Atentados de Paris

Quando os jornais e os jornalistas são o alvo

O Le Monde reuniu os ataques a órgãos de comunicação social dos últimos 50 anos. Em 2011, o Charlie Hebdo já havia sido alvo de um atentado, com um cocktail molotov, que incendiou a redação.

A sede do Charlie Hebdo e o cenário de destruição após o atentado de 2011

AFP/Getty Images

O ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, levado a cabo por três homens que estão em fuga, matou dez jornalistas, dois polícias e deixou feridas 11 pessoas, das quais quatro estão em estado grave. Tudo aconteceu por volta das 11 horas locais e durou mais ou menos dez minutos. Os três terroristas — François Hollande classificou o ato como um “ataque terrorista” — terão gritado nomes de determinados jornalistas e matado o diretor da publicação, Stéphane Charbonnier, que no passado havia dito que preferia “morrer de pé a viver de joelhos”, como lembra o Le Monde.

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No dia 2 de novembro de 2011, este mesmo semanário foi alvo de um atentado à bomba, acontecimento esse que ficou intimamente ligado com o último número (31 de outubro) do Charlie Hebdo, que dava conta do avanço islâmico na Tunísia e Líbia, conta o El País. Na primeira página aparecia então o profeta Maomé como redator-chefe da publicação e a expressão “Charia Hebdo”, fazendo assim o trocadilho com o nome do jornal e a lei islâmica (Sharia). Maomé proferia ainda a frase “100 chicotadas se não morrerem a rir”. Um cocktail molotov durante a noite bastou para incendiar a redação.

O Le Monde publicou esta quarta-feira um artigo onde reúne ataques a órgãos de comunicação social franceses nos últimos 50 anos. O primeiro da lista diz respeito ao ataque à bomba à casa de dois jornalistas precisamente do Le Monde, em 1961, que tratavam assuntos relacionados com a Argélia, Jacques Fauvet e Jean Planchais. Em 1962, a sala de reuniões do Le Figaro foi também atacada com uma bomba. Segundo um relato de Claire Blandin, no próprio jornal, “uma enorme mesa de carvalho foi projetada para o teto, mas não fez feridos”. Os ataques tiveram o dedo da Organização Secreta Armada (OAS).

Em 1979, os alvos foram o Le Monde e o Le Matin. Ambos os ataques foram reivindicados por uma desconhecida liga de combatentes franceses contra a ocupação judaica, ligada à extrema-direita. Os ataques aconteceram em abril e março, respetivamente, e usaram bombas.

Em 1985 foi a vez do jornal Minute, conotado como de extrema-direita, ser atingido por uma bomba. O atentado foi reivindicado pela Ação Direta, avançou um jornal televisivo então, segundo o Le Monde. Na altura, o então líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, censurou as “campanhas de ódio” face ao Minute. No mesmo ano, em outubro, a mesma Ação Direta atacou na mesma manhã a Antenne 2 e a Radio France, alegadamente porque convidaram Le Pen a participar nas suas emissões. No primeiro caso, os trabalhadores receberam uma chamada anónima três minutos antes e saíram a tempo. Os danos ficaram-se pelo edifício e carros nas imediações.

O Libération foi também atacado em 1991, quando uma bomba explodiu no hall, ferindo uma secretária e dois seguranças. O Le Monde conta que na altura foi deixado um panfleto que tinha a Guerra do Golfo como tema, o que poderia ajudar a situar a natureza do ataque, associando-o à forma como o jornal conduzia então a cobertura do acontecimento.

O Le Monde voltou a estar no centro das atenções em 2004, quando um homem entrou no jornal, de shotgun em punho, a exigir que o diário francês publicasse artigos sobre os seus livros. Dois dos líderes do jornal, Olivier Biffaud e Edwy Plenel, conversaram com o homem durante alguns minutos e convenceram-no a largar a arma.

