Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

As perspetivas para Portugal são “um pouco melhores agora”, mas o país ainda tem “uma montanha de dívida pública para pagar” durante os próximos anos, o que vai manter o crescimento a um nível “mínimo e volátil”. A opinião é de Nenad Pacek, ex-vice presidente da Economist Intelligence Unit e fundador e líder da consultora Global Success Advisors.

Nenad Pacek, orador, nesta quarta-feira, na Global Corporations Conference, evento realizado em Lisboa, afirmou, numa entrevista ao Observador, que Portugal precisava de dispor de um banco central que imprimisse dinheiro “até a taxa de desemprego cair para 5% a 6%”, mas que esta solução se tornou impossível com a perda de soberania monetária decorrente da adesão à zona euro. “Esta é a tragédia do mau desenho do euro”, acrescentou o economista, porque os membros da moeda única “têm que pedir resgates a Frankfurt, com condições que os empurram para anos consecutivos de sacrifícios”.

“Competir com base em salários baixos” é um caminho difícil porque a competição, a nível global, é “muito apertada” e há países que oferecem melhores condições nestes terrenos.

“Com a retoma que se verifica em vários mercados” em todo o Mundo, as empresas portuguesas devem focar-se, “cada vez mais”, nas oportunidades existentes nos mercados externos para poderem “prosperar”. Para competir, Portugal tem de apostar no investimento em investigação e desenvolvimento. A prazo, esta estratégia “gera a inovação” que pode permitir às empresas concorrerem com produtos de maior valor acrescentado. “Competir com base em salários baixos” e “apostar na indústria” é um caminho difícil porque a competição, a nível global, é “muito apertada” e há países que oferecem melhores condições nestes terrenos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O consultor exemplifica com aquilo que a Coreia do Sul fez pelas empresas que, atualmente, são multinacionais em áreas como a eletrónica de consumo, para recomendar ao Governo português a introdução de apoios às empresas exportadoras, incentivos fiscais e a aposta numa rede de diplomacia económica que ajude na conquista de novos mercados. Outro factor crítico para o sucesso de Portugal, adiantou Nenad Pacek, está na necessidade de fixar os investigadores no país, seguindo os casos da Suécia, Dinamarca, Finlândia e Singapura, além da Coreia, que qualifica como exemplares.

O futuro do euro “não está assegurado” e “nenhuma união monetária conseguiu sobreviver sem uma união orçamental e política”, afirmou Nenad Pacek.

A economia do conjunto da zona euro mereceu um olhar céptico do consultor. “A maior parte das empresas está a tentar proteger as suas posições e há pouco investimento a afluir” à região da moeda única. Isto deve-se à circunstância de os problemas da zona euro “não estarem terminados”, adianta Nenad Pacek.

“Os números da dívida pública persistem nos níveis mais elevados desde a Segunda Guerra Mundial, os balanços dos bancos ainda não foram limpos, o crédito não está a recuperar, os problemas sociais estão a fazer aumentar a popularidade dos partidos anti-europeus e estamos à beira da deflação, o que é muito mais perigoso do que a inflação”. O consultor não hesitou em concluir que o futuro do euro “não está assegurado” e recordou que “nenhuma união monetária conseguiu sobreviver sem uma união orçamental e política”.

“Eu ficaria muito surpreendido se o Governo [chinês] deixasse a taxa de crescimento deslizar para baixo de um nível situado entre 6% e 7%”.

Especialista no apoio e aconselhamento de empresas interessadas em fazer negócios nas nações emergentes, Nenad Pacek considera que, entre as economias de maior dimensão nesta categoria, os BRIC (Brasil, India, Rússia e China) continuam a oferecer oportunidades, sobretudo se a visão for “estratégica” e virada para um prazo de “dez a 15 anos”. Mas nem todos estes mercados estão em pé de igualdade.

“Até as autoridades chinesas já reconhecem que o país não regressará às taxas de crescimento de 11% a 13%” que caracterizaram a expansão do país na primeira década do século XXI. “Agora, consideram que progredir cerca de 7%” é a “nova normalidade”, mas “eu ficaria muito surpreendido se o Governo deixasse a taxa de crescimento deslizar para baixo de um nível situado entre 6% e 7% nos próximos dois a três anos”, disse o consultor.

“A maioria dos meus clientes multinacionais mantém-se otimista” a respeito do Brasil e considera que o atual arrefecimento será “temporário”.

O desempenho que o economista prevê para a China é um argumento para as empresas manterem interesse neste mercado, mas Beijing “tem um conjunto de armas amplo para defender a economia, está a usar incentivos fiscais e monetários” e o país está “sentado” sobre as “maiores reservas cambiais” a nível mundial. Reconheceu que a “acumulação de dívida privada é elevada” e que existe “excesso de capacidade nalguns setores”, mas, ainda assim, considerou que a China vai ter um “bom desempenho” durante os próximos anos.

Sobre o Brasil, Nenad Pacek afirmou que não é o país dos “anos 1980 ou de 1999”, mas que os números da dívida são “aceitáveis” e as reservas cambiais são “muito boas”. Pelo lado negativo, apontou “a descida dos preços das ‘commodities’, a saída de investimentos especulativos dos mercados emergentes e o nível elevado das taxas de juro” como fatores que contribuíram para o abrandamento da economia brasileira. Ainda assim, acrescentou, “a maioria dos meus clientes multinacionais mantém-se otimista” e considera que o atual arrefecimento será “temporário”.

A India vai acelerar a partir do ritmo de crescimento atual, que ronda 5%, antecipa o consultor, devido à mudança de Governo, liderado por um “reformista”, mas a Rússia é o maior “ponto de interrogação”. Motivos? “Parou de crescer, está sob a ameaça de sofrer sanções” por causa do conflito com a Ucrânia, e, se eclodir a “segunda guerra fria”, o ambiente para fazer negócios no país ficará comprometido “durante muitos anos”.

Quem é Nenad Pacek

Nenad Pacek, 46 anos, nasceu na Croácia e formou-se em Viena em economia e negócios internacionais. Foi vice-presidente da Economist Inteligence Unit, onde trabalhou durante 19 anos, antes de fundar a consultora Global Success Advisors, há cinco anos. Gosta de praticar ténis, basquetebol e golf. Mas o seu passatempo favorito é estar com a família, que inclui três filhos, preferência que fica explicada quando afirma que a sua atividade profissional o obriga a estar cem dias por ano fora de casa, situada na capital austríaca. Nenad Pacek é autor dos livros “The Future of Business in Emerging Markets” e “The Global Economy”, ambos publicados em 2012.