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Doçaria

Portugal tem doces que Portugal desconhece

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Se cada recanto do país esconde um doce típico, como se diz, reuni-los a todos numa base de dados será tarefa tão árdua como calórica. Mas é a isso mesmo que se propõe o projeto No Ponto.

Autor
  • Tiago Pais

Ao contrário das crianças que cada vez que viajam com os pais insistem sempre em trazer uma lembrança local, seja um brinquedo ou um postal, Cristina Castro preferia ficar com outro tipo de memória. Onde quer que fosse, pedia sempre para provar os doces típicos dessa cidade. Só uma criança assim, feita adulta entretanto, poderia criar este projeto No Ponto, cuja missão, tão árdua como açucarada, é a de reunir em livro toda a doçaria regional portuguesa, conventual ou não, que promova e use os produtos endógenos, contando, pelo caminho, não só a sua história mas também a de quem a produz.

“Isto vem ao encontro da ideia, um pouco generalizada, que diz que em cada ponto de Portugal há um doce por provar”, refere Cristina, que convidou para colaborar consigo o fotógrafo Gonçalo Barriga e dois consultores, Isabel Fernandes, especialista em gastronomia histórica, entre outras áreas, e autora do blogue Saberes Cruzados, e Virgílio Nogueiro Gomes, um dos maiores gastrónomos portugueses.

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Os rebuçados dos Arcos (de Valdevez) costumam ser produzidos durante a quaresma e vêm sempre embrulhados em papéis coloridos / No Ponto ©

Se por agora o resultado do trabalho vai sendo colocado no site do projeto — todas as quintas-feiras há um post com um doce novo — o objetivo final é bem mais ambicioso: lançar uma coleção de livros bilingues, em português e inglês, que sirva de roteiro da doçaria portuguesa. E será que há matéria suficiente para tal? Não haja dúvidas. O inventário da doçaria, neste momento, ronda os 500 doces, depois de um levantamento feito com ajuda de câmaras municipais e com recomendações que surgem durante as próprias visitas às localidades. Mas o número não é final. “Há doces que nem os próprios locais conhecem e muitos deles ainda temos de os estudar para ver se reúnem as características que pretendemos”, explica Cristina.

Apesar de o site ter sido lançado há apenas um mês, o trabalho já vem de trás. Começou em 2014 e envolveu, primeiro, uma fase de investigação e logística — trabalho de escritório, no fundo — antes de se terem feito as primeiras filmagens, no final do ano. Estas deverão estender-se até ao final de 2015, até porque há alguns constrangimentos temporais, relacionados com os próprios produtos, como esclarece a responsável: “Há produtos sazonais que temos de filmar na sua época, como a marmelada branca.”

Magalhaes_Ponte_Barca

Os Magalhães, originários de Ponte da Barca, homenageiam Fernão de Magalhães, natural dessa vila minhota, e os barcos que navegavam no Rio Lima. Vendem-se na Pastelaria Liz. / Foto: No Ponto

Além da descrição de cada doce, e da respetiva história, a intenção será também colocar a receita, pelo menos nos casos em que os criadores estejam disponíveis a cedê-la ou que estas sejam do domínio público. Além disso, “os textos do livro relativos a cada doce serão muito mais completos do que os que estão no site”, garante Cristina.

A intenção é que os livros comecem a ser publicados ao longo de 2016, ainda sem uma data definida. Até porque todos os dias surgem possíveis conteúdos novos. No último fim de semana, por exemplo, foi lançado um pastel de ginja, em Palmela, e lá foi Cristina prová-lo. Há trabalhos piores.

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