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Não era só um autocarro. Era um frota deles. Ficariam todos estacionados no relvado. Isto se a vontade quisesse que tudo terminasse igual. Empatado. Mas não. Paulo Fonseca já o tinha avisado. “Se me dessem uma folha para assinar e garantir um empate, não assinava”, reforçou, antes de entrar na Luz. O treinador do Paços bem avisara. E este contrato foi rasgado mal o árbitro apitou.

Os autocarros ficaram na garagem. Percebeu-se logo. Quando a bola se pintava de companhia encarnada, viam-se muitos homens de amarelo no meio campo do Benfica. À espreita, com fome, a pressionarem Enzo Pérez e Ruben Amorim, sem cerimónia de importunarem quem os recebia. Nenhuma. Logo aos 5 minutos, uma prova que mostrou isso mesmo — Enzo viu o um cartão amarelo a ser apontado na sua direção, castigando-o por rasteirar Hurtado, após perder a bola.

Pouco depois, veria os braços de Eliseu a fazerem outra coisa. E pior. Aos 9’, a bola foi cruzada, pelo ar, para perto do defesa esquerdo que, com Hurtado à frente, decidiu tocar-lhe nas costas. Ouviu-se um apito. Era penálti. Manuel José, o capitão do Paços, pegou na bola, colocou-a na marcar, correu e rematou. E Artur, o guardião, defenderia depois a quarta grande penalidade esta época. 0-0, nada feito.

Era um susto. Mas serviu de despertador. Os encarnados, ainda que sonolentos, acordaram. Um, dois e não sei quantos passes começaram a entrar na metade do campo do Paços. A bola chegava mais vezes à área adversária. Aos 18’, ainda assim, Hurtado ainda teve um contra-ataque para arrancar, expor a lentidão de Luisão e rematar para Artur defender. A partir daqui, foi Benfica. E foi Lima, que, aos 24’, rematou ao lado da baliza, após passes de Salvio.

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No minuto seguinte, Maxi pegou na bola, à direita, viu Gaitán no meio, à porta da área do Paços, passou-lhe a bola e partiu rumo à próxima paragem. O argentino anteviu a viagem, deu um bilhete à bola, devolveu-a ao uruguaio que, sozinho na área, rematou com o pé esquerdo. Golo e 1-0 para o Benfica. À primeira vez que deixava um homem num duelo privado com Rafael Defendi, o guarda-redes adversário, os encarnados marcavam.

E agora sim, acordavam. Aos 28’, outro passe de Gaitán, agora pelo ar, encontrava Salvio na área, mas o argentino amorteceu a bola, na esperança que ela fosse ter com Maxi, do outro lado da área, ao invés de a rematar. O Paços não adormecia, e trocar passes no meio campo encarnado era coisa que Sérgio Oliveira, Seri, Minhoca e Hurtado se encarregavam de fazer. Só voltaria a ameaçar Artur aos 45’, com um remate do tal Minhoca, já depois de Enzo, lesionado, ser substituído — no dia do 100.º (e último?) encontro com o Benfica.

Na segunda parte, mais do mesmo. Salvo o penálti. Sem Enzo (entrou Franco Jara para o substituir), foi Talisca quem passou a fazer companhia a Ruben Amorim, no meio campo. E fê-lo bem. O brasileiro, ainda que, por vezes, à velocidade das futeboladas sul-americanas, ia e voltava de uma área à outra, procurando sempre a bola pelo meio. Pelo seu pé esquerdo passaram as jogadas que, aos 54’ e 57’, terminaram nos remates perigosos de Jara e Lima.

Aos 63 minutos, Manuel José, o capitão do penálti falhado, quis dar o exemplo de reação ao Paços, mas o remate que disparou de longe nem perto passou da baliza. O Paços não desistia: queria trocar a bola rápido em terras inimigas, usar Cícero, o corpulento avançado, como farol para a segurar, e pressionar o Benfica quando era altura de defender. O problema — ia dando oportunidades para os encarnados contra atacarem. Má ideia.

E foi-o quando, aos 72’, Gaitán reabriu a sua agência de viagens e, na esquerda, fez a bola descolar para o ar e aterrar na cabeça de Salvio, dentro da área, que a rematou para dentro da baliza de Defendi. 2-0, segunda assistência do argentino e alívio na Luz. Como assim? É simples: o Benfica já contava uma década sem vencer no jogo de arranque do campeonato. Por fim, conseguia-o. “O objetivo era vencer, ainda por cima andávamos com esta malapata. Quebrámos o enguiço”, desabafa Jorge Jesus, no final.

Depois, ainda houve um remate de Eliseu, aos 77’, após a equipa roubar uma bola à defesa de Paços, que tentou sair a jogar. O visitantes não mais ameaçaram a baliza de Artur. O Benfica também se manteve calmo e, pouco depois, o jogo terminou. Tempo para um resumo — em 180 minutos de bola a rolar a sério, os encarnados ainda não sofreram golos, conquistaram um troféu, amealharam três pontos, ganharam vantagem sobre o Sporting e lideram o campeonato. Ou seja, finda a pré-época, tudo corre bem.