Os sete candidatos ao número 10 de Downing Street encontraram-se na quinta-feira para aquele que foi o primeiro e único debate em que todos estarão presentes. Ao longo de duas horas cada candidato respondeu a quatro perguntas colocadas por membros do público em estúdio. O formato do debate, inédito no Reino Unido, atrapalhou mais do que ajudou, tornando-o por vezes barulhento e pouco provido de conteúdo.

O debate dividiu-se em quatro temas: o estado da economia, o sistema nacional de saúde (NHS, na sigla inglesa), a imigração e a presença do Reino Unido na União Europeia (UE) e as condições de vida dos mais jovens.

Aqui fica um resumo por pontos, onde reunimos as principais ideias deste debate.

Estado da economia

A pergunta foi colocada por um estudante de Ciência Política de 17 anos: “Como é que os líderes dos partidos vão cumprir as suas promessas de redução do défice sem aumentarem os impostos?”

Cameron, que foi o primeiro a responder, referiu prontamente que o seu governo tem “um plano que está a funcionar”. “Isentámos três milhões de pessoas com os rendimentos mais baixo de impostos e demos trabalho a dois milhões desempregados”, disse, sublinhando também que não quer aumentar impostos.

Miliband acusou-o de não ter combatido a evasão fiscal dos mais ricos e os fundos investimento. Quando teve oportunidade de reagir, Cameron olhou para o público e disse: “Miliband quer aumentar os impostos e tirar o vosso dinheiro porque ele acha que o consegue gastar melhor do que vocês.”

Nigel Farage apresentou a sua receita: “Podemos poupar 10 mil milhões de libras [cerca de 13,6 mil milhões de euros] se pararmos de os gastar em ajuda a países estrangeiros. E ainda outros 10 mil milhões se pararmos de mandar o dinheiro para Bruxelas”. Foi, de resto, a primeira de muitas intervenções em que referiu a UE e os “300 mil imigrantes que chegam ao Reino Unido por ano”.

Igualmente munida de números, Natalie Bennet, do Partido Verde, entrou no tema dizendo que “mais de 20% dos trabalhadores vivem no limiar da pobreza”. Quanto aos trabalhadores por conta própria, Bennet disse que 80% destes “vivem em situação de pobreza” e apenas estão nesse regime laboral “porque não há mais nada”.

Sistema nacional de saúde

“Como é que vão manter o NHS gratuito?”, perguntou um homem que trabalhou toda a vida no sistema nacional de saúde britânico.

Miliband prometeu reforçar o NHS com 20 mil enfermeiros, 8 mil médicos, 5 mil auxiliares e 3 mil parteiras. De olhos virados para a câmara, explicou onde iria buscar dinheiro para financiar isto: “Impostos para as mansões que custem mais de 2 mil milhões de libras [2,73 mil milhões de euros], controlo dos fundos de investimento que fogem aos impostos e taxação da indústria tabaqueira”.

Cameron retorquiu dizendo que no seu governo foram contratados 9 mil médicos e 7 mil enfermeiros. “Os 20 mil empregos que desapareceram no serviço nacional de saúde diziam respeito a burocratas (…). Eu prefiro médicos com estetoscópios a burocratas com pranchetas.” O primeiro-ministro britânico argumentou ainda que “um serviço nacional de saúde forte precisa de uma economia forte”, em reposta ao líder trabalhista.

Nigel Farage voltou a puxar o tema para a imigração e a livre circulação de pessoas dentro da UE. Segundo o líder do UKIP, o Reino Unido gasta 2 mil milhões de libras (2,73 mil milhões de euros) com pessoas estrangeiras que vão entram em solo britânico com o único propósito de usufruírem do seu sistema de saúde público – em poucas palavras, o fenómeno é conhecido como “turismo de saúde”.
Mais à frente, declarou-se politicamente incorreto (“algumas pessoas vão ficar horrorizadas por eu dizer isto”) e avançou mais números: “Há 7 mil diagnósticos positivos de VIH. 60% [dos doentes] não são britânicos (…). A medicação retroviral custa 25 mil libras por paciente. É um facto!”. Estas declarações foram, sem surpresa, controversas. Logo após o debate, Nick Clegg classificou estas afirmações de “vis e desesperadas”. Ed Miliband preferiu dizer que foram “nojentas”.

União Europeia e imigração

Como já seria de esperar, Nigel Farage foi o candidato mais vocal. À pergunta feita por uma senhora sentada na assistência (“Sendo [o Reino Unido] parte de [UE], a imigração é inevitável. Se for eleito, como é que vai tratar esta questão?”), o líder do UKIP acabou por responder com uma palavra: “Nada!”

