Primeiro foi Martin Rothblatt. Depois, Martine. Hoje é advogada, escritora e empreendedora, além de ser a executiva mais bem paga nos Estados Unidos — só no ano passado acumulou 38 milhões de dólares (perto de 30 milhões de euros). Mas, diz o El Mundo, todo o dinheiro do mundo não chega para ofuscar uma experiência de vida que mais parece saída de um guião cinematográfico. A história desafia os limites das possibilidades humanas, acrescenta a norte-americana CBS: Martine Rothblatt, 59 anos, tem origem judia, o que não a impediu de criar uma religião própria, e lidera a indústria de inovação farmacêutica — fundou a empresa United Therapeutics para ultrapassar a doença da filha mais nova.

A protagonista do enredo nasceu homem, mas foi na adolescência que começou a suspeitar que estaria no corpo errado, apesar de continuar a gostar de mulheres. A derradeira decisão — passar de um “ele” para “ela” — veio anos depois, em 1994. Na altura já estava casada com Bina Aspen, a mulher que, passados 33 anos de uma vida em comum, permanece a seu lado. “Dois corpos, uma alma, eternamente apaixonadas”, disse Aspen numa entrevista à CBS.

Ocorrida a mudança, Martine publicou um manifesto intitulado de “O apartheid do sexo”, no qual explica existirem tantas identidades sexuais como pessoas no mundo e que os genitais pouco importam, considerados tão irrelevantes como a cor da pele. Talvez por isso a empresária não goste da palavra transexual e recuse, de igual forma, as abreviaturas “mr” ou “mrs” (“senhor” e “senhora” em inglês), optando apenas por “pn” (que significa “pessoa”). Os filhos continuam a chamá-la de “papá” e a mãe, aos 83 anos, prefere “filho” em vez de “filha”.

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A transformação de sexo parece não ter incomodado a união familiar. No trabalho, no entanto, houve quem se afastasse de Martine, mas nem por isso o sucesso profissional abrandou. A empresária e empreendedora estudou legislação espacial e fundou as empresas GeoStar, sistema de navegação baseado no GPS (Global Position System), e a Sirius Satellite Radio.

Mas o maior triunfo será a empresa da qual é CEO, um negócio que surgiu pelas circunstâncias da vida. Foi num período de férias, no início da década de 1990, que a filha mais nova, Jenesis, desmaiou vezes sem conta. À criança foi diagnosticada hipertensão pulmonar, uma doença rara, e apenas dois anos de vida. Martine, numa clara recusa em cruzar os braços, optou por investir o seu tempo na investigação farmacêutica. É dessa forma que surge a empresa avaliada em 6 biliões de dólares (4,7 biliões de euros), United Therapeutics, e a cura de Jenesis, hoje com 30 anos e orgulhosa do pai-mãe.

O artigo do El Mundo também dá conta de números relevantes: apenas 5% das empresas norte-americanas são lideradas pelo sexo feminino. Considerando os diretores executivos mais bem pagos, elas ganham uma média de 1,6 milhões de dólares (1,3 milhões de euros, sensivelmente) por ano a menos do que eles. Martine é a exceção à regra. Ou quase: numa reportagem realizada pela New York Magazine, no início de setembro, explicou que não se sente uma mulher porque viveu metade da vida enquanto homem (muito embora, no início da mudança de sexo, se tenha esforçado por ceder aos estereótipos femininos).

Martine mais parece uma personagem de um enredo elaborado. Não bastasse ter mudado sexo, salvo a vida da filha e ser a executiva mais bem paga por terras norte-americanas, tem uma religião própria: para ela, a tecnologia será capaz de alargar a vida de um indivíduo, razão pela qual criou um robot à imagem da esposa. A isso se dedica a organização de Martine, Terasem Movement Foundation, que é também uma religião futurista com direito a quatro templos e 50 fiéis.