Habituara-se a vencer em todos os sítios por onde andara. Fosse na Holanda, em Espanha, Itália ou no Brasil, os golos, fintas, títulos e adeptos boquiabertos não faltavam. Até aos joelhos ganhara quando eles o traíram e, por três vezes, o deitaram numa mesa de cirurgias para ser operado. Voltou sempre aos relvados. Só não conseguiu ganhar a uma coisa. “Mentalmente estou preparado, mas tenho que reconhecer uma derrota. Não aguento mais. Perdi para o meu corpo”, admitia, sem que os olhos fossem barragens para suster as lágrimas. Em 2011, com 34 anos, o Fenómeno acabava e dizia adeus.

Agora quer voltar a dizer olá. Os anos não perdoam: Ronaldo, hoje, está com 38 anos. O Ronaldo brasileiro, o dentudo, o cabeça rapada que, em 2002, resolveu deixar meia-lua de cabelo por rapar e viu miúdos a imitá-lo depois de o verem, assim, levantar o troféu do Mundial. O mesmo que ainda é o mais novo de sempre a vencer uma Bola de Ouro (em 1996, aos 20 anos) e ser, pela primeira de três vezes, considerado pela FIFA com o melhor jogador do mundo. O Fenómeno, como o apelidaram, a quem até um dos mais famosos músicos brasileiros dedicou uma canção, mas que, por obra e acaso, nunca levou uma Liga dos Campeões para casa.

  • Ronaldo conquistou dois Mundiais, em 1994 e 2002, apesar de só ter jogado no segundo, e participaria ainda nas Copas de 1998 e 2006.
  • Foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA em três ocasiões: em 1996, 1997 e 2002. Foi o mais novo de sempre a consegui-lo, quando ainda jogava na Holanda, pelo PSV Eindhoven.
  • Venceu a Bola de Ouro, quando o troféu ainda pertencia apenas à revista France Football, em 1997 e 2002.

Esse Ronaldo, esse mesmo, vai regressar aos relvados. Ou, pelo menos, tentar. Não no Brasil, onde os abandonou quando era jogador do Corinthians, mas nos EUA, onde, agora, já é co-proprietário de um clube. Neste caso do Fort Lauderdale Strikers, da Florida, equipa na qual Ronaldo detém 10% das ações. Até se pensava que seria apenas um rumor, mas não. Na terça-feira lá estava ele, com um sorriso na cara, peso a mais e um inglês melhorado, a apresentar-se no clube norte-americano. E não só.

As perguntas dos jornalistas presentes não tardaram a tocarem todas no mesmo: poderia o brasileiro voltar aos relvados? “Adoro jogar. Esse foi o meu grande amor. Mas retirei-me devido ao meu corpo”, começou por recordar, indicando a deixa para lembrar que, no momento do adeus, em 2011, o brasileiro desvendara que sofria de hipotiroidismo, doença que lhe atrasava o metabolismo e o fazia ganhar quilos e quilos de peso. “Agora muitos estarão arrependidos de terem gozado com o meu peso, mas não guardo rancor a ninguém”, reconheceu, na altura.

Tão honesto como agora, aos 38 anos e ainda com quilos a mais no corpo, quando, sem garantir nada, disse que ia arriscar. “Vou tentar jogar algumas partidas. Mas para jogares tens que estar em muito boa forma. Este ano vou treinar muito. Nos últimos três anos não o fiz porque estava muito ocupado com outras coisas. Mas talvez cheguemos à final e, se me sentir bem, porque não?”, revelou, ao garantir, em entrevista à Sports Illustrated, que vai “inscrever o [seu] nome na NASL [North American Soccer League]” para ficar com essa “opção”.

A NASL corresponde à segunda divisão do futebol norte-americano, onde também jogará o New York Cosmos, o refundado clube, outrora de Pelé e Beckenbauer, e hoje de Raúl González, com que Ronaldo jogou no Real Madrid (entre 2002 e 2007).

O Fort Lauderdale Strikers, aliás, também chegou a ser ninho para algumas estrelas — para Gerd Müller, o bombardeiro que marcou 68 golos em 62 jogos pela Alemanha, George Best, extremo norte-irlandês que foi Bola de Ouro no Manchester United, ou Gordon Banks, guardião a cujas mãos pertencem uma das melhores paradas de sempre em Mundiais. “É uma equipa com história, tradição, e o futebol nos EUA está a crescer”, resumiu Ronaldo, ao justificar o investimento na equipa do estado da Florida.

Um negócio que até teve mão de alguém que já andou por Portugal. Chama-se Pedro Geromel, foi central no Desportivo de Chaves e Vitória de Guimarães (de 2004 a 2008) e foi através dele que o irmão, Ricardo, um dos acionistas do Fort Lauderdale, conseguiu conversar com Ronaldo. “Quando comprei a equipa, disse-lhe: ‘Vamos reunir e logo vemos se podemos fazer algumas. E [Ronaldo] pensou muito no assunto”, revelou, também à Sports Illustrated, o empresário brasileiro.

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O Fenómeno ouviu, pensou, concordou com a ideia e disse que sim. Afinal, treinador era profissão que não lhe convinha. “Acho muito difícil treinar 30 jogadores que pensam de maneiras diferentes. Ser proprietário é uma boa forma de ensiná-lo de como eu ganhei. É um novo desafio. Tenho trabalhado em muitas coisas: no ano passado fui membro do comité de organização do Mundial e comentei jogos na TV Globo. E isto agora é uma grande oportunidade para gerir um clube”, argumentou, ao falar da nova aventura que o espera.

À qual, lá está, se poderá seguir uma outra, a do regresso aos gramados, como dizem no Brasil. Aos campos de relva dos quais Ronaldo Nazário de Lima, a 14 de fevereiro de 2011, se despedira. E o brasileiro não quererá sentir o que, na altura, sentiu e reconheceu num desabafo: “É uma situação difícil quando a cabeça pensa que pode enganar um adversário e o teu corpo não o consegue.”