Wilders é xenófobo? Mas tem judeus a votar nele

15 Março 2017382

Cerca de 100 mil judeus holandeses foram exterminados no Holocausto. 77 anos depois, 10% da comunidade vota no PVV. Por duas razões: o apoio a Israel e as posições de força contra os muçulmanos.

Ao telefone, Bas Gulati tem voz de africano. Aos 14 anos, o judeu holandês, descendente de alemães, polacos e portugueses marranos, mudou-se com o pai para a ilha de Saint Martin, nas Caraíbas, e lá viveu durante 18 anos. Hoje, com 39, o diretor executivo da Betar (Juventude Judaica), criado no seio de uma família sionista secular, saiu de casa pela manhã para votar no PVV (Partido da Liberdade), liderado por Geert Wilders, descrito como um dos políticos europeus mais xenófobos.

Um judeu a votar num partido de extrema-direita? Há uns anos seria impensável. No entanto, o novo movimento populista de direita conta com alguns partidos, como o PVV, os alemães do AfD e mesmo o republicanismo de Donald Trump, que não apenas apoiam Israel como veem o país como a linha da frente na luta ideológica contra o Islão. Wilders gosta de evocar a sua passagem por um kibbutz (comunidade agrícola) em Israel e repetiu frequentemente na campanha estar a defender “os valores judaico-cristãos” da Europa. O quarto candidato nas listas do partido, o israelo-holandês Gidi Markuszower, é judeu e foi mesmo investigado em 2010 por ligações a um serviço secreto estrangeiro, aparentemente a Mossad.

No entanto, a amizade da extrema-direita ocidental com Israel levanta algumas dúvidas: grupos de neonazis costumam marcar presença nas ações de apoio ao PVV e a outros partidos da mesma esfera política , não se inibindo de fazerem saudações nazis e outros atos que são sintomas de antissemitismo.

“Acredito na honestidade de Wilders no seu apoio a Israel e na sua estima pelos valores judaicos na sociedade holandesa”, diz Gulati, para quem a islamização da Europa é a principal razão para votar no PVV. “A Holanda foi o país que mais judeus transportou para os campos de extermínio. Por causa disso, padecemos de uma vergonha coletiva que nos inibe de criticar os estrangeiros, sob pena de nos chamarem racistas”, diz Gulati. “Mas os holandeses têm de perceber os erros que cometeram a partir dos anos 70, quando abriram as portas a uma grande quantidade de imigrantes muçulmanos. É que o que importámos não foi uma religião, mas um movimento político muito perigoso para os valores europeus”.

O dirigente da Betar acredita que os muçulmanos podem tomar o poder no país se a democracia não se alterar. “Eles são agora 1,2 milhões na Holanda. Têm as mais altas taxas de criminalidade, de ataques a judeus e num estudo recente uma grande percentagem respondeu que não julgava o Estado Islâmico pelos seus atos”, diz. “Como a taxa de natalidade entre as famílias muçulmanas é muito maior, corremos o risco de ter dentro de duas gerações um partido islamita que vença as eleições democráticas e conquiste o poder. E, aí, não vamos poder fazer nada. Temos de atuar já”. Para tal, o apoiante do PVV propõe uma medida. “Quando um muçulmano comete um crime, não é só ele que deve ser deportado, mas toda a família. Se ele souber que a irmã e a mãe podem ser expulsas do país, tenho a certeza que vai ter mais cuidado antes de roubar”.

“A Holanda foi o país que mais judeus transportou para os campos de extermínio. Por causa disso, padecemos de uma vergonha coletiva que nos inibe de criticar os estrangeiros, sob pena de nos chamarem racistas. Mas os holandeses têm de perceber os erros que cometeram a partir dos anos 70, quando abriram as portas a uma grande quantidade de imigrantes muçulmanos. É que o que importámos não foi uma religião, mas um movimento político muito perigoso para os valores europeus”
Bas Gulati, diretor executivo da Betar (Juventude Judaica)

