– O senhor é diabético?

– Não.

– Olhe que é…

– Não me diga!

Joaquim Rodrigues, 79 anos, ficou triplamente espantado. Primeiro, foi mandado parar pela GNR. Depois, em vez de um militar, quem lhe apareceu à janela foi o apresentador José Figueiras. Por fim, quando lhe deram uma picada no dedo indicador, ficou a saber que tinha a glicemia mais alta do que supunha.

Nada que o perturbe, no entanto. Conhecer José Figueiras parece ter sido o melhor desta paragem forçada. “Com que então o senhor arranjou aqui um trabalho bonito. Fernanda, anda cumprimentar o Figueiras!”, grita, enquanto aperta entusiasticamente a mão ao apresentador. É verdade: durante duas horas desta sexta-feira, Dia Mundial da Diabetes, José Figueiras arranjou um bonito trabalho, participando numa operação Stop da GNR de Sintra que tinha como objetivo sensibilizar os automobilistas para o perigo de conduzir com níveis baixos de açúcar no sangue.

Enquanto Fernanda, mulher de Joaquim, cumprimenta o apresentador de televisão, os modelos Mónica e Rubim, que também se associaram à ação, vão abordando outros automobilistas que a GNR manda parar à saída da rotunda do Ramalhão, às portas de Sintra. “O meu pai tem diabetes tipo dois, não é uma doença que me passe ao lado”, diz Mónica num dos intervalos da chuva que teima em cair.

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Fernanda, mulher de Joaquim, não quis medir a glicemia, mas também teve direito a bolachas. (D.R.)

Apesar de conhecer pessoas com a doença, José Figueiras não tem nenhum familiar com diabetes. Veio porque a sua imagem é conhecida e ajuda a dar visibilidade à causa. “É um bocado nossa obrigação participar nestas ações. Devemos estar à frente para dar o exemplo”, afirma, enquanto conduz mais uma pessoa para a paragem de autocarro que serve de local de teste. É uma mulher de 87 anos visivelmente agradada por poder participar nesta iniciativa. Acusa um nível de 97 miligramas de glicose por decilitro de sangue, um valor considerado normal e que motiva o espanto dos presentes. Feito o teste, dá mais dois beijinhos a Figueiras, sorri largamente e despede-se, já a caminho do seu Ford Fiesta: “Bye bye“.

Umas bolachinhas para o caminho

A manhã fica marcada por sorrisos e boa disposição entre as figuras públicas, os guardas da GNR e até mesmo os condutores. “Nunca vi as pessoas tão felizes numa operação Stop”, atira o capitão Bruno Ribeiro, que tem a seu cargo os quase vinte militares destacados para a operação. Felicidade à parte, o assunto é sério. “Queremos prevenir a hipoglicemia durante a condução”, afirma Carlos Neto, presidente da Associação de Jovens Diabéticos de Portugal, de quem partiu a iniciativa, em colaboração com o Automóvel Clube de Portugal, a Prevenção Rodoviária Portuguesa, a farmacêutica Roche e a Guarda Nacional Republicana.

“Os efeitos [da hipoglicemia] são semelhantes a uma bebedeira”, explica Carlos, apontando a descoordenação motora e o aumento da adrenalina como duas das situações que podem ocorrer quando os níveis de açúcar no sangue são excessivamente baixos.

“É um controlo difícil”, admite o responsável. É por isso que está aqui: para alertar todos os diabéticos da necessidade de medirem regularmente o seu nível de glicemia e alertar as outras pessoas para o facto de também correrem riscos. Sobretudo se ficarem muitas horas sem comer. Daí que, depois do teste feito, Pedro Mestre, o técnico de serviço, deixe sempre os seus conselhos: alimentação regular e idas ao médico são fundamentais. “A senhora é diabética 24 horas por dia, não é só quando faz o teste”, diz, quando uma condutora admite ter-se esquecido de tomar a medicação esta manhã.

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José Miguel apareceu por iniciativa própria (D.R.)

José Miguel não foi abordado pela GNR para parar. Aliás, nem veio de carro. “Ouvi na rádio” o que se estava a passar e decidiu aparecer, diz. “Sou diabético, por isso é que estou aqui”. É quase meio-dia, tomou o pequeno-almoço às 8h30 e desde essa hora só comeu uma maçã reineta. Fez mal: devia ter acompanhado com uma fatia de pão ou duas bolachas Maria, porque a fruta é muito rica em açúcar, explica-lhe Pedro Mestre. Com a explicação, José Miguel vai mais informado e satisfeito para casa.

Satisfação que, aliás, é a nota dominante. “Ganhamos muito com estas ações”, diz um entusiasmado capitão Ribeiro, que refere haver “muitos despistes porque as pessoas se sentem mal” e para quem a GNR “não é só repressão e fiscalização”, mas também este tipo de ações que “efetivamente contribuem para a redução da sinistralidade”.

Duas horas e dezenas de condutores depois, a iniciativa termina. Cada uma das pessoas que aceitou picar o dedo indicador leva, como brinde, um saco com um pacote de bolachas e um de açúcar, não vá dar-se uma quebra dos níveis de glicemia atrás do volante. No dia 18 há mais, nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Santarém e Faro.