É oficial: a governação corre tão bem, as contas públicas estão tão controladas, o crescimento económico é tão estonteante, a austeridade está tão exterminada que o governo finalmente recorreu a essa medida evidente: vai literalmente taxar o sol.

Pessoas miudinhas e pouco esclarecidas nas ideologias geringonciais poderiam argumentar que, face à já criminosamente alta carga fiscal a que estão sujeitos os contribuintes, qualquer governo bem sucedido se lembraria logo de baixar os impostos. Se não com convicção, pelo menos como amuse-bouche que nos deixasse na expetativa de mais. Mas não, as contas públicas estão tão fortalecidas que o PS, corajosamente sem temer o ridículo, vai taxar o sol que cada casa recebe. E dizem que é ‘justiça fiscal’ sem tremeliques na consciência. Como na esquerda PS e BE há muito o fenómeno de só conhecerem os pobres pelos livros de Soeiro Pereira Gomes, nunca os viram ao perto e não sabem que a casa de uma família em dificuldades pecuniárias pode ser muito solarenga. Faz sentido.

Mais exótico ainda é taxar as casas consoante a qualidade da vista. Uma vista supimpa é, como se sabe, um critério objetivo e mensurável, convenientemente à espera de ser taxado sem provocar distorções ou injustiças. Estou felizmente habitada de uma absoluta confiança nos burocratas do ministério das finanças e das câmaras municipais para definirem o que é uma boa vista, porque infelizmente sou eu própria pouco esclarecida ideologicamente, em termos geringonciais, e reconheço que a minha primeira (e a trigésima quarta) reação à notícia da subida do IMI para casas com boa vista e exposição solar foi de gozo e de conselhos de prolongadas psicoterapias para quem inventou a manigância.

Sendo uma pessoa com deficiências quando se trata de ver pontos positivos no aprofundamento do socialismo, vislumbrei logo algumas lacunas. Escapa-me, por exemplo, a justiça de aumentar o IMI aos proprietários de imóveis nas zonas antigas de Lisboa, muitos deles com vistas catitas, mas que não dão grandes alegrias em vil metal aos seus proprietários porque estão arrendadas por poucas dezenas de euros por mês cada casa.

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A seguir, com a minha impenitente vontade de contrariar a chegada da ‘justiça fiscal’, notei que o conceito é um tudo-nada sujeito a imprecisões. Dou um exemplo: para mim, uma vista para qualquer repartição pública seria uma vista funesta, muito mais do que um cemitério, mesmo que ao fundo, para compensar, o Tejo se deixasse ver de forma desimpedida. E por falar em cemitérios, os românticos que vão para Paris visitar o Père Lachaise, ver o túmulo de Oscar Wilde e assim, bem podem apreciar uma vista sobre o Cemitério dos Prazeres. E por falar em Cemitério dos Prazeres, a Junta de Freguesia da Estrela tem um projeto para o jardim em frente que tornará a vista mais apelativa. Devemos a partir de agora exigir que câmaras e juntas de freguesia parem de requalificar o espaço público para que a vista das casas circundantes não melhore?

E, como lembrava Rui Albuquerque no facebook, como fazer para as pessoas ceguetas que não aproveitam as vistas? Terei eu um desconto no IMI se prometer ao ministro Centeno ir à minha varanda sempre sem óculos? As pessoas com cataratas que estão em lista de espera para operação no SNS, que lhes sucederá? E quem mora com vista para edifícios bonitos que um dia são grafitados e o proprietário não tem dinheiro para limpar? Haverá desconto no IMI enquanto os gatafunhos permanecerem? Nos anos com chuva e nevoeiro que impeçam o gozo da vista e do sol, teremos redução?

Mas tenho de me ensinar a não ser miudinha e avessa à ‘justiça fiscal’. Como prova de boa vontade até deixo aqui mais algumas sugestões ao PS para aumentos de impostos.

Eu gosto de tomar um gin tónico na minha varanda ao fim da tarde (quando o sol bate do outro lado da casa – raios). Como é evidente, as varandas que se prestam a estes usufrutos burgueses, em vez de apenas local para estendal de roupa, devem ser mais taxados. Casas com cães de porcelana à entrada deviam ter aumento de IMI de 400%. Azulejos pirosos (mais um critério objetivo) nas casas de banho e na cozinha, coeficiente proibitivo se faz favor. Casas art deco, essa corrente artística que eu tanto venero? É carregar no imposto a ver se eu deixo de ter inveja dos proprietários.

Saindo do IMI, aproveito para apresentar a minha antiga proposta para aumento de natalidade: taxar as senhoras que não usem minissaias. (Exceto, claro, as que andam de burqa, que as ideologias geringonciais têm um lugar terno no coração para estas simpáticas manifestações do islão.)

Sim, sim, o anterior governo magicou o saque fiscal e ataque à propriedade privada mascarados de reforma do IMI. Mas este governo, campeão das reversões, que aproveita para afinal alargar o saque e o ataque, tornou-se co-progenitor orgulhoso da aberração, com fornecimento de DNA e tudo. Em todo o caso, no meio de perplexidades e sugestões, afianço ao PS que é um gosto ter o IMI de minha casa aumentado para pagar as 35 horas dos funcionários públicos e a suspensão dos cortes de ordenados e pensões acima dos 1500€. Estou ainda grata pela desvalorização comercial da minha casa que um IMI mais alto trará. Já anotei na agenda para logo que possível retribuir as amabilidades..