Brenda Aartsen, judia por afinidade, concorda. Viveu cinco anos em Israel como ama e nunca mais deixou de vestir as cores da nação judaica. Aos 46 anos, esta funcionária da empresa nacional de caminhos-de-ferro, é uma das impulsionadoras do movimento Time to Stand Up to Israel, que tenta através da divulgação da cultura israelita eliminar a má imagem que o país tem no ocidente devido à ocupação da Palestina. “Votei no PVV pela sua posição pró-Israel e porque têm um judeu como candidato ao parlamento. Mas também porque estou farta do que se está a passar. Eu não odeio muçulmanos, mas há muitos grupos da juventude turca e marroquina que se têm de adaptar à sociedade holandesa. Se não o fizerem, peço desculpa, mas têm de se ir embora”, diz.

Tal como Gulati, também Brenda não se considera racista. Afirmam-se contra todos os muçulmanos que não se comportem de acordo com a cultura holandesa, e não contra a religião em geral. “Podes rezar cinco vezes por dia, podes dizer que Alá é o único Deus e que Maomé é o seu mensageiro, mas tens de pertencer a esta cultura. Não é assimilação, é integração. Nós só queremos que eles se juntem a nós para tornar a Holanda grandiosa”, afirma Gulati, que não toma em consideração as propostas mais polémicas de Wilders, como o encerramento das mesquitas. “Wilders sabe que na Holanda não se aplica nada sem compromissos e que essas propostas nunca vão passar. Ele usa expressões extremas para acordar as pessoas e chocá-las. A taxação do véu islâmico, por exemplo, é uma estupidez. Tenho a certeza de que ele vai abdicar dessas ideias se um dia chegar ao poder”

Ele viveu num kibbutz, tinha uma avó judia, a mulher é uma judia húngara e tem um judeu na lista. Não há forma de se virar contra nós”, diz Brenda, confessando que se vivesse em França não votaria na Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen.

Alguns judeus encaram Wilders com muita desconfiança: temem que uma vez implementada uma agenda xenofóbica os judeus, mais uma vez, passem a ser alvo de perseguição. Mas Brenda não duvida da aliança de Wilders com Israel: “Ele viveu num kibbutz, tinha uma avó judia, a mulher é uma judia húngara e tem um judeu na lista. Não há forma de se virar contra nós”, diz, confessando que se vivesse em França não votaria na Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen. “O pai dela era antissemita e não acredito que ela seja diferente”, afirma a apoiante do PVV.

Numa sondagem realizada pelo jornal judaico Nieuw Israelietisch Weekblad, a maior jamais realizada à comunidade judaica holandesa, que conta com 45 mil pessoas, 10% dos inquiridos respondeu que ia votar no PVV, colocando Wilders na terceira posição entre as opções dos judeus (atrás dos liberais do VVD e dos trabalhistas do PvdA). Ainda assim, um valor menor do que os esperados 15% de eleitores populistas na população geral. O mesmo levantamento apurou que 20% dos votantes judeus vão optar por três partidos cristãos conservadores, com firmes alianças com Israel. 75% dos consultados consideram que os valores islâmicos são uma ameaça para a Europa e que a cultura islâmica é mais violenta que as outras.

“Os judeus costumavam dividir-se entre o centro-direita e o centro-esquerda, mas nos últimos anos as suas escolhas radicalizaram-se à imagem da sociedade em geral”, diz Bart Wallet, historiador no departamento de estudos judaicos e hebraicos da Universidade de Amesterdão. “Do ponto de vista secular, a comunidade israelita gosta do PVV porque defende a identidade holandesa contra o Islão, a lembrança da II Guerra Mundial, querem que a juventude islâmica tenha respeito pela Shoah [Holocausto] e protegem Israel na luta contra o Islão. Do ponto de vista religioso, as coisas são diferentes, porque o judaísmo partilha muitas coisas com o islamismo, como o ritual de circuncisão, a que o PVV se opõe. Isso torna difícil perceber se a amizade é real ou não. Dá azo a que alguns apontem a falta de respeito pela liberdade religiosa, no caso dos rituais, como a verdadeira cara racista do PVV”.

