Se há coisa que o programa da Grécia ensinou à troika e aos governos é que as previsões podem sair muito furadas. No caso da Grécia, o que os credores esperavam que acontecesse com a economia — com a aplicação do programa que desenharam para a recuperar — ficou muito longe dos resultados estimados.

Quando o primeiro dos programas foi desenhado, a troika esperava que a economia grega voltasse a crescer em 2012, 1,1% do PIB. O resultado final foi uma recessão histórica: 7% do PIB. Se fosse um ano isolado, este resultado já seria terrível, mas não foi. No ano imediatamente anterior, em 2011, a economia deveria ter fechado o ano com uma recessão de 2,6%, mas o resultado foi mais uma recessão de 7,1%.

A economia deveria ter começado a crescer em 2012, mas isso só terá acontecido pela primeira vez no ano passado, apenas 0,7%. Para trás, ficam seis anos consecutivos de recessão.

Mais de um quarto da população grega no desemprego

Maior a recessão, maior o desemprego. A destruição de emprego foi significativamente maior que o esperado no plano inicial, e em alguns anos a taxa de desemprego chegou a ficar quase 11 pontos acima da previsão inicial.

Quando foi desenhado o primeiro dos resgates, em 2010, a taxa de desemprego na Grécia do ano imediatamente anterior teria terminado nos 9,5%. Esta taxa já é alta, mas longe dos valores dramáticos que viria a alcançar nos últimos anos. Com o aprofundar da recessão, as expectativas foram-se ajustando e ficando mais negras. A troika esperava que o desemprego começasse a diminuir um após a economia voltar a crescer, atingindo o seu máximo em 2012 nos 15,3%. A realidade seria bem diferente e nesse mesmo ano a taxa de desemprego atingiria os 22,8%.

Mas não se ficaria por aqui e logo em 2013 cresceu para 25,8%, ou seja, mais de um quarto da população da Grécia estava no desemprego. Terá sido no ano passado que a taxa de desemprego começou a diminui finalmente, com o crescimento verificado, mas esses números só serão conhecidos de forma definitiva já depois das eleições deste domingo.

Dívida pública é quase o triplo do permitido pela Europa

Continua a ser a grande dor de cabeça das autoridades gregas e ainda mais da troika. No início do programa eram os défices anuais, mas rapidamente a sustentabilidade da dívida pública passou a ser o foco de todas as atenções. A Grécia tornou-se o primeiro país da zona euro a reestruturar a sua dívida. Durante o programa teve de o fazer duas vezes, algo impensável para os líderes europeus – em especial para a Alemanha -, que agora o Syriza ameaça fazer outra vez se formar Governo.

A verdade é que não só as previsões ficaram muito aquém, como as próprias reestruturações não conseguiram conter o crescimento da dívida pública como se esperava. Em 2009, a dívida grega era de 115,1% do PIB. Em 2014, mesmo depois de duas reestruturações, a dívida pública grega terá atingido os 177,2%, quase o triplo do limite máximo permitido pelas regras orçamentais europeias.

A ajudar ao desfasamento com a realidade destas previsões estiveram, naturalmente, os problemas com as estatísticas gregas. Já em 2004, a Grécia tinha sido investigada por falsear as estatísticas pelo Eurostat. Os números de 2009 e 2010 foram novamente investigados e os resultados foram revisões sucessivas em alta do défice orçamental, e, consequentemente da dívida pública. O défice de 2009, por exemplo, acabou por ser mais de o dobro do previsto.

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A dívida grega esteve sempre mais alta que o permitido nos próprios critérios de adesão ao euro (limite máximo de 60%) mas com a crise quase triplicou. Fonte: Bloomberg.

Juros da dívida ultrapassaram os 30%

Nos últimos dias de 2014, o anúncio de que a Grécia caminhava para eleições antecipadas, com o Syriza na frente das sondagens, fez regressar à Grécia uma turbulência nos mercados que foi reminiscente do pico da crise da dívida europeia. Os dois anos anteriores tinham sido de uma melhoria clara da perceção de risco em torno da Grécia, à semelhança dos outros países da chamada “periferia” da zona euro, o que é claramente espelhado na evolução dos juros da dívida desde que Mario Draghi prometeu, em julho de 2012, “fazer tudo, dentro do mandato, para preservar o euro”.

A Grécia, que mesmo depois da reestruturação da dívida feita em março de 2012 chegou a ter taxas de juro a 10 anos superiores a 30%, viu os juros caírem até à casa dos 5% em meados de 2014. A melhoria do acesso ao mercado permitiu, até, a emissão de dívida de longo prazo (três anos), o que aconteceu pela primeira vez desde 2010.

Ao mesmo tempo, os principais bancos conseguiram fazer aumentos de capital cruciais para superar os testes de stress do BCE. Esta crise política levou, contudo, a um regresso das tensões, com vários dias consecutivos de queda na bolsa de Atenas e os juros novamente acima dos 10%, efetivamente fechando novamente os mercados para o Tesouro grego. Isto apesar de quase todos os analistas terem assumido, de imediato, uma visão aparentemente tranquila em relação a uma eventual vitória do partido liderado por Alexis Tsipras.

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Os juros da dívida grega estiveram estáveis e a descer até ao início da crise. Em 2011 superara os 30%. Fonte: Bloomberg.

Plano de privatizações para 10 anos

A necessidade de uma maior abertura da economia à iniciativa privada foi um dos pontos-chave do memorando de entendimento da troika com a Grécia, a par das reformas no mercado de trabalho e no sistema de segurança social. Inicialmente, até 2012, a troika notou que os progressos ao nível das privatizações estavam a tardar.

Em dezembro de 2012, o FMI registou “atrasos graves” nesse campo. Esse facto, a par da recessão e da saída de depósitos do sistema financeiro do país, contribuiu para que as receitas estatais estivessem a marcar passo. Em 2011 e 2012, as principais privatizações limitaram-se à venda de 10% da telecom OTE à alemã Deutsche Telekom e a venda da lotaria estatal a um consórcio de empresas ligadas ao jogo.

A partir de 2013, as privatizações aceleraram, com a concessão de portos marítimos, a distribuidora de gás natural DESFA e de empresas estatais ligadas ao transporte ferroviário (Hellenic Railways e Railway Maintenance Company). Todas as receitas com privatizações eram, a partir de final de 2012, encaminhadas para uma conta dedicada à redução da dívida pública.

O plano de privatizações que a troika exigiu à Grécia prevê a venda de participações em empresas durante dez anos. No final, estas vendas é suposto conseguirem receitas de 22,3 mil milhões de euros.