Mahershala Ali. “Espero pelo dia sem a pressão da cor da pele no cinema”

25 Fevereiro 2017139

Está nomeado para Melhor Ator Secundário, por "Moonlight", e interpretou personagens chave em séries como "Luke Cage" e House of Cards". Em entrevista, diz-nos que "o entretenimento pode educar".

Alto, com 1,87m, magro e elegante, tem uma presença distintiva mesmo que não esteja vestido de fato como o vimos em “House of Cards” no papel de Remy Danton ou à maneira de um traficante de droga com um pano na cabeça como o cubano Juan, de “Moonlight”, filme-surpresa dos Óscares de 2017. O primeiro contacto com o ator mostra alguém que parece tímido, humilde mas extremamente inteligente e com muito para contar.

Nasceu Mahershalalhashbaz (nome inspirado no segundo filho do profeta Isaías) Gilmore. Adoptou há alguns anos o mais curto Mahershala Ali, “por ser mais fácil”, mas até prefere ser tratado por Ali, nome do ídolo Muhammad Ali.

Aos 42 anos (faz 43 este dia 16), Mahershala foi criado como cristão pela mãe, que é pastora, mas converteu-se ao Islão aos 25, depois de visitar uma mesquita com a namorada Amatus Sami-Karim. A cantora e compositora cresceu junto à mesquita do pai em Chicago e ambos conheceram-se quando estudavam artes cénicas na Universidade de Nova Iorque. Casaram em 2013 e vão ser pais pela primeira vez este ano.

[o trailer de Moonlight:]

O ator do momento para revistas como a People ou GQ até começou como um desportista nato com gosto especial por poesia, perto de São Francisco, onde cresceu, apesar do pai ter sido ator de musicais em Nova Iorque. Entrou numa universidade privada com uma bolsa de basquetebol e embora se tenha licenciado em comunicação em 1996 e até tenha contribuído para programas de rádio na zona, quis seguir as pisadas do pai, que morreu em 1994. Em 2000 conseguiu o canudo como ator em Nova Iorque e começou por aparecer brevemente em séries como “A Patologista”, “A Balada de Nova Iorque”, “Lei e Ordem” ou “CSI” mas teve de esperar mais 13 anos por “House of Cards”, a série que o distinguiu definitivamente.

“Conhecer David Fincher mudou a minha vida”, explica Ali, referindo-se não só a “House of Cards” mas ao também ao primeiro trabalho para o realizador em “O Estranho Caso de Benjamin Button”, de 2008. Recentemente, numa entrevista ao The Hollywood Reporter, confessou os sonhos de ser pela primeira vez herói de uma história e de interpretar o cantor de soul e R&B Marvin Gaye no cinema. A conhecer pela primeira vez o sabor das nomeações para prémios importantes, o papel do traficante Juan no filme “Moonlight” valeu-lhe as nomeações para o Óscar de Melhor Actor Secundário e para os Globos de Ouro, além de prémios como o da Screen Actors Guild. Além de “Moonlight”, nomeado para oito Óscares, incluindo Melhor Realizador e Filme, também participou noutra das surpresas das nomeações da Academia, o filme “Elementos Secretos”.

A entrevista que lhe fizemos em Paris em setembro surgiu a propósito da série da Marvel para a Netflix, “Luke Cage”, mas Moonlight era já um tema obrigatório.

[Mahershala Ali em “Luke Cage”:]

O que tem de diferente a série “Luke Cage” na sua carreira?
Luke Cage foi a primeira personagem que interpretei escrita comigo em mente. Nunca me tinha acontecido. Já estive em séries e projetos incríveis mas o Cheo [Hodari Coker] investiu a sério na história da minha personagem e tentou usar muitas das coisas que eu já tinha feito para cimentar e moldar o Cottonmouth a mim. A verdade é que quando eu chegava às gravações muitas vezes sentia-me o protagonista, tal era o detalhe dado à minha personagem, sem desrespeito pelo Mike Colter [que intrepreta o super-herói Luke Cage] que é claramente o protagonista e é incrível e dinâmico. O Cottonmouth, como vilão, parece uma espécie de herói peculiar. Nunca tinha tido tanto tempo de ecrã nem pude trabalhar com este pormenor numa personagem de uma série de televisão como esta. Foi libertador e não podia ter vindo numa melhor altura da minha carreira. Foi uma injeção incrível de energia e um grande desafio porque foi uma personagem difícil e havia algo residual dele que levava comigo para casa à noite. E nos seis meses em que trabalhei nisto estava um pouco mais tenso e frustrado do que costumo ser. Costumo ser uma pessoa fácil e descontraída (risos) e fazer esta personagem foi emocionalmente desafiante.

