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Carlos Caetano Bledorn Verri. É este o nome e os três apelidos do novo seleccionador brasileiro. Novo e, ao mesmo tempo, um velho conhecido. Oi? Sim, e basta referir a alcunha pela qual o futebol se habituou a conhecê-lo — Dunga. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresentou esta terça-feira o sucessor de Luiz Felipe Scolari na seleção canarinho. De novidade a escolha tem pouco: Dunga já guiou a versão futebolística do Brasil entre 2006 e 2010, período no qual conquistou 76,7% dos pontos que tinha por colher.

Foi bom? Pode-se escrever que sim. Desde 2002, ano em que os brasileiros ficaram conhecidos como pentacampeões do mundo (venceram o Mundial do Japão e da Coreia do Sul, com o Sargentão Scolari), ninguém fez melhor. “Se os 76% de aproveitamento não foram suficientes, terei que fazer muito mais para conquistar essas pessoas”, sublinhou, porém, Dunga, quando foi confrontado com as críticas que, pelos vistos, a sua segunda aventura na seleção já suscitou.

Serão pouco merecidas. Pelo menos, enquanto a lupa se foca apenas nos números. A primeira aventura de Dunga na seleção arrancou a 16 de agosto de 2006, quando foi até à Noruega empatar (1-1) com a equipa nórdica. Em setembro, deu logo uma valente alegria aos brasileiros, quando, em Londres, venceu a Argentina por 3-0.

Uns meses depois, também na capital inglesa, apareceu a primeira de 12 derrotas que sofreu ao serviço da seleção. Contra quem? Lá está, frente à seleção portuguesa e a Luiz Felipe Scolari (por 2-0, golos Simão Sabrosa e Ricardo Carvalho). Dunga, aliás, até foi um espetador atento de um batismo — este foi o primeiro encontro de Portugal com Cristiano Ronaldo a carregar a braçadeira de capitão. Nunca mais a largou.

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A viagem de Dunga prosseguiu e, nos 60 encontros em que orientou a seleção brasileira, venceu por 42 vezes. Pelo meio, foi à Venezuela, em 2007, para conquistar a Copa América e, em 2009, viajou até à África do Sul e de lá regressou com a Copa das Confederações na bagagem. O ensaio não serviu de muito. No Mundial do ano seguinte, a seleção brasileira era eliminada nos quartos de final (1-2) pela Holanda, em Port Elizabeth.

Durante essa Copa, Johan Cruyff, o antigo craque e motor da mecânica laranja na década de 70, chegou a dizer que não pagaria um bilhete para ver a seleção de Dunga jogar. “Ele deve ter ingressos de graça da FIFA e, por isso, não paga”, respondeu o homem que se estreou como treinador, a dar ordens desde o banco de suplentes, logo na seleção brasileira. Dois dias após a eliminação da Copa, Dunga era despedido.

Algumas frases proferidas por Dunga durante a sua apresentação:

Tenho que melhorar muito no contato com jornalistas. Por eu ser oriundo do futebol, foquei muito no trabalho em campo, os resultados que obtive, não precisa falar muito. Agora é normal que tenha que aprimorar meu relacionamento com a imprensa, é a reflexão que eu tive nesses anos.

Não podemos achar que somos os melhores. Já fomos os melhores.Temos talento para isso, mas temos que ter a humildade de reconhecer que outras seleções trabalharam muito para chegar onde chegaram. E temos que trabalhar para reconquistar o direito de estar entre os melhores.

Um goleiro fazer uma defesa também é arte, o zagueiro roubar uma bola também é arte. A gente não pode achar que vai encontrar o Pelé a toda hora.

Minha meta é mudar a maneira das pessoas pensarem a meu respeito. Nelson Mandela tinha tudo contra e conseguiu mudar a forma das pessoas de pensar com paciência. Espero que eu possa ter 1% da paciência dele.

Objetivo: rejuvenescer até 2018

Durante a estadia na África do Sul, Dunga até chegou a confrontar Alex Escobar, jornalista da TV Globo, numa conferência de imprensa. “Vocês me conhecem bem e sabem que dificilmente uma pessoa muda em seus princípios, quanto a ética e trabalho. Tenho que melhorar muito no contacto com jornalistas”, admitiu esta terça-feira, durante a sua apresentação, no Rio de Janeiro.

Qualquer treinador que aterre na seleção brasileira terá sempre uma obrigação — vencer o campeonato do mundo. E para Dunga, esta missão também será repetida. “Na minha primeira passagem, foi me pedido para resgatar o valor da seleção brasileira e obter resultados. Na segunda passagem, a tendência é preparar a seleção para a Copa de 2018”, reconheceu.

Ganhar, contudo, foi palavra intocável no discurso de Dunga. Nem uma vez. “Nossa maior ideia é preparar uma equipe para as Olimpíadas e para as Eliminatórias [do próximo Mundial], que serão difíceis e teremos que estar prontos”, preferiu indicar, pouco antes de reconhecer que “o Brasil sempre teve grandes talentos”, mas “não pode achar que vai encontrar um Pelé a toda a hora”.

Hoje há Neymar, o moleque com crista e as pernas que, em 2014, mais talento pincelaram no Mundial — os dois últimos jogos de Scolari na seleção foram os únicos que não tiveram Neymar e, coincidência ou não, a equipa sofreu duas derrotas (7-1, com a Alemanha, e 3-0, frente à Holanda). No tempo em que Dunga ainda olhava para os pés e lá via chuteiras, partilhava a seleção brasileira com Romários, Bebetos, Ronaldos e Rivaldos.

Craques, havia muitos, e foi com eles que, em 1994, ergueu a então quarta Copa do Mundo para o Brasil. Em 1998, ainda era o capitão do escrete que, na final, perdeu à lei da cabeçada de Zinedine Zidane (na bola, por duas vezes) contra a França, por 3-0.