer de depressão ou até de cometer suicídio. Estes fenómenos são novos. Mas acho que o fenómeno das redes sociais está possivelmente acabado”, disse, já com a Água das Pedras à frente. Gelo e limão.

Acha mesmo isso?
— Sim. E acho que temos de falar seriamente sobre as consequências sociais negativas de todas estas tecnologias. A tecnologia nem sempre é positiva. Na melhor das hipóteses, é neutra, mas nunca é apenas positiva.

A ideia de que o fundador da mediática Web Summit é cauteloso com a utilização que se faz da tecnologia não é nova, apesar de ser um dos seus principais promotores. Já no ano passado, o irlandês de 34 anos referiu a mesma ideia numa das conferências de imprensa do evento que atraiu mais de 53 mil pessoas a Lisboa. Só para montar a Internet de banda larga que permitiu que toda a gente estivesse online na FIL e no Altice Arena foram precisos 500 programadores. Mas se há consequências negativas, que papel tem então uma cimeira como esta? “É suposto ser um fórum para debate, que dá voz a pessoas de todos os lados“, afirma. No canto da mesa, há batatas fritas cortadas às rodelas e uma travessa da especialidade da casa.

Sabe o que é?
— É porco, não é?
— Sim. Gosta?
— Claro.

Voltamos à conversa entre rodelas de batatas fritas. “A Web Summit é como se fosse um Parlamento: facilita discursos e debates diversificados, alcança uma maior variedade de temas, como os impostos, os vícios, os perigos da inteligência artificial ou monopólios que estão a crescer. Acho que se não discutirmos estas coisas estaríamos a trair alguma da nossa responsabilidade pública enquanto aglutinador do setor tecnológico, talvez o aglutinador tecnológico mais global do mundo”, explica Paddy.

A conversa vai entre perigos, riscos, vícios. Afinal, qual foi a empresa ou app que mais desiludiu o presidente executivo da Web Summit? A resposta não é óbvia: a maior desilusão de Paddy não ocorreu em nenhuma empresa nem em nenhuma aplicação, mas no epicentro do empreendedorismo, em Silicon Valley, nos EUA.

“Acho que a coisa que mais me desilude é a amnésia coletiva de Silicon Valley, não percebem que Silicon Valley nunca foi um centro de empreendedorismo, de investimento privado, é um centro de investimento massivo do Estado. Foi uma subsidiária do Pentágono norte-americano que durante décadas, décadas e décadas não estava a produzir empresas de tecnologia vencedoras a nível mundial. E por isso tornou-se num centro massivo de Investigação & Desenvolvimento do governo norte-americano”, conta. Empolgado com o rumo da conversa, pega no telemóvel “em modo de voo” que estava em cima da mesa.

“O chip que faz este telemóvel funcional se calhar nasceu para guiar mísseis. Muita desta tecnologia principal emerge de um sistema muito deliberado e muito consciente de parcerias com o Estado e de I&D para a defesa”, explica, acrescendo que “as raízes de Silicon Valley assentam num envolvimento massivo do governo” e que hoje muitas destas empresas esquecem a sua história prévia”. A conversa continua entre garfadas de leitão.

Tudo no telefone, a própria Internet, veio tudo de uma intervenção massiva do Governo norte-americano. E isto é um problema quando um número crescente destas empresas não quer pagar as quotas que devem à sociedade.
— O que andamos a fazer então? Vivemos num mundo distópico?
— É uma consequência.

Paddy tem 34 anos, é presidente de uma conferência de tecnologia que pôs Paris, Lisboa e Amesterdão a competir para recebê-la. A vontade do Governo português em trazê-la para Lisboa foi tal que o Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal e a AICEP – Portugal Global investiram 1,3 milhões de euros para convencer o irlandês a escolher a capital portuguesa. O acordo foi assinado por três anos — 2016, 2017 e 2018 — com possibilidade de estender por mais dois. No entanto, é ele quem diz que é por causa dos telemóveis (que naquele momento estavam desligados) que estamos a criar a geração mais solitária de sempre.

Os adolescentes nunca estiveram tão ligados uns aos outros, mas nunca estiveram tão sós. É uma contradição”, afirma. Qual o papel de uma conferência com o alcance e impacto da Web Summit para travar isto? “Acho que estamos a começar a ter diferentes visões, opiniões sobre inteligência artificial, vícios e sobre a responsabilidade dos governos na proteção das crianças. A China já está a liderar este caminho: estão a introduzir ativamente sistemas que protejam as crianças de alguns dos efeitos que a utilização extensiva dos telemóveis pode estar a ter na sua saúde mental. Se a China consegue fazer isto numa escala de 1,5 mil milhões de pessoas tenho a certeza que os desafios para um país como Portugal são muito menores, sublinha. ”

Vamos imaginar que esta hora offline é um dia inteiro offline. O que faria numa cidade como Lisboa?
— Faço isto constantemente, na verdade. Ainda ontem me sentei na varanda do Hotel do Chiado, apenas a ler. Estive a ler sobre o Liberalismo do séc. XVII, sobre Descartes, Rousseau. Mas isto sou eu, que me interesso por estas coisas.

Quando lhe pedimos que nos exemplifique como marcaria um restaurante e decidiria o que fazer à noite senão tivesse Internet, atira-nos com um “Serendipity has been taking hostage. Têm esta expressão em Portugal?”. Respondemos que não, que serendipity é um feliz acaso, uma feliz coincidência e que, sendo assim, em português a expressão significava que a Internet tinha vindo raptar esses felizes acasos e que fez deles seus reféns. “Cresci numa altura em que não tínhamos isto nas nossas mãos. Como encontravas um bom bar? Apenas andavas e reparavas.”

