Agora que foi apresentado o Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências é o momento de falarmos de drogas. Fizemo-lo com Filipe Nunes Vicente, psicólogo que durante boa parte da sua carreira profissional trabalhou na área da toxicodependência. Quem o leu no blogue Mar Salgado e agora no Nada os Dispõe à Acção conhece-lhe o gosto pelas afirmações contraditórias, às vezes desconcertantes, e pela polémica.

O mais proveitoso nesta entrevista será ouvi-la. Porque nenhuma transcrição consegue ser absolutamente fiel às palavras. Porque se perdem as inflexões da voz, as interjeições, os raciocínios que se encadeiam. Mais a mais quando, como acontece com Filipe Nunes Vicente, a ironia abunda. Por isso em vez de um texto a resumir a entrevista aqui fica uma espécie de introdução em forma de citações.

Combate à produção de drogas: “Basta consultar o relatórios das Nações Unidas sobre as drogas e está lá: a produção de cocaína mantém-se estável ou aumenta. A produção de heroína está viçosa (agora a Birmânia/Myanmar está outra vez a produzir, algo que tinha sido erradicado nos anos 80 está outra vez a voltar.) As produções de anfetaminas estão também verdejantes. Todos os anos aparecem cerca de 300 novas substâncias psicoactivas. Isto é a mesma coisa que o Benfica estar 106 anos para ganhar um jogo!”

Guerra às drogas: “O estatuto actual [de proibição] que começou em 1908 está falido. O Afeganistão, quando a coligação entra tem 95 por cento da produção de ópio. Estão lá os melhores exércitos do mundo e passados seis anos a produção aumenta. Para quem gosta da imagens de guerra!…”

Proibicionismo: “Quando dava aulas dizia sempre aos meus alunos: o que é novo em drogas é a proibição. O presidente Lincoln (um grande presidente!), abstémio, dizia que a pior coisa que se podia fazer à causa dos abstémios era proibir o álcool. Deixamos de saber quem bebe, quando bebe, quem produz, onde se vende… Ele fartou-se de avisar.”

Portugal: “Há três grandes portas de entrada de tráfico de cocaína na Europa: a Holanda, a Espanha e Portugal. Nós temos condições óptimas. Temos condições óptimas do ponto de vista geográfico. Temos condições óptimas do ponto de vista de poucos meios de vigilância -– estão a aumentar! -– Temos condições óptimas porque estamos muito relacionados com a principal rota de tráfico da cocaína que é a África ocidental: a Guiné e Cabo Verde. Cabo Verde é hoje um cluster da cocaína.”

Soluções: “O debate entre a proibição e a legalização a mim interessa-me pouco: a proibição demorou tanto tempo a fazer-se que é impossível pensar-se numa legalização que se faça por decreto. A reversão do processo teria de ser mais ou menos parecida com o da proibição: experiências localizadas, discussão… Está neste momento [a decorrer] uma experiência nos EUA de legalização da marijuana. Só saberemos o resultado daqui a três, quatro, cinco anos… Agora também o discurso legalizador é de uma ingenuidade atroz. Em lado nenhum se pode pensar que legalizando as drogas o problema se resolve.”

O que preocupa os pais de hoje: “A grande preocupação é o álcool. Os miúdos de 12 aparecem-lhes bêbedos em casa. Começam nos shots… Fazem o curto-circuito da aprendizagem normal do consumo do álcool. O álcool é muito parecido com o haxixe quando se abusa: falta de concentração, ansiedade, períodos depressivos… E este consumo de álcool é muito mais prevalente do que o do haxixe.”

Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências: “O relatório português não faz referência ao sítio da moda das substâncias de síntese: o Agora Market. Ou nós estamos muito infoexcluídos ou então passou-lhes um bocadinho ao lado. As drogas de síntese substituíram praticamente a heroína.”