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Iraque

Obama diz que todas as hipóteses estão em aberto em relação ao Iraque

Iraque ataca postos do ISIS e pede aos EUA para participarem na resposta militar aos rebeldes. Risco de guerra civil é iminente, enquanto sunitas do Iraque e da Síria chegam a Bagdad.

Depois de ocupar o norte, rebeldes do ISIS avançaram para Bagdad

AFP/Getty Images

O conflito que foi reaberto esta semana pelos insurgentes sunitas no Iraque chegou a um novo patamar. Depois dos pedidos de ajuda militar por parte do Iraque, Barack Obama reagiu dizendo que “todas as hipóteses estão em aberto”. Jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) assumem o controlo total de cidades do norte enquanto avançam para a capital Bagdad.

Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ou também chamado Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIL ou ISIS) é uma milícia formada em outubro de 2004 – derivada da Al-Qaeda – maioritariamente composta por grupos insurgentes sírios e iraquianos, mas também por combatentes experientes de diversas nacionalidades, que já lutaram no Iraque, no Afeganistão, no Iémen, na Líbia. O seu principal apoio continua a vir de organizações sunitas como a Al-Qaeda.

Os rebeldes sunitas que ocupam a cidade de Mossul lançaram entretanto uma lista de regras para os iraquianos que não fugiram e ainda residem naquela cidade iraquiana: “arrependam-se ou morrerão”. “Somos soldados do Islão e estamos aqui para assumir a nossa responsabilidade de devolver a glória ao Califado Islâmico”, explicam para não haver dúvidas sobre quem está no comando.

Um especialista norte-americano na Al-Qaeda contactado pelo The Telegraph, JM Berger, desenha um cenário negro: “a ISIS está hoje sem dúvida numa melhor posição para financiar o terrorismo do que a Al-Qaeda alguma vez esteve, e tem hoje muito mais dinheiro do que Osama bin Laden alguma vez teve, não contando com o que possa resultar da conquista de cidades como Mossul”.

Curdos no controlo

As forças curdas estavam esta tarde em total controlo da cidade de Kirkuk, no norte do Iraque, depois de as tropas governamentais terem abandonado os seus postos, avança o New York Times. Kirkuk é uma cidade-chave para o Iraque pela sua riqueza em petróleo.

“O Exército foi desarmado”, afirmou o governador de Kirkuk, Najmaldin Karim, apenas dois dias depois de os rebeldes alinhados com os jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria terem passado a fronteira da Síria e invadido a cidade iraquiana de Mossul rumo à capital Bagdad.

Avanço para Bagdad

No início da semana, os rebeldes jihadistas do ISIS lançaram uma ofensiva no centro-norte do país, ocupando a segunda maior cidade iraquiana, e ao longo da noite de quarta-feira apelaram aos seus seguidores para avançarem para Bagdad, pondo o Iraque num cenário iminente de guerra civil.

Um dia depois de terem tomado o controlo da cidade norte de Mossul, da região de Ninive, os militantes estavam na noite de quarta-feira a menos de 100 quilómetros da capital, avançando rápido e com pouca resistência por parte das tropas governamentais, escreve esta quinta-feira o The Telegraph.

O porta-voz do ISIS, Abu Mohammed al-Adnani, prometeu numa gravação áudio datada de quarta-feira, que a batalha será de “raiva” quer em Bagdad quer em Karbala, para onde se dirigem a seguir. Abu Mohammed al-Adnani terá ainda criticado a “incompetência” do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki.

Agora a avançar no terreno contra o governo iraquiano, esta fusão de milícias jihadistas do Iraque e da Síria é considerado o mais poderoso grupo das fações jihadistas na Síria responsável por decapitações e atos terroristas generalizados – “mais brutais do que os da Al Qaeda”, segundo o El País. Muitos analistas acreditam mesmo que o ISIS tem o apoio tácito de Bashar al-Assad com o intuito de manchar o movimento rebelde de oposição ao governo.

No caminho rumo à capital iraquiana os rebeldes do ISIS lançaram ofensivas contra grandes cidades como Tikrit, Kirkuk e na província de Salaheddin, atacaram refinarias de petróleo, bases militares e levaram a cabo sequestros e execuções, forçando um êxodo de mais de meio milhão de pessoas em toda a região norte iraquiana.

O avanço dos grupos terroristas no terreno, praticamente sem oposição, está a causar pânico em Bagdad. Segundo jornal britânico The Telegraph, há relatos não confirmados de milícias xiitas que se começam a mobilizar na capital e de diplomatas da ‘Zona Verde’ – fortemente vigiada – a ativar planos de contingência para evacuações de emergência, num sinal de que o conflito pode atingir proporções inesperadas nos próximos dias e fugir ao controlo do governo iraquiano.

Caos instalado

As informações que esta manhã chegavam do Iraque eram dispersas e não confirmadas por fontes oficiais, mas os relatos feitos às agências de notícias apontavam para um cenário de caos e descontrolo por parte das autoridades iraquianas.

Na cidade de Tikrit, localidade onde nasceu o ex-líder iraquiano Saddam Hussein, o governador foi dado como desaparecido depois de as milícias jihadistas terem invadido na quarta-feira o edifício onde se encontrava. As estradas estavam ontem congestionadas em toda a região norte com milhares de civis em fuga.

Outros relatos apontam para a morte de cerca de 15 membros das forças de segurança iraquianas, que terão sido sequestrados no início da semana e depois decapitados pelos rebeldes perto da cidade de Kirkuk.

Entretanto, na cidade de Mossul, três estabelecimentos prisionais terão sido invadidos na terça-feira depois de as autoridades iraquianas terem ignorado os avisos para reforçarem a segurança, o que resultou na fuga de mais de mil prisioneiros.

Os desenvolvimentos dos últimos dias, que ameaçam reabrir a guerra civil sectária, já se transformaram na crise mais grave a atingir o país desde o verão de 2004, quando a revolta sunita-xiita contra as forças internacionais lideradas pelos EUA deitaram por terra as esperanças de um rápido regresso à paz na era pós-Saddam Hussein.

Pedido secreto aos EUA

Já no mês passado, com o início da escalada dos insurgentes sunitas, o primeiro-ministro iraquiano, Nuri Kamal al-Maliki, tinha pedido ajuda a Barack Obama para lançar ataques aéreos contra os redutos extremistas, noticia esta quinta-feira o New York Times, citando fontes oficiais norte-americanas e iraquianas.

A administração de Obama, no entanto, tem vindo a rejeitar o cenário de resposta militar, mostrando-se relutante em abrir um novo capítulo no conflito que a Casa Branca acredita ter terminado em 2011 com a morte de Bin Laden e o anúncio a retirada das tropas do Iraque. Discurso que já está a mudar com a escalada do conflito, com o presidente norte-americano a afirmar que “está tudo em aberto”.

A rápida ocupação da cidade norte de Mossul pelos rebeldes do ISIS (ou ISIL) dá força à tese de que os conflitos do Iraque e da Síria já convergiram num único movimento de insurgência regional. O New York Times desenha um mapa com as cidades e regiões dos dois países onde os jihadistas já ganharam ou estão a ganhar terreno – mapa que cresceu com as ocupações desta semana no norte iraquiano.

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