Foi mais um dia em grande no Parque da Bela Vista. No Palco Mundo, a tarde começou às 17h30 com a jovem Kika, e de seguida João Pedro Pais voltou a partilhar o palco com o veterano Jorge Palma. À hora de jantar atuou o rapper Mac Miller que veio substituir o guitarrista Nile Rogers e depois a cantora e compositora londrina Jessie J., deu o balanço para o artista da noite: Justin Timberlake.

O Palco Vodafone limpou as colunas com o rock alternativo dos portugueses Linda Martini, que vieram apresentar à Bela Vista o último “Turbo Lento”. Às 20h00, acompanhámos com atenção os britânicos Bombay Bicycle Club.

Na Eletrónica, o destaque neste último dia foi a estreia ao vivo de uma das duplas mais emblemáticas do início da década de noventa: os Underground Sound Of Lisbon, promessa de um fecho com chave de ouro.

Mas começamos com um dado que nada tem a ver com música: o primeiro casamento alguma vez consumado no Rock in Rio Lisboa. A noiva foi a jornalista Joana Latino, que decidiu fazer uma cerimónia simbólica no festival, depois de ter casado pelo civil na passada quarta-feira.

joana latino

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Bombay Bicycle Club (20h00)

Chegámos 2 minutos depois da hora, já eles estavam a atuar no palco Vodafone. “Eles” são quatro ingleses que se reuniram no norte de Londres, em Crouch End, em 2005, e também um percussionista e uma vocalista (Liz Lawrence), que os têm acompanhado em digressão. O recinto estava cheio para ouvir aquela que é uma das bandas mais interessantes da pop britânica na atualidade, e um dos nomes que tínhamos apontado com um circulo grosso no alinhamento deste festival.

Jack Steadman é a voz que compõe a maioria das canções da banda, mas é um mentor que não se impõe. Tocam naturalmente, a articulação é tão boa que não se nota um deslize, uma nota fora do sítio, nenhuma hesitação. Ouvimos pausas entre as canções mas o ritmo teve poucos abrandamentos. O alinhamento foi em tudo semelhante ao do festival de Coachella (USA), onde atuaram em meados do passado mês de abril.

Concentraram-se nos dois últimos álbuns (têm quatro): “A Different Kind of Fix” (2011) e “So Long, See You Tomorrow” (2014), cuja capa estava estampada na bateria. Foi um desfile inteligente de brilliant pop, que incluiu temas tais como “Home By Now” (que revelou a doçura da voz de Liz Lawrence), “Luna” (primeiro single do novo álbum), o ritmado “Feel” e o fabuloso “Lights Out, Words Gone”. Os quatro tocaram em simultâneo (e por uma vez vimos os seis a cantar ao mesmo tempo), os roadies não tiveram descanso a afinar e a trocar guitarras entre canções. Foi um alinhamento bem estudado, feito com precisão, uma máquina de melodias pop. Na frente do palco (hoje não nos deixámos enganar, era ali que o som estava bom, abrigado do vento) quase todos dançavam, mais raparigas que rapazes, sorrisos no rosto.

Os Bombay Bicycle Club não são uma banda de figurinos, não têm tiques de vedeta nem pose de rock star. Não são verbalmente muito comunicativos mas irradiam simpatia e humildade, o que nos aproxima deles. Pedem-nos para acompanhar com palmas, sorriem, piscam o olho à assistência, e dançam connosco. Estão ali felizes, como nós. Tocaram muito bem (do melhor que vimos aqui este ano) e sem parar, cansaram-se por nós. Siga a dança, que a vida é uma festa.

Uma nota negativa para os vendedores ambulantes de cerveja e o seu apito constante e ensurdecedor, que nos irrita e distrai do espetáculo. Uma falta de respeito para com o público e a música. Não se compreende, não tem qualquer justificação esta atitude intrusiva por parte dos agentes de um patrocinador oficial. Num sítio como este, para vender cerveja não é preciso fazer barulho.

Justin Timberlake (23h50)

Neste último dia do Rock in Rio Lisboa estiveram 80 mil pessoas na Bela Vista, 60 mil das quais para ver a estreia em Portugal de Justin Timberlake. Um público maioritariamente jovem e feminino estava na (extensa) linha da frente de um palco que mais parecia uma pista, e que o artista aproveitou de uma ponta à outra. Ele correu, saltou, dançou em cima de colunas, esteve imparável durante quase 2 horas. De fato e chapéu preto, camisa e sapatos desportivos brancos, foi um verdadeiro showman, dançarino, ator, e muito comunicativo.

