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Económico, muito mais do que a morte de um jornal

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O mal menor do Diário Económico é a mudança do negócio dos jornais. O seu grande problema chama-se Ongoing, um dos grandes símbolos dos negócios de tráfico de influências da década passada.

A edição em papel do Diário Económico saiu esta sexta-feira, provavelmente, a última vez para as bancas. Está suspensa, desconhecendo-se se e quando pode voltar. No “ar” mantêm-se o site e a ETV.

O fim provável de um jornal com a importância do Económico é sempre uma notícia triste.

Serei suspeito para falar porque – e aqui fica a manifestação de interesses – foi ali que comecei a carreira e nos 10 anos que ali passei estão alguns dos melhores da minha vida, fiz amizades eternas e tive o privilégio de trabalhar com alguns dos melhores jornalistas (texto e fotografia), paginadores, infografistas e outros profissionais que temos. Mas esta visão pessoal é a menos importante.

Importante é que o Económico fundou o jornalismo económico moderno em Portugal. Jaime Antunes e a equipa que liderava perceberam que o ritmo a que então se desenvolviam a economia e os negócios – estávamos na viragem da década de 80 para a de 90 – não eram compatíveis com edições semanais ou secções menos aprofundadas de diários generalistas. Tiveram a visão, souberam executá-la e consolidá-la. Fizeram ali aquela que foi a maior e melhor escola de jornalismo económico que tivemos e que contaminou positivamente a generalidade das redacções do país. Hoje é difícil encontrar uma redacção de jornal, revista, web, televisão ou rádio de primeiro plano que não tenha profissionais que por ali passaram a aprenderam.

Depois disso o Económico conheceu várias fórmulas e formatos, várias direcções e vários accionistas, como o grupo espanhol Recoletos e a Media Capital de Pais do Amaral (quando ainda havia “O Independente” e a TVI não fazia parte do grupo), em diferenciados arranjos de capital. Todos, ao longo de quase duas décadas, souberam desenvolver a marca, reforçá-la, aguentar os embates da concorrência, adaptar-se e reagir às profundas mudanças que a imprensa viveu e continua a viver e manter a matriz de jornal de referência num segmento exigente e complexo como é o da economia e negócios.

Sabemos que o negócio dos jornais diários está a acabar tal como ainda o conhecemos. Um pouco por todo o lado vão-se sucedendo os anúncios do encerramento de edições em papel e a concentração de esforços nas plataformas digitais, onde agora quase toda a gente procura informação. E que isso leva, na generalidade dos casos, à redução de estruturas, de custos e de despedimentos, porque as métricas do negócio digital são diferentes.

Mas em relação ao Diário Económico também sabemos outra coisa. Sabemos que esta evolução dos tempos, que exige mudanças que são bem-vindas, são o mal menor do jornal e do grupo, até porque a equipa que o faz minuto a minuto tem sabido adaptar-se. O grande problema do Económico chama-se Ongoing e tem dois rostos: Nuno Vasconcelos e Rafael Mora. Foram eles que há 10 anos quiseram pagar um preço inflacionado para comprar o jornal, contando com um ganho de influência que as contas do negócio, só por si, não justificavam.

Eles são símbolos maiores do regime de negócios e negociatas que vigorou durante grande parte da década passada e que ajudou a levar o país ao fundo. Pense-se no grupo Espírito Santo e eles estavam lá. Pense-se na PT e nas suas relações perversas com alguns accionistas e eles estavam lá. Pense-se no “assalto” ao BCP e eles estavam lá. Pense-se no tráfico de influências entre política e negócios, serviços secretos e negócios, maçonaria e negócios, e eles estavam lá.

Quando somos apanhados numa rusga podemos ter tido o azar de estar no sítio errado à hora errada. Mas se somos apanhados em quase todas as rusgas é porque possivelmente esse é o nosso modo de vida.

Este antigo regime esboroou-se e aqueles que viviam de expedientes de dívida e troca de favores, sem negócios sólidos e sustentáveis, foram com a enxurrada. Foi o que aconteceu à Ongoing. A partir daí, o accionista literalmente abandonou o jornal, como um pai que abandona um filho à sua sorte. Não desenvolveram nem deixaram desenvolver. Não meteram as mãos no problema nem venderam, deixando que outros, capazes, o fizessem. Desertaram.

Sem uma estratégia definida pelos accionistas, que são quem pode e deve traçá-la, e, por outro lado, inviabilizando qualquer solução externa, condenaram o jornal.

O Económico não é mais uma vítima das profundas mudanças tecnológicas que estão em curso. Estas são bem vindas e devem correr o seu curso. Podem ser dolorosas, exigir fortes adaptações, mas são boas. Da mesma forma que acho que plataformas como a Uber devem operar e que os taxistas devem adaptar-se, que os hoteis devem saber viver com a AirBnb e que as livrarias têm que saber concorrer com a Amazon, também acho que os jornais e as redacções têm que perceber os tempos novos e encontrar no mercado e na sociedade o seu espaço.

Este caso é filho, precisamente, da falta de ética e do desvirtuamento das regras de mercado. O Económico teve o azar de ter os accionistas errados, que não merecem de todo a equipa que está a cair de pé e manteve a liderança do mercado até ao último dia. A marca Económico já demonstrou que merece viver. Mas a Ongoing não deixa saudades.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com

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