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Snowden: “Voluntariava-me para ser preso por uma boa causa”

O analista informático, que esteve na origem da divulgação do escândalo de vigilância em massa feita pelas autoridades norte-americanas, diz ter esperança de um dia regressar aos EUA.

"Vou escorregar e eles vão encontrar-me. Vai acontecer".

Edward Snowden agarrado a uma bandeira norte-americana, olhando para cima, com uma expressão ao mesmo tempo nostálgica e esperançosa. Esta é a fotografia escolhida pela revista Wired para a capa da edição de setembro, que publica uma longa entrevista ao analista informático que denunciou a forma abusiva como as autoridades dos EUA vigiavam os cidadãos.

A entrevista está disponível no site da Wired e é o resultado de quase um ano de negociações do escritor Jim Bamford para tentar chegar a Snowden. A conversa aconteceu finalmente em junho deste ano, num hotel em Moscovo e durou três dias.

No texto, Bamford escreve que Snowden espera um dia poder regressar aos Estados Unidos. “Disse ao Governo que me voluntariava para ser preso, desde que isso servisse a causa certa”, disse o informático. “Preocupo-me mais com aquilo que acontece ao país do que com o que me acontece. Mas não podemos deixar que a lei se transforme numa arma política, nem podemos concordar com a prática de assustar aqueles que defendem os seus direitos. Não serei parte disso”.

Edward Snowden admitiu ter ponderado divulgar informações no final dos anos de Bush, mas a provável eleição de Obama dissuadiu-o. Acreditou que as coisas poderiam mudar. “Penso que até aqueles que criticavam Obama estavam impressionados e optimistas com os valores que ele representava. Ele dizia que não iríamos sacrificar os nossos princípios, que não mudaríamos quem éramos apenas para capturar mais alguns terroristas”, disse Snowden, que acabou desiludido. “Para além de não terem cumprido essas promessas, repudiaram-nos por completo. Seguiram na direção oposta”.

Mas o momento de viragem foi a descoberta do MonsterMind, um programa de ciberguerra cuja forma de atuar perturbou Snowden. O programa procurava ataques cibernéticos com origem em países estrangeiros e retaliava. Não havia mão humana nesta operação. “Alguém na China, por exemplo, poderia fazer parecer que o ataque vinha da Rússia. De seguida, os EUA atacavam um hospital russo. O que acontece depois?”.

Na entrevista, Edward Snowden diz temer um erro que destrua tudo aquilo que já conseguiu. Por esta razão, o informático muda frequentemente de computador e de conta de e-mail. A equipa de jornalistas que foi ao seu encontro também teve de ter certos cuidados para impedir ser detetada. No local da entrevista não havia smartphones. Todos os ficheiros foram encriptados e todas as reuniões durante o processo foram secretas.

Ainda assim, Snowden acha que não pode escapar. “Vou escorregar e eles vão encontrar-me. Vai acontecer”.

Mas o informático tem outra preocupação, mais relacionada com a causa que defende do que com a sua segurança. Edward Snowden receia que o público se canse e perca o interesse pelas histórias de vigilância em massa. “Uma morte é uma tragédia. Um milhão de mortes é uma estatística”, diz, citando Estaline. Da mesma forma, “a violação dos direitos de Angela Merkel é um escândalo, enquanto a violação dos direitos de 80 milhões de alemães é uma não-história”.

O editor-chefe da Wired, Scott Dadich, acompanhou a sessão fotográfica feita pelo fotógrafo Plato e descreve o momento em que Snowden escolheu ser fotografado com a bandeira do país que teve de abandonar. O informático sabia que muitos ficariam irritados com a imagem, mas era importante para ele, que ama o país, escreveu Dadich. Por fim, Edward Snowden pegou na bandeira como se a protegesse e aproximou-a do coração. Plato soube que aquela era “a foto”.

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