Logo ao início, uma ovação monumental fez com que ele, simplesmente parado diante de todos, agradecesse com duas (de muitas) vénias. E seguiu com “Rock Your Body” (o grande sucesso de “Justified”, álbum de estreia a solo em 2002), que pôs toda a gente a dançar. Numa das breves paragens para respirar (ele e nós), recebe mais uma ovação do público, perante a sua simples presença. Deve ser uma sensação extraordinária, estar naquele lugar. “Yes Portugal, I love you too, you are fucking beautiful!”. Sim, nós sabemos, estamos habituados a ouvir isso.

Pegou na guitarra e sublinhou com Elvis o blues e depois com Michael Jackson a soul que lhe corre no sangue – e cantou “Human Nature”. Há quem diga que Justin Timberlake é o seu sucessor natural. Dotado de uma grande voz, o estilo da sua performance assemelha-se de alguma maneira ao do rei da pop, e a alma motown sente-se por todo o lado.

No palco, mais de 20 artistas garantiram uma experiência musical imaculada. Uma poderosa secção de metais e backing vocals de primeira classe, músicos escolhidos a dedo a garantir um suporte musical de excelência. A produção vídeo foi magnífica, com referências Sci-Fi e palavras fortes: “Sex, Love, Sound”, tudo aquilo que a sua música funde.

Ali não falhou nada, as coreografias estavam ensaiadas ao milímetro. “O gajo não brinca em serviço!”, dizia alguém que passava, e é verdade. Foi um grande espetáculo a fechar a última noite no Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa.

Terminou com o tema “Mirrors“. Perante um público em êxtase, ajoelhou-se, tirou o chapéu, e com a outra mão no peito, fez mais uma vénia. Justin, nós é que agradecemos.

Underground Sound Of Lisbon (03h00)

A edição 2014 do Rock in Rio Lisboa fechou com a primeira atuação ao vivo da dupla Underground Sound of Lisbon (USL). Tal não seria, eventualmente, digno de nota, se os USL fossem um projecto recém-formado, ainda que conhecido. O que tornou especial este, chamemos-lhe, “acontecimento”, foi o facto de Tó Pereira (Dj Vibe) e Rui da Silva nunca terem atuado ao vivo com um projeto que foi uma referência no início da década de noventa do século passado.

Arriscamos em dizer que a maioria dos que assistiam ao derradeiro som da noite na aranha-eletrónica-que-tem-um-chão-que-treme ainda não tinha nascido quando os USL se formaram em 1993 – e com eles a editora KAOS, a primeira dedicada à música de dança produzida em Portugal. Nesse ano lançaram o primeiro single, chamado “Chapter One”, e a história começa aqui.

Enviaram o vinil de “Chapter One” para um Dj importante na house scene de Chicago, que ouviu e… não gostou. Por hábito ou descargo de consciência, consta que terá virado a rodela ao contrário e pôs a tocar o lado b, uma faixa secundária chamada “So Get Up”. E essa “bateu”, como se viu. Um ano depois, tornou-se num sucesso de dança por todo o mundo, e chegou ao primeiro lugar do Club Chart da revista Billboard.

Esta noite o cenário estava montado com mais requinte que o habitual. Dj Vibe à nossa esquerda, Rui da Silva do lado direito, e atrás de cada um ecrãs que alternavam barras a fazer lembrar um espetro de som, linhas de rosto robótico, ou simplesmente palavras tais como “Love Forever” ou “Rythm Move” (música nova? o comboio está em marcha). A batida house característica nunca abrandou, e ainda houve tempo para uma entrada de guitarra elétrica e para uma performance vocal:

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Hoje, temas (e samples) como “So Get Up” e “Dance With Me” ainda rodam pelas pistas de dança, um sinal claro da sua qualidade e importância. E passados vinte anos, pudémos finalmente ouvi-las ao vivo. O chão tremeu, e não foi pouco.

Foi o último dia do 6º Rock in Rio Lisboa. A logística (gigantesca) quase não teve falhas, o que reforça o lugar do Rock in Rio como um dos festivais mais populares e bem organizados em Portugal.

Estivemos em permanência no Twitter com a etiqueta #ObsRiR, e foram muitos os que nos seguiram e interagiram connosco. O nosso muito obrigado a todos.

Esta semana, a partir de quinta-feira, vamos estar no Porto, para Observar a terceira edição (portuguesa) do festival Primavera Sound.