O que quer dizer com o “não podia vir em melhor altura”?
Porque apareceu depois de uma série como “House of Cards” e é bom para abrir caminho para fazer trabalho mais desafiante. Estava à procura de expandir o que tenho feito e ser desafiado de uma forma nova em televisão e ambos os papéis deram-me coisas diferentes.

E no meio destas duas séries surgiu “Moonlight”.
Foi uma oportunidade incrível. Mal li o guião percebi que era especial e iria tocar quem o visse, mas não tinha ideia que iria ter tanto impacto. Quando temos um bom guião há boas hipóteses de ir longe. Havia uma energia e uma paixão na rodagem, algo incrível, ninguém estava em Liberty City [bairro de Miami] pelo dinheiro. Mas também havia um desafio enorme que me preocupava. Foi uma altura em que estava literalmente a fazer três trabalhos [com “House of Cards” e “Luke Cage”] e tinha receio que uma personagem contagiasse a seguinte, até porque são todas tão diferentes. Por isso criei playlists de música bem distintas para cada uma delas e mal partia para cada uma colocava a playlist certa. Ajudou-me bastante a fechar um mundo e abrir o outro.

Em Moonlight é um traficante cubano…
Sim, afro-cubano. É um homem complexo e que, além da parte criminosa, tem um bom coração. O maior desafio foi ultrapassar os meus próprios estereótipos de quem é traficante. Tive de ignorar o que pensava saber e seguir os meus instintos e as pistas que o Barry Jenkins [o realizador] deixou no guião. Tive de abraçar a sua humanidade, que se revela pela forma como ele vê o Little, que é o miúdo protagonista com dificuldades de adaptação.

“Luke Cage” tem um simbolismo particular por ser quase só com atores negros, um pouco como o filme “Moonlight”?
Estamos [os actores negros] numa posição em que não podemos tomar por adquirido qualquer projeto que surja porque não mandamos neles. Espero com expectativa pelo dia em que haja um anúncio oficial e pessoas de cor possam ser os protagonistas ou haver um elenco mais diversificado sem se pensar muito nisso. Mas como não existimos dessa forma em narrativas, é muito relevante que uma série destas sobre Luke Cage ou um filme como “Moonlight” existam. É notícia esta ser uma série protagonizada por negros. E assim tornamo-nos os representantes de tudo o que é ser negro, isto por não haver mais exemplos no audiovisual. Temos de ser todas as coisas para toda a comunidade negra e isso simplesmente não é possível numa só personagem. Espero pelo dia sem a pressão da cor da pele no cinema, por haver pouco exemplos de protagonistas negros.

"O entretenimento pode educar e ter um impacto social porque permite conhecer pessoas independentemente da raça ou da cultura. É uma oportunidade para a sociedade respeitar e comunicar de outra forma."

Sente então que há um fardo que provavelmente não devia existir…
Sim, não devia mesmo. Para mim a importância desta série é semelhante à importância de “House of Cards”. Quando comecei a fazê-la em 2012, era a primeira da sua espécie e isso mudou o paradigma de como recebemos conteúdo audiovisual. Considerando que é o género de super-heróis e o universo da Marvel, penso que “Luke Cage” abre uma porta e muda a forma como o público vê pessoas de cor em posições proeminentes, por exemplo.

De que forma tem visto a mudança que “House of Cards” e serviços como o da Netflix têm operado no paradigma das séries televisivas hoje em dia? É possível arriscar mais nas histórias graças a esta mudança?
Honestamente, acho que não estaríamos a conversar se não fosse por “House of Cards”. Provou um conceito e abriu as portas para que a Netflix continuasse a produzir conteúdo original por ser tão bem sucedida. Tornou-se gigantesca. Mas até aquele ponto, quando recebi a chamada para fazer “House of Cards”, podiam-me dizer que a série iria só passar nos videoclubes do Blockbuster – que ainda existiam nessa altura –, porque para mim seria a mesma coisa. Não sabia o que esperar. Nessa altura, era uma ideia tão estranha que iríamos ver uma série no computador. Assim que “House of Cards” apareceu, abriu de forma incrivelmente rápida e forte as portas para um mundo de novas hipóteses, que também trouxe a Marvel, que é sempre ambiciosa. Por isso foi a união perfeita. Ajudou ter David Fincher – um dos melhores do mundo – e o Kevin Spacey e a Robin Wright envolvidos, uma combinação de pessoas na série aliada ao dinheiro que a Netflix investiu para que fosse algo de grande qualidade, igual ou melhor ao que se fazia na televisão naquela altura.