O ataque anterior ao desta quarta-feira, no Charlie Hebdo, aconteceu em 2013, em dose dupla — em dose tripla, na verdade, mas o ato três desenrolou-se na Société Générale, um importante banco francês. Um homem de 48 anos, armado, entrou no canal de televisão BFM, onde ameaçou o chefe de redação antes de fugir. Depois seguiu em direção ao Liberátion, onde atingiu a tiro e feriu gravemente um assistente de fotografia no hall do edifício.

As motivações de Abdelhakim Dekha nunca ficaram claras, pois preferiu sempre manter o silêncio. No entanto, segundo o Le Monde, Dekha escreveu cartas antes do atentado nas quais falava na Líbia, Síria, denunciando ainda uma “conspiração fascista”, criticando o “capitalismo” e a forma como são geridos os subúrbios. Os media não ficaram alheios às críticas: Dekha considerava, nessas cartas, que os jornais manipulavam as pessoas.

OUTROS ATAQUES SANGRENTOS NA EUROPA DESDE 1995

O Telegraph, no seguimento do ataque ao Charlie Hebdo, fez uma compilação com alguns dos ataques mais mortíferos que tiveram lugar no Velho Continente nos últimos 20 anos (não estão relacionados com jornalismo). O primeiro da lista, em 1995, foi um atentado à bomba num comboio em Saint Michel, em Paris, que matou oito pessoas. O crime foi atribuído a extremistas argelinos, que terão ferido mais de 200 pessoas nesse verão, segundo o diário inglês. Em 1998, um carro-bomba explodiu em Omagh, na Irlanda do Norte, e matou 29 pessoas (220 feridos). O atentado foi reivindicado por um grupo que pertencera ao Exército Republicano Irlandês (IRA), que estava contra o processo de paz na Irlanda.

Em 2002, um jovem de 19 anos matou seis pessoas (sete com o bombista) num centro comercial de Vantaa, perto de Helsínquia, na Finlândia. Mais de 80 pessoas ficaram feridas. Em março de 2011, um atentado à bomba orquestrado atingiu quatro comboios em Madrid, a capital espanhola, matando 191 pessoas e ferindo quase dois mil. O ataque foi reivindicado por um grupo próximo da Al-Qaeda.

Em 2011, Andres Behring Breivik lançou o pânico em Oslo, capital da Noruega, quando fez explodir uma bomba num edifício governamental e perseguiu depois jovens num acampamento do Partido Trabalhista. Na explosão morreram oito pessoas, mas o banho de sangue chegou depois, quando executou 69 jovens com a sua arma, na Ilha de Utoyea. Breivik foi condenado a 21 anos de prisão. O seu pai, Jens Breivik, que não vê o filho desde 1995, lançou um livro e desabafou sobre o sucedido em outubro de 2014.

Em 2012, a França voltou a estar no centro da agenda mediática quando Mohamed Merah, de 23 anos, matou três soldados, em Toulouse e em Montauban (Sul de França), e mais três estudantes e um professor de uma escola judaica, também situada em Toulouse. Os atentados aconteceram em dois atos: 11 e 19 de março. Merah seria morto a 22 de março pela polícia francesa.

O Telegraph dá ainda conta de mais três atentados sangrentos: Bulgária (2012), Inglaterra (2013) e Bélgica (maio de 2014). No primeiro, cinco turistas israelitas foram mortos num resort perto do Mar Negro, após a explosão de uma bomba colocada no autocarro que os levava para o hotel. O condutor e o bagageiro também morreram. Em Londres, no segundo caso, o soldado Lee Rigby foi decapitado por dois homens em plena luz do dia, como conta o El País. Finalmente, o terceiro ataque aconteceu no Museu Judaico de Bruxelas, onde quatro pessoas, incluindo dois turistas israelitas, foram mortas a tiro por Mehdi Nemmouch, de 29 anos, que seria detido seis dias depois em Marselha.

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