“Há judeus que se sentem próximos da população muçulmana porque também são uma minoria étnica e coincidem nos temas da discriminação e do racismo. Outros focam-se mais no antissemitismo e no anti-sionismo, porque viram muçulmanos em manifestações contra Israel e ficaram revoltados. A posição da comunidade é muito ambígua.”
Bart Wallet, historiador no departamento de estudos judaicos e hebraicos da Universidade de Amesterdão

O académico não duvida da honestidade do apreço de Wilders pelos judeus mas franze as sobrancelhas quanto às alianças do PVV na Europa. “Eles sentam-se na mesma bancada do Parlamento Europeu com outras forças partidárias com um passado problemático em relação aos judeus e ao Holocausto. Por isso, alguns judeus sentem medo do que possa ser o futuro deste movimento populista”, afirma Wallet. Mesmo em relação aos muçulmanos, as opiniões dividem-se. “Há judeus que se sentem próximos da população muçulmana porque também são uma minoria étnica e coincidem nos temas da discriminação e do racismo. Outros focam-se mais no antissemitismo e no anti-sionismo, porque viram muçulmanos em manifestações contra Israel e ficaram revoltados. A posição da comunidade é muito ambígua”.

Wilders não é amigo de Israel e muito menos amigo dos judeus. Ele é anti-Islão A sua tática é velha: inimigo do meu inimigo, é meu amigo”

Ao longo de muitos anos, antes e depois da II Guerra Mundial, a Holanda foi um porto de abrigo para as comunidades hebraicas. No século XVI, Amesterdão recebeu os judeus sefarditas expulsos de Espanha e de Portugal, que rapidamente se integraram ao abrigo de um revolucionário estatuto de liberdade religiosa (1619) e se impuseram como poderosos comerciantes e mercadores. Hoje, a sinagoga portuguesa, uma das mais impressionantes atrações turísticas da cidade, reflete esse passado; é casa de uma comunidade de 800 judeus com raízes portuguesas — com apelidos como Rodrigues Pereira e Vaz Dias — que promove o ensino da língua portuguesa, canta músicas em português nas cerimónias religiosas e faz questão que o serviço seja ortodoxo, tal e qual como aqueles que os seus antepassados celebravam há 500 anos.

Porém, mesmo na mais tolerante das cidades europeias, a maioria dos holandeses não hesitou em entregar os judeus quando os nazis invadiram o país: 100 mil foram assassinados em campos de concentração. Mark Waterman, de 65 anos, filho de várias gerações de judeus de Amesterdão, acredita que a história tem tendência a repetir-se. E considera estúpido que os judeus corram esse risco.

Mark Waterman, 65 anos, não compreende como podem os judeus votar em Wilders

“Wilders não é amigo de Israel e muito menos amigo dos judeus. Ele é anti-Islão A sua tática é velha: inimigo do meu inimigo, é meu amigo”, diz o antigo dono de uma agência de viagens e membro de várias instituições judaicas na Holanda. “A prova é que ele já votou contra os interesses judeus no Parlamento. Quando lhe for conveniente atacar os judeus, ele não hesitará, porque não quer saber de nós”. Waterman é partidário dos trabalhistas do PvdA e tolerante ao ponto de albergar em sua casa um refugiado iraquiano. “Todas essas afirmações de que há mais criminalidade entre os muçulmanos e risco de uma islamização da Europa, são obviamente mentira. Claro que há problemas, mas de uma minoria. Em toda a minha vida, nunca tive qualquer problema em Amesterdão com um descendente de turcos ou marroquinos”.

Waterman dá o exemplo dos EUA, onde Donald Trump também apoia Israel mas já teve apoiantes a saudá-lo com a saudação romana. “Eu acho que o antissemitismo está a crescer às costas destes líderes de direita, mas não tenho dados. Do que tenho a certeza é que se está a tornar mais visível. E essa visibilidade vai também acontecer na Europa se a extrema-direita conquistar o poder”, vaticina. “Por isso, costumo alertar os meus amigos judeus: ‘Quando se acabarem os muçulmanos, eles vêm pelos judeus e pelos africanos”.

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