A história clínica de Andreas Lubitz pode ser suficiente para explicar porque provocou a queda do avião da Germanwings na semana passada. O agravamento de uma patologia de base pode ter levado o piloto a decidir suicidar-se e levar consigo para a morte mais 149 pessoas.

Lubitz iniciou a sua formação como piloto na escola da Lufthansa em Bremen, na Alemanha, em 2007. Apenas um ano depois, em 2008, foi obrigado a interromper o treino devido a uma depressão profunda, agora confirmada pela companhia aérea, que mesmo tendo conhecimento da doença o manteve no ativo.

A este quadro clínico, associa-se ainda um historial de tendências suicidas, dado a conhecer pela investigação à queda do avião. E uma alegada doença psicótica, para a qual estaria a ser medicado, segundo notícias dos jornais, sendo que terá interrompido essa medicação (foram descobertas receitas não aviadas na casa do copiloto) e ignorado as indicações médicas para parar de trabalhar.

Pode uma depressão levar a um ato tão grave? O que pode provocar esta doença “moderna”? E pode uma doença assim passar despercebida ou ser escondida? Ou será algo muito mais complexo? O Observador foi procurar respostas junto de especialistas.

Para Fernando Almeida, o historial clínico pode ser suficiente para explicar a ação do piloto alemão. O psiquiatra explicou ao Observador que o termo “depressão” é utilizado para se referir a um quadro psicopatológico (mental) muito mais complexo.

“A palavra depressão — ou até esgotamento — é muitas vezes utilizada para se referir a uma determinada patologia mas, se a desconstruirmos, encontramos um quadro psicopatológico completamente diferente”, diz. Isto significa que, sob o diagnóstico de depressão, podem esconder-se quadros mentais muito diferentes, que vão desde a depressão ligeira à psicótica.

Apesar de a depressão ser muitas vezes associada à melancolia, à angústia e à falta de comunicação, esta pode ser acompanhada de uma “agressividade” e de uma “raiva intensa”, que poderão alimentar um sentimento de vingança em relação aos outros. Para Fernando Almeida, poderá ter sido este o caso de Lubitz.

De acordo com o psiquiatra, esta predisposição poderá ter sido agravada por uma eventual interrupção da medicação. Segundo informações avançadas pelo jornal El Mundo, o copiloto estaria a tomar injeções de Olanzapina, um medicamento vulgarmente utilizado como antipsicótico. A interrupção deste medicamento, sem ordem expressa de um médico, pode “levar à acumulação de uma agressividade intensa e desencadear um sentimento de raiva”, referiu Fernando Almeida.

Associado à interrupção da medicação, outros fatores externos — como o noticiado fim da relação com a namorada ou o diagnóstico de um deslocamento na retina, que o poderiam obrigar a deixar de voar –, podem ter desencadeado essa “sede de vingança” de Lubitz.

“Uma raiva intensa e uma sede de vingança podem fazer com que um indivíduo não tenha noção de que está a matar 150 inocentes”, referiu o psiquiatra. Aquilo a que Fernando Almeida chamou de “homicídio-suicídio” poderá ter afinal a forma de Lubitz se vingar do mundo e de “descarregar a raiva nos outros que o fizeram sofrer”.

Transtorno de personalidade?

Ao estado de depressão, podem ainda estar associadas “outras patologias mais complexas, o que complica o quadro psicopatológico” do doente. Os sentimentos de rejeição e de raiva, ligados “a uma patologia de base”, podem fazer com que este se sinta “de tal modo mal” que olhe para o mundo de forma “mais negra e sem esperança”.

Para Carlos Céu e Silva, no caso de Lubitz essa “patologia de base” poderia tratar-se de uma psicopatia. Porque, para este psicólogo, um historial de depressão profunda não é suficiente para explicar o que se passou com o copiloto alemão. “Tem de haver um transtorno de personalidade mais profundo”.

Ao Observador, o psicólogo explicou que, por norma, as pessoas que sofrem de depressão são solitárias e procuram a morte sozinhas. No caso de Lubitz, o homicídio deliberado de 150 pessoas poderá significar que existe um “quadro clínico mais complexo”, que junta “duas realidades aparentemente antagónicas”.