“Moonlight” tem tido grande impacto. Deu uma entrevista onde fala da pressão que sente para se comportar de certa forma e contou esta história de racismo durante um festival onde falavam de “Moonlight” num elevador onde estava uma mulher bem mais velha…
Obrigou-nos a sair do elevador, em Toronto.

Mahershala Ali em "Moonlight"

Chegou a dizer que não ficou chocado com isso mas não é esmagador existirem pessoas assim?
Graças a deus existe o André Holland [da série “The Knick” e um dos que mais brilha em “Moonlight”]. Ele é um tipo com tanta classe e decidiu ser maior do que toda a situação e, calmamente, disse para sairmos todos do elevador, sem pressas. Por isso, saímos todos do elevador sem respostas agressivas… custou… Qual é a pergunta exactamente?

A minha pergunta é sobre a perceção do mundo que cada um tem. Uma das mensagens em “Luke Cage” [e que também se vê em “Moonlight”] é que o mundo não é a preto e branco, é cinzento. A forma como vemos as pessoas em estereótipos provavelmente não é a correta…
Sim, porque até com Cottonmouth podemos julgá-lo quando entra numa sala e todos dizem que é um traficante de armas, e pensamos nele como um criminoso perigoso, que é. Mas como vemos na série há uma história incrível por trás que vamos descobrindo. Começamos a percebê-lo e a simpatizar com ele, ao vê-lo como um ser humano de carne e osso, mesmo que não concordemos com o que ele faz. E o que a série oferece ao passar este tempo com um elenco de cor é que afasta aquele primeiro julgamento. Conhecemo-los como pessoas e os estereótipos começam a dissipar-se assim que os vemos de uma forma mais pessoal na narrativa. O entretenimento pode educar e ter um impacto social porque permite conhecer pessoas independentemente da raça ou da cultura. É uma oportunidade para a sociedade respeitar e comunicar de outra forma.

O que é que se pode fazer para trazer compreensão ou representatividade aos jovens afro-americanos, numa altura em que se têm visto manifestações e confrontos?
Como um jovem a crescer nos Estados Unidos, que agora já é quarentão, não cresci a ver pessoas como eu na televisão. Por isso, se não nos vemos é quase como se não existíssemos. Infelizmente tirei pouca inspiração do entretenimento audiovisual. Há muitos jovens negros e pessoas de cor que precisam de se ver representados como humanos complexos. Muitas vezes estamos lá para suportar a história de brancos. Porque que é que uma pessoa de cor não pode ser o protagonista e o centro da história de vez em quando? É importante sentirmos que também somos protagonistas no audiovisual e essa presença informa as pessoas que somos tão humanos quanto os outros. É fácil subestimar o quão importante isto é, a não ser que sejas umas pessoa de cor que nunca te viste representado verdadeiramente em televisão ou cinema.

"O público em geral não percebe que não é só o tipo que é mafioso que leva tiros da polícia ou é mandado parar ou assediado. É algo que é preciso mudar."

Como vê a situação política e social atual [ainda antes de Trump assumir a presidência] nos Estados Unidos?
Uma série como “Luke Cage”, que estreou em 109 países com personagens negras tão complexas, planta uma semente que pode crescer e isso é importante porque as coisas que entram na nossa consciência perduram. As pessoas que não vivem na comunidade negra podem ter uma noção das coisas que se estão a passar, como na Carolina do Norte. Pela graça de deus nunca tive problemas com a polícia, mas já tive vários incidentes complicados. Sou um homem afro-americano com um mestrado. Há uns três anos estava a ir pela rua com um amigo enquanto falava com a minha avó ao telefone e fui mandado parar por vários polícias, numa área simpática de Berkeley [Califórnia]. Entrava na descrição de um chulo de raparigas novas de que andavam à procura. Eu apareço na televisão, não sou propriamente desconhecido. Tive de me identificar e encostaram-me à parede, isto porque tinha uns jeans e uma sweatshirt vermelha como o tal chulo. Foi embaraçoso e humilhante estar ali daquela forma, na cidade mais liberal dos Estados Unidos.

Foi situação única?
Já me mandaram parar na estrada e a primeira pergunta é se estou em liberdade condicional e quando digo que não, ele vai-se embora porque não tinha mais nada para dizer. Já tive amigos que tiveram experiências ainda mais difíceis com a polícia e até tenho dois bons amigos que são polícias, por isso sei bem que nem todos são maus. Mas quando não conhecemos alguém as coisas são diferentes. Quando as pessoas me reconhecem da televisão há uma proximidade diferente mas estas experiências de alguém que tem tido uma vida de certa forma privilegiada doem-me. São coisas normais para os afro-americanos. O público em geral não percebe que não é só o tipo que é mafioso que leva tiros da polícia ou é mandado parar ou assediado. É algo que é preciso mudar.

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