Disse que estar offline era útil para pensar, mas às vezes parece que as pessoas pensam só para poderem publicar o que pensam nas redes sociais.
— Os algoritmos treinam-nos para tirarmos melhores fotografias, para criarmos conteúdo para o qual olhamos mais vezes. É como se fossemos pequenos hamsters a correr para termos energia.
— E os algoritmos são os nossos mestres?
— São.
— Mas somos nós que estamos a desenvolver estes algoritmos, certo?
— Estamos a criá-los, mas eles estão a mudar o nosso comportamento. Estão fundamentalmente a mudar como operamos enquanto sociedade, estão a criar um novo tipo de feedback.

Está quase a terminar a nossa hora. Pedimos a conta. Não temos telemóvel, como vamos regressar? Perguntamos a um dos empregados do restaurante se pode chamar um táxi. Diz que sim. Vem outro e diz que nos pode dar boleia. “Para onde querem ir? Eu levo-vos lá.” Não era preciso, queríamos mesmo era apanhar um táxi. “Então, venha daí que eu mostro-lhe onde é a praça.” Seguimo-lo. Enquanto estávamos no restaurante, Paddy explica que fenómeno é este das redes sociais. “Antes, tínhamos santos, agora temos influenciadores. Mas já passámos por isto com a televisão, por exemplo”, diz.

Antes de sairmos da Casa Bom Feijão, um desafio:

— Utiliza muito o Twitter, mas como estamos offline gostava que escrevesse um tweet para os portugueses neste caderno.
— Mas em português?
— Não, pode ser em inglês. Mas tem de ser um verdadeiro tweet, com hashtags e tudo.

“Obrigada por estes dois anos incríveis. Esperemos que sejam por muitos mais. #Portugal”

Aproveitamos a oportunidade para perguntarmos o que é que Portugal tem de fazer para que a Web Summit fique em Lisboa até 2020. “Não muito, apenas continuarem a fazer o que têm estado a fazer. É como um casamento feito no céu. Um bom casamento deve funcionar para ambos os lados e acho que a Web Summit também ficou com tanto sucesso por causa de Portugal. Portugal já está a fazer muito pela Web Summit e espero que possamos continuar a fazer mais por Portugal”, responde. O que mais o desiludiu? Por enquanto nada. Talvez o horário dos voos que saem para Dublin, brinca.

E o que gosta mais em Portugal?
— O que gosto mais? Acho que gosto do otimismo. Gosto das pessoas.

Quando caminhávamos para o táxi, a hora que tínhamos acordado para Paddy ficar sem telemóvel tinha terminado. Pegou nele, fez várias vezes scroll no ecrã. Quando entrámos no táxi, contou que no dia anterior tinha ido ao cinema do centro comercial Colombo ver o “Thor”. “Acho que as pessoas não leem as legendas”, ri. Conta que gosta muito da comida portuguesa, mas que não tem um prato preferido, porque costuma optar por refeições leves. “Faço uma alimentação muito saudável, gosto muito da diversidade de peixe que há em Portugal. Gosto de encontrar bons ingredientes, restaurantes onde há boas saladas, não sou fã de comida pesada”, diz.

Não tivemos sorte com a comida nem com o vinho, passámos à música. Conhece canções portuguesas? “Conheço o fado, mas é muito deprimente. Acho que já não se adequa à corrente”, diz, entre risos. Pára depois para sublinhar que “é lindo”, mas que não se adequa ao estado de espírito que se vive atualmente no país. “Talvez ajude as pessoas a manter os pés no chão, o que é importante. Acho que a familiaridade é um traço que encontramos muito em Portugal”, conta.

A viagem era curta, o taxímetro estava a contar. Perguntamos-lhe se é a primeira vez que anda de táxi em Portugal. Diz que não, que anda de táxi e de Uber várias vezes. Na verdade, nem conduz: não tem carta. Explica que em Dublin não precisa e que em Lisboa também não. Ainda estávamos no restaurante quando lhe perguntámos o que escreveria numa carta que entregaria ao filho (que tem um ano) daqui a 15 anos. “Essa é uma pergunta muito boa… O que lhe diria? Aproveita a vida, espero que tenhas vivido bem estes primeiros 15 anos e que não tenhas passado muito tempo em redes sociais. A vida não são só likes.”

— Se uma destas grandes empresas tecnológicas tivesse de desaparecer, qual seria?
— Acho que se fores um adolescente hoje e o Facebook — que tem o WhatsApp e o Instagram — desaparecesse, isso seria massivo. Utilizo muitos produtos da Microsoft e penso que as pessoas mais velhas que estão nestes negócios também os usam, mas se fores um adolescente e a Microsoft desaparecer, não acho que vás reparar. A Microsoft sabe disto e está a reagir muito depressa, a fazer grandes coisas.

Quando chegámos ao destino — bem depois de esgotarmos a nossa hora offline — o irlandês que não sorri facilmente, sorria com a tal familiaridade que é tipicamente portuguesa. Tira o telemóvel, não para telefonar, mandar mensagens ou tweets, mas para nos mostrar as várias fotos que tem guardadas do filho: o bebé Cloud tem um ano e um mês. Despedimo-nos: “Vemo-nos na próxima semana”.

Texto de Ana Pimentel, fotografia de João Porfírio.
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