Medicina

Ser doutor

Autor
  • Luis Carvalho Rodrigues
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O prestígio dos médicos, que antes mantinha a plebe em respeito e de chapéu na mão, como no século XIX, não resistiu à democratização furiosa das redes sociais.

Saíram os resultados das colocações no Ensino Superior e a primeira grande novidade foi a queda dos cursos de medicina no ranking. A faculdade de medicina com média mais alta, a do Porto, aparece apenas em quarto lugar, atrás de três engenharias: duas do Instituto Superior Técnico e uma do Porto. Nos dez primeiros lugares do ranking só há três faculdades de medicina.

Aparentemente, a medicina deixou de ser uma obsessão para os estudantes portugueses. Isso deixa-me feliz. Apesar de ser médico, ou por isso mesmo, afligiu-me sempre ver, ao longo dos anos, os melhores alunos escolherem primeiro todos os cursos de medicina disponíveis e só depois os outros. Havia até quem, em desespero, tentasse primeiro todos os cursos da área de saúde, alguns tão estranhos que só os iniciados sabem o que lá se faz, como a cardiopneumologia. Achei sempre que havia nisto muita falta de imaginação. E de informação.

É verdade que, pior ou melhor, um médico tem sempre trabalho. Doentes haverá sempre, como dizia um dos meus professores. Acresce que, no campo ou na cidade, ser “doutor” continua a ser um valor seguro. Apesar da revolução, do cavaquismo e da alteração dos costumes, o prestígio do médico permaneceu essencialmente intocado ao longo dos anos. E a segurança no emprego, máxima ambição de todo o bom português desde, pelo menos, 1820, veio com o Serviço Nacional de Saúde, que transformou os médicos em funcionários públicos. Isso horrorizou os velhos “barões” da medicina mas agradou às novas gerações de licenciados da democracia, boa parte deles sem consultório na família e sem meios nem relações para o montar.

Tudo isso mudou nos últimos anos. O prestígio, que antes mantinha a plebe em respeito e de chapéu na mão, como no século XIX, e que resistira ao consulado de Leonor Beleza no Ministério da Saúde, não resistiu à democratização furiosa das redes sociais. A reforma dos milhares de médicos formados durante os anos 1970 esvaziou centros de saúde e estruturas hospitalares (não foi a troika que roubou médicos de família aos portugueses, foi a demografia) e os novos práticos, que tinham escolhido a profissão com a ideia de serem cardiologistas, cirurgiões plásticos e neurocirurgiões, viram-se repentinamente atirados para ignotos lugares de província, condenados a “passar receitas” e a preencher estatísticas inúteis.

Para quem ficou nos hospitais, as perspectivas não são melhores: 50 ou 60 horas de trabalho por semana, boa parte delas ao sábado e ao domingo, a troco de valores ridículos e sempre com o risco do erro e do opróbio público.

A medicina já não é o que era. Foi isso que os candidatos ao ensino superior começaram a perceber. Prestígio, segurança, trabalho — para tudo isso há mais e melhor. Os cursos que, este ano, destronaram medicina não prometem a segurança de um “emprego para a vida” — mas têm empregabilidades de 100%. E dão acesso a outros mundos.

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