Um de julho. Está ótimo. A época de clubes estava a fazer uma sesta e, para a seleção, ninguém esperava que fizesse mais do que três jogos. Isto em 2004. Fizeram o dobro. Quartos, meias e final, lá foram os gregos no Europeu que se realizou em Portugal. Com tanto progresso inesperado, foi o primeiro dia de julho a pagar as favas do sucesso. Para Takis Fyssas, que esteva na seleção grega, tinha que ser. Portanto, o seu casamento, e futura mulhe, tiveram de esperar – no dia marcado para atar o nó, havia uma meia-final para vencer.

Um a zero, adeus checos. Este 1 de julho pertencia a 2004 e, após essa vitória, Fyssas, o defesa que depois chegaria ao Benfica, pegou no telefone e voltou a dizer: “Espera, ainda não.” O seu casamento teria que aguardar mais uns dias. Dá-se um salto de uma década e, ao 93.º minuto de bola a rolar entre pés gregos e costa-riquenhos, Sokratis Papastathoupoulos terá pensado o mesmo. Mas com datas diferentes.

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Foi ele, o defesa do Borussia Dortmund, um dos 11 gregos barbudos que estavam no relvado, a marcar um golo. O tal que tinha casamento marcado para 5 de julho, no Cabo Sunião, a cerca de 60 quilómetros de Atenas. O seu golo, aos 93’, dava o 1-1 ao marcador dos oitavos de final entre Grécia e Costa Rica. E, sobretudo, servia como moeda para os helénicos trocarem por mais meia hora de jogo na máquina do tempo.

Que alívio. Quase 20 remates à baliza depois, os gregos marcavam um golo a Keylor Navas, o nome e apelido que, em costa-riquenho, se traduzem em ‘muro’. Ou talvez muralha, como o guarda-redes o provou desde que, aos 66’, um cartão vermelho tirou Oscar Duarte do encontro e obrigou a Costa Rica a proteger o 1-0 só com uma dezena de homens. Complicado? Claro que sim. Mas, com Navas na baliza, haverá sempre um facilitador — neste Mundial, o guardião já defendeu 12 dos 14 remates que acertaram na sua baliza.

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Duas bolas, portanto, fugiram-lhe do radar. A primeira foi logo na primeira jornada, contra o Uruguai, vindo do pé direito de Edinson Cavani e de um penálti. A segunda, já se sabe também, veio de Sokratis Papasthopoulos, o apelido com mais letras de sempre a marcar num Mundial (16 letras, sim, é mesmo verdade). Aqui, acontecia algo inédito. Antes, aos 52’, o remate de Bryan Ruiz que deu o 1-0 à Costa Rica reforçou uma coisa – nunca tantos capitães de equipa tinham marcados tanto numa Copa. Com este, já são 19 os golos vindos de quem usa a braçadeira.

Este foi um de cinco remates que a Costa Rica fez à baliza grega em 120 minutos. Tantos? Sim. O golo de Sokratis empatou um jogo que só as segundas grandes penalidades destes oitavos de final (depois das que decidiram o Brasil-Chile) conseguiram desempatar. Em meia hora de prolongamento, houve grandes defesas de Keylor Navas, desperdício grego (chegaram a não aproveitar uma jogada de contra-ataque com cinco jogadores contra dois defesas) e, a fechar, até a expulsão de Fernando Santos.

O árbitro – desconhecem-se as razões – obrigou o treinador português a refugiar-se no balneário para assistir aos penáltis. E de lá viu apenas um homem falhar. Foi Gekas, o trintão avançado, o único a deixar Keylor Navas defender uma bola pontapeada por um grego. No final, as contas dos penáltis deram um 5-4 aos costa-riquenhos e garantiram-lhes uma inédita passagem aos quartos de final de uma Copa (em 1990, em Itália, perderam 4-1 com a Checoslováquia, nos oitavos).

Agora haverá a Holanda, a laranja que parece ser espremida e chocalhada por Louis Van Gaal a cada jogo que passa. Fechados a defender, correr quilómetros pelos outros, contra-atacar rápido e cobrir a baliza com uma muralha mascarada de Keylor Navas. A fórmula tem servido à Costa Rica e desta vez chegou para ultrapassar a Grécia que, conduzida por Fernando Santos, acaba por cair no melhor jogo que fez neste Mundial.