“Mostra traços de uma certa omnipotência e de uma megalomania que não sabe controlar”, referiu o psicólogo. “Quando tem oportunidade, põe em prática o seu poder”. Isto pode significar que o copiloto alemão sofria de uma psicopatia social, caracterizada pela dificuldade em criar uma relação de empatia para com os outros.

Para Céu e Silva, esta psicopatia pode estar relacionada com um historial de abandono e maus tratos (físicos e psicológicos). “Ao crescer, poderá não ter recebido a atenção necessária. Isto fez com que ele não conseguisse ser um ser equilibrado”, explicou. “Parece ser um ser forte porque é indiferente perante a sociedade. Mas encobre uma fragilidade, que disfarça com vingança”.

Fernando Almeida também não põe de parte esta hipótese de Lubitz. “Pode haver aqui algo de megalómano”, disse. A patologia, porém, pode nunca ter sido diagnosticada por estar numa fase inicial. “Podia ser uma perturbação que não estava numa fase evidentemente psicótica, mas numa fase inicial ou não detetável por um leigo”, explicou.

Perante um forte sentimento de desvalorização e perda, Lubitz terá começado a encarar o mundo como um lugar que “já não lhe dava prazer”. Para o psiquiatra, isto ter-lhe-á dado “abertura para se matar desta forma. Quis dizer ‘passei por aqui, mas deixei a minha marca’”.

Isto significa que, para Lubitz, o seu “homicídio-suicídio” não foi apenas uma afirmação do “seu sentimento de raiva contra o mundo”. Foi também uma “afirmação do seu próprio poder”. E foi essa tendência megalómana que o poderá ter levado a dizer à namorada “um dia vou fazer algo que vai mudar todo o sistema e, depois, todos vão saber o meu nome e lembrá-lo para sempre”.

Por outro lado, Carlos Poiares, psicólogo criminal, acredita que só se conhecerão as verdadeiras motivações de Lubitz quando for feita uma autópsia psicológica. Este tipo de metodologia científica consiste em reconstruir o dia-a-dia de um indivíduo nos últimos meses da sua vida, de modo a compreender o que levou à sua morte. “Nada disto é muito claro”, disse ao Observador. “Apenas o médico que o acompanhou saberá o que se passava”.

Para Poiares, a ação do copiloto alemão trata-se, acima de tudo, de um homicídio. “Aqui temos acima de tudo um homicídio. O objetivo era matar 150 pessoas. O suicídio veio de arrasto”.

Depressão, a doença do século XXI

A depressão é uma das principais causas de doença no mundo inteiro. A chamada doença do século XXI afeta cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com uma estimativa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012. Esta é também uma das doenças mais comuns nos jovens entre os 10 e os 19 anos.

Segundo o relatório “Saúde Mental em Números 2014”, mais de um quinto da população portuguesa (22,9%) sofre de perturbações psiquiátricas, um número que é apenas ultrapassado pela Irlanda (23,1%) e pelos Estados Unidos da América (26,4%).

Em Portugal, a depressão afeta 7,9% dos portugueses e o suicídio foi a causa de morte de 1.015 portugueses em 2012. Este número representa um ligeiro aumento face a 2011, ano em que foram registados 951 suicídios. Apesar disso, o número é um dos mais baixos da União Europeia (UE).

Por outro lado, o uso de antidepressivos em Portugal é mais elevado do que a média da UE. De acordo com o “Saúde Mental em Números” de 2013, o consumo de medicamentos para tratar a depressão corresponde a 55%, enquanto a média da UE é de 51%. No que diz respeito ao tratamento de perturbações de ansiedade, a percentagem corresponde a 47% em Portugal e a 41% na UE.

De acordo com a OMS, os primeiros sinais de depressão costumam surgir durante a juventude. Apesar de todas as pessoas terem na sua estrutura uma componente depressiva, isto não significa que todas desenvolvam uma depressão profunda.

Apesar de muito comum, a doença tem cura, mas são raras as pessoas que a conseguem curar totalmente. Por esse motivo, é recorrente que a mesma pessoa sofra vários episódios depressivos ao longo da vida. Isto é uma das razões pelas quais a depressão é considerada uma das doenças mais incapacitantes.