Serviço Nacional de Saúde

O cancro nunca é só de quem o tem

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Não chega ter fármacos, radioterapia e cirurgias melhores, mais curativas, quando a sociedade ainda não se adaptou a viver com os seus doentes, que em Portugal ainda não estão no centro da oncologia.

Compreendo que os leitores habituais deste jornal tenham maior apetência para ler matérias aparentemente mais relacionadas com política ou economia. Hoje, é mais frequente ler-se o que diga respeito à disputa de liderança no PSD, aos supostos méritos do Dr. Centeno, à tensão na coligação do Governo ou às trapalhadas e azares de governantes. Desta vez, peço a vossa atenção para um assunto que tem muito mais a ver com decisões políticas, finanças e economia do que possa parecer. Tem tudo a ver com o papel das políticas públicas para a promoção e defesa do bem-estar das pessoas. Abordo um dos temas que já é incontornável, embora muito esquecido, nas discussões sobre Saúde Pública, o do cancro na sociedade. Foi recentemente alvo de sessão paralela na AR, infelizmente longe do hemiciclo, subordinada ao tema do cancro da mama mas que passou com pouco destaque.

No caso do cancro há questões de ordem psicossocial e de apoio sintomático e familiar de que ainda estamos muito deficitários. Não é só de cuidados paliativos, cuja definição é enganosa ao projetar-nos para a doença incurável e nos afastar da oncologia interventiva e de suporte, de que precisamos.

Não há ninguém que não conheça alguém afetado pelo cancro. Todavia, paradoxalmente, são poucos os que sabem o que é viver com cancro ou, com frequência crescente, viver depois do cancro. Existem vários fatores, todos culturalmente variáveis, que explicam este fenómeno. Ainda há, como nas doenças mentais, estigma associado a uma “doença má”, a tal que matou uma tia avó, de que só vim a saber ter morrido com um carcinoma hepático muitos anos depois do seu falecimento, já eu era estudante de Medicina. Tende a evitar-se aquilo de que se tem medo e, ainda para muitos, é mais fácil ir fumando, ao mesmo tempo que se afirma não temer a morte e se vai ignorando as imagens, visíveis nas embalagens, que nos lembram as doenças e o risco de fatalidade associada ao cancro. No fundo, todos temos de morrer um dia e até há aquele que sabe de outro que nunca fumou e morreu de cancro, de mais um que era um poço de virtudes e foi-se em três meses e depois há um Zé, o do café da esquina, que foi operado, fez uns tratamentos e agora está bem. Estará? Essa coisa dos raios, da radiação, eu sei lá o que é isso que eles nos fazem, não dói, pois não? E os químicos, até ouvir dizer que já nem fazem vomitar, não é? No entanto, este discurso que até é bom na medida em que nos lembra os progressos da Medicina, ignora tudo o que pode estar por detrás de uma história clínica, mais longa ou muito curta, em termos de perturbação pessoal, física e psicológica, financeira, laboral, escolar, familiar, afetiva, sexual, etc. O cancro, como qualquer outra doença é de quem o tem, mas não só. O cancro mata antes de matar quem dele padece. Quantos casamentos são vítimas do cancro? Quantos empregos se perdem? Quantos querem voltar a trabalhar e não os deixam? Há um conjunto de perguntas que o cancro, muito em especial em Portugal, levanta e têm de ter resposta. Falemos de cancro, em voz alta!

É certo que temos a meritória intervenção de associações de doentes e profissionais que vão ajudando, mais do que estudando, os fenómenos biopsicossociais que acompanham a doença ou surgem depois dela. É verdade que há iniciativas de estudos e intervenções que já estão no terreno e merecem ser mais visíveis. É igualmente certo que há estudos académicos, muitas vezes interrompidos após a obtenção do almejado grau, que são contributos para a compreensão dos fenómenos da morbilidade associada ao cancro, do enredo social da malignidade e da vida com e após o cancro. Mas, independentemente do que se possa fazer ao lado do Estado, é a este que competirá sempre a defesa última dos interesses dos cidadãos. É por isso que precisamos de maior envolvimento político e de toda a sociedade na prevenção e no tratamento global da pessoa com cancro e de toda a sua envolvente. Mas não basta ter políticas públicas. Todos somos precisos, na Saúde é sempre assim, para que o fenómeno do cancro, infelizmente mais crescente do que a nossa longevidade, seja controlado com sucesso e tenhamos menos doentes em cada ano que passa. Precisamos que se possa sobreviver a um cancro com uma nova vida, plena, com trabalho e realização pessoal e familiar.

O cancro é um conjunto de doenças produzidas por problemas no controlo da diferenciação e crescimento celular, mas também é um enorme agregado de patologias que lhe estão associadas e, acima de tudo, é um processo continuado que nunca abandona quem dele padece, seja por força da recorrência, da menor esperança de vida ou das dificuldades em conseguir coisas tão “simples” como conservar o trabalho, arranjar um emprego ou obter financiamento para comprar um carro ou uma casa, mesmo depois de curado. E já há muitos doentes que se podem considerar curados, depois de um esforço enorme deles e de quem os tratou. Não, não chega ter fármacos, radioterapia e cirurgias melhores, mais curativas, quando a sociedade ainda não se adaptou a viver com os seus doentes, com pessoas iguais a nós, com aqueles que são como nós e nós como eles. Os doentes ainda não estão sempre no centro da oncologia que se pratica em Portugal. Neste Natal deixo-vos um bom tema para 2018, um dos muitos que só se poderá encarar e procurar resolver com verdadeiros consensos.

Médico oncologista, ex-ministro da Saúde

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