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Título: Os Pescadores
Autor: Raul Brandão
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 256
Preço: 16€

os pescadores

Quando a obra de um escritor passa a domínio público (70 anos após a sua morte), torna-se muito fácil lançar mão dos seus livros e reimprimi-los sem prestar contas a ninguém. O que num primeiro momento se configura como o resgaste editorial duma obra que muitos admiram pode tornar-se um abuso literário, caso se ignorem as leis gerais da filologia textual, como o império da última vontade do autor e o espurgo de erros de composição tipográfica. O resultado pode ser intragável, até — quem sabe?! — para os pequenos bichos devoradores de papel…

Mas quando o cuidado e a competência dos editores têm pleno domínio sobre estes aspectos e outros, igualmente decisivos, como a história editorial do livro em causa e a sua recepção crítica ao longo dos anos, uma nova edição que resulte dos seus bons ofícios torna-se a legítima representação do trabalho do escritor — um morto bem morto que já não se pode valer, mas tem quem o faça por ele, e superlativamente.

Raul Brandão merece bem a nova e excelente edição de um dos seus livros de referência, Os Pescadores, lançada pela Relógio d’Água. Pela primeira vez, é reunido ao famoso escrito de 1923 o folhetim “História do batel Vai com Deus e da sua companha”, publicado em dez números da revista Brasil-Portugal, entre Janeiro e Junho de 1901.

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Por incrível que pareça, embora represente a primeira grande aproximação da literatura portuguesa à vida litorânea, e de algum modo um ensaio para Os Pescadores, raramente foi dado a conhecer e menos ainda valorizado como parte da narrativa brandoniana. Outros escritos, hoje recuperados, dão conta do primordial interesse do escritor pela vida da gente do mar, e todos eles poderiam ser justapostos a Os Pescadores, mas nenhum como “História do batel Vai com Deus” afirma esse pioneirismo literário.

Além disso, no seu amplo estudo (modestamente designado como prefácio), Vítor Viçoso vai muito além de tudo o que até hoje foi escrito sobre Os Pescadores, inclusive por ele próprio, o que não é dizer pouco. Aceitando ser este livro “pintura escrita”, percorreu não apenas a história da literatura como a história da pintura para fixar a singularidade de Raul Brandão no contexto português e europeu.

RB chapeu Observador

Raul Brandão dedicou “Os Pescadores” à memória do seu avô, “morto no mar”

 

Demolindo a habitual divisão entre ciclo expressionista e ciclo impressionista neste autor, reconheceu enfim que as mulheres da Nazaré, da Póvoa, do Furadouro e outras mais, “força telúrica” e “sacrificialidade arquetípica” (p. 22), são também elas, afinal, figuras de proa do “carnaval negro” de Húmus, A Farsa e Os Pobres, e que a Morte varre as praias como um “fantasma branco”, cuja sombra não desaparece. A dedicatória ao avô, “morto no mar”, não é por acaso…

Os Pescadores não é um livro qualquer. A sua força imagética é tão intensa, que o livro se plasmou nas paisagens físicas e humanas que descreve a ponto de não ser possível — ainda hoje — percorrê-las sem pensar nele. A que mais pode aspirar uma obra de arte?

Escrito em 1920-22 sob o impulso andarilho dado pelo Guia de Portugal de Raul Proença, como itinerário de reportagem de norte a sul, e sem nunca ter tido rivais no seu género, foi ainda assim longamente esquecido pelos editores, reaparecendo em 1957 num álbum fotográfico que tirou partido imagético da riqueza e diversidade da nossa vida costeira, em muitos aspectos ainda inalterada, trinta anos depois.

Esse amplexo visual acabou por prevalecer, e talvez por isso nunca ninguém pensou em voltar atrás e ler Os Pescadores à vista dos quadros de Sousa Lopes, João Vaz, Marques de Oliveira e Souza Pinto (embora Brandão tivesse piscado o olho ao exercício, descrevendo-os como “quadrinhos ao ar livre”), ou, em caminho inverso, procurou perceber se o livro — cujo “visualismo antropológico” me parece quase cinematográfico — inspirou a Leitão de Barros os documentários Nazaré, Praia de Pescadores (logo de 1929), A Pesca do Atum e Póvoa do Varzim (1939, 1942) ou os filmes Maria do Mar e Ala-Arriba! (1930 e 1942). São reenvios inevitáveis, que a fecundidade do livro e o prazer de relê-lo sugerem, e que esta edição “orgânica” amplifica, convidando a uma vaga de novas avaliações críticas, em vésperas dos 150 anos do nascimento do escritor.

Na edição da Relógio d’Água também merecem elogios as 11 páginas de notas de Luis Manuel Gaspar, que ora nos avisam de variantes das várias edições e das opções de fixação textual, ora nos informam sobre pessoas e factos referidos. Dois devotados brandonianos produziram esta edição de grande qualidade, que importa preferir em absoluto. Vivamente recomendo-a a todos — a começar pelos livreiros…