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Brasil — Alemanha, às 21h (RTP1)

Que choradeira. Em Yokohama, enquanto a taça saltivava de mão em mão, viam-se lágrimas. Elas escorriam por muitas caras brasileiras. E as câmaras prestavam especial atenção a uma delas. Ronaldo, ressuscitado após levar o joelho (pela primeira vez) à oficina, chorava como um menino. Um moleque. Mas tudo tranquilo — afinal, eram lágrimas de alegria. Acabara de marcar dois golos contra a Alemanha, o sétimo e o oitavo no Mundial, e dera a vitória na final à equipa. Agora sim, o Brasil era pentacampeão.

E o Fenómeno voltava a sê-lo. Quatro anos antes já espantara meio mundo. Escoceces, noruegueses, marroquinos, chilenos, dinamarqueses e holandeses. Ninguém o parou. Só os franceses, na final, em Paris, o fariam. Também aí Ronaldo chorou. Com uma diferença: foram lágrimas de tristeza e de dor, por ver o caneco a acabar em mãos alheias. E logo nas do país que se orientara por um farol, preso no génio da careca de Zidane, a mesma que marcou dois golos nessa final, em Paris. Em 1998, o Mundial ficou em casa. Ronaldo (que marcara quatro golos) e o Brasil choraram.

Dezasseis anos depois, a festa ficou a cargo dos brasileiros. Ou melhor, 64 anos volvidos, o país voltou a ser anfitrião de uma Copa (já tinha acolhido o Mundial de 1950). Por enquanto, não chegaram à final. Ainda falta um passo. Mas a aventura já deu para fechar uma trilogia à volta de quatro protagonistas: uma Copa do Mundo, a seleção brasileira, o seu craque e o choro. Se em 1998 e 2002 foi Ronaldo, em 2014 já foi Neymar. E, de novo, o que se viu foram lágrimas de dor, desta feita causadas pela força de uma joelhada colombiana que fraturou uma vértebra nas costas de Neymar.

Choque. Para os brasileiros, claro. De repente, o país ficava sem o moleque prodígio (35 golos em 53 internacionalizações), mas via a seleção seguir para as meias-finais. “O Neymar já fez a parte dele na Copa. Os outros 22 jogadores agora precisam de fazer a sua”, resumiu, na segunda-feira, Luiz Felipe Scolari, o sargentão, o mesmo que hoje comanda o Brasil e que, em 2002, levou a equipa à conquista do Mundial do Japão e da Coreia do Sul.

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Nesse ano, a festa rebentou às custas de uma vitória (2-0) contra a Alemanha — rival que hoje o Brasil defronta pela segunda vez num Mundial. Sim, em 19 edições anteriores da Copa, as equipas que, em conjunto, já venceram oito edições da Copa, apenas se defrontaram por uma vez. É obra.

No total, em 21 duelos, os brasileiros venceram 12 e os alemães apenas quatro, com cinco empates pelo meio. Em jogos a sério, contudo, a história conta-nos pouca coisa. Em 1999, houve um 4-0 para o Brasil na fase de grupos da Taça das Confederações. Após o tal confronto na final do Mundial de 2002, os brasileiros voltariam a vencer (3-2) em 2005, nas meias-finais de outra Copa das Confederações. Depois, só voltaram a partilhar um relvado em 2011,

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Em 2002, no duelo que decidiu um Mundial, os alemães apareceram no relvado com uma geração envelhecida. Jens Jeremies, Oliver Kahn, Carsten Ramelow, Marco Bode ou Dietmar Hamman, por exemplo, mandavam os seus últimos pontapés na bola pela Mannschaft. “Agora, fomos mimados durante os últimos oito anos por uma equipa bastante técnica, algo que não esperávamos da Alemanha”, defendeu Lothar Matthäus, há dias, ao analisar a atual seleção germânica, onde se destacam nomes como Thomas Müller (o tal que marcou três a Portugal), Mesut Özil, Toni Kroos ou Bastian Schweinsteiger.

Uma geração focada em ter a bola, mantê-la na relva, passá-la entre pés alemães e acelerar as jogadas de ataque com tabelas e poucos toques. “Hoje somos mais fortes, temos muito mais qualidades”, sublinhou Oliver Bierhoff, o hoje diretor técnico da seleção alemã e antigo avançado que, em 2002, entrou ao minuto 74 da final.

Seria a última vez que jogaria pela Mannschaft. “Aí o Brasil estava acima de nós, tinha jogadores muito experientes, muito fortes. Era um pouco mais técnico, agora é muito duro”, analisou ao Folha de São Paulo, ao falar da equipa que, na sexta-feira passada, acabou a batalha frente à Colômbia com 31 faltas cometidas (foram 54, no total).

Agressividade? Talvez. “Um jogo dos quartos de final não é um chá para senhoras. Sem corpo e sem luta, não seria futebol”, analisou o alemão Franz Beckenbauer, único de dois homens a ganhar o Mundial como jogador e treinador (1974, primeiro, e 1990, depois) — o outro, só podia, é brasileiro e chama-se Mário Zagallo.

Também Bierhoff defendeu que “o time [brasileiro] parece muito determinado, e o estilo agressivo é importante”. E a coisa poderá piorar. Isto caso Felipão, à falta de Neymar, opte por colocar três volantes à frente da defesa — traduzindo, um trio de médios defensivos, mais duros e dados a perseguir inimigos do que a dizer à bola por onde tem de andar. “Esta é uma das condições possíveis, aí eu daria mais liberdade aos laterais”, revelou, quando questionado sobre a hipótese de colocar Luiz Gustavo, Paulinho e Fernandinho a segurar o meio campo brasileiro.

Depois, sem Neymar, haverá Hulk e Oscar atrás de Fred para causarem sustos aos alemães. Já na cabeça de Joachim Löw poderão existir duas dúvidas — manter Philip Lahm na lateral direita, como o fez contra a França, ou mudá-lo de novo para perto de Khedira e Schweinsteiger, no meio; e ponderar se Miroslav Klose continua sozinho no ataque ou se vai para o banco de suplentes. Isto para devolver Thomas Müller à posição de avançado e poder colocar mais um médio (Mario Götze?) de início.

Seja como for, há quem seja inamovível na confiança que deposita no poder de decisão de Löw. “As suas escolhas parecem-me perfeitas até aqui”, sublinhou o mestre Beckenbauer. De resto, a única novidade antes de a bola começar a rolar é de Neymar — até agora, o moleque tinha estado em todos os 26 jogos desta segunda era de Scolari na seleção brasileira.