Algum tempo depois, aprofundou o seu ponto de vista. Para Farage, a livre circulação de pessoas “funcionava bastante bem” quando a UE era composta apenas por países como “a França, a Alemanha e a Holanda, tudo países com níveis de qualidade vida parecidos aos nossos e com sistemas de educação e de segurança social semelhantes”. O pior, para Farage, foi quando a UE “deixou entrar dez antigos países comunistas onde o salário mínimo, como por exemplo na Roménia, é um décimo do nosso”.

Nicola Sturgeon, do Partido Nacional Escocês, foi quem mais se impôs a Farage, a par da Bennet, do Partido Verde. A escocesa apelou a “um debate equilibrado”, argumentando que “os imigrantes que vêm da UE também contribuem para as nossas finanças” e que “a maioria dos imigrantes trabalham, e maioria daqueles que não o fazem são os estudantes estrangeiros”.

A questão da imigração foi aquela em que Cameron e Miliband mais se aproximaram. Ambos falaram da necessidade de “controlar a imigração” e de reduzir benefícios para trabalhadores estrangeiros. Miliband defendeu que imigrantes só tivessem direito à segurança social após dois anos de trabalho — Cameron sugere quatro, e acrescenta que seis meses sem trabalho deviam resultar em deportação.

Quanto à possibilidade de um referendo em que a permanência na UE vá a votos, apenas Farage defendeu a hipótese de forma imediata. Cameron repetiu aquilo que já tem vindo a dizer: “Vamos conseguir as mudanças que precisamos e aí levamo-las a referendo em 2017”. Miliband discordou.

Condições de vida dos mais jovens

“Se for eleito, o que é que fará para que a nossa geração se sinta otimista em relação ao futuro”, lançou uma jovem de 25 anos aos candidatos.

Ed Miliband comprometeu-se a baixar as propinas de 9 para 6 mil libras (de 12 para 8 mil euros, aproximadamente).

Nicola Sturgeon conseguiu a maior ovação da noite quando disse que “o acesso à educação por parte dos jovens devia ser sempre baseado na capacidade que estes têm para aprender e não nas possibilidades que têm para pagar”. E embora seja público que está disposta a ajudar os trabalhistas a formar uma maioria parlamentar caso estes vençam as eleições, mesmo assim Sturgeon lançou farpas a Miliband neste tema, relembrando que o seu partido criou as propinas em 1997 e aumentou-as em 2005, embora tenha sempre feito promessas em contrário. “Se Miliband for primeiro-ministro e quiser que ele mantenha as suas promessas quanto às propinas e outras políticas progressistas, então é melhor que haja suficientes deputados do PNE [que o obriguem] a manter a sua palavra.”

Foi nesta pergunta que Cameron mais vacilou, acabando por ser interrompido pelos gritos de uma mulher no público. O primeiro-ministro britânico reconheceu algumas dificuldades mas preferiu concentrar-se em aspetos positivos: “Pensem no que algumas pessoas do nosso país têm conseguido fazer. Temos enfermeiros a combater o ébola na África ocidental, temos militares corajosos em todas as partes do mundo…”. Foi aqui que a tal mulher se fez ouvir, referindo que muitos destes militares acabam a viver nas ruas quando voltam ao Reino Unido.

Para piorar o cenário a Cameron, só faltava Nick Clegg, seu parceiro de coligação nos últimos cinco anos, fazer-lhe frente. E foi isso que aconteceu, quando este acusou o primeiro-ministro e os conservadores de querem fazer “cortes com motivações ideológicas” na educação, retirando 3 mil milhões de libras — pouco mais de 4 mil milhões de euros — no orçamento para as escolas.

No debate, como nas sondagens, um empate 

Logo após o debate, as sondagens para saber quem venceu a discussão apresentaram resultados tão diversos quanto um empate a três entre Cameron, Miliband e Farage, ou uma vitória da escocesa Sturgeon, que foi especialmente aclamada no Twitter. Mas, apesar das diferenças, quando se juntam os resultados das cinco principais sondagens relâmpago deste debate, os números são os mesmos para Cameron e Miliband: 22%.

Em semelhante situação de empate estão as sondagens respeitantes às eleições de 7 de maio. O “BBC Poll Tracker”, que aglomera os resultados das sondagens mais importantes do Reino Unido e apresenta uma média entre estas, coloca os líderes trabalhista e conservador com 34% das intenções de voto.

Certo é que quem quer que saia vencedor destas eleições, terá de formar uma coligação ou chegar a um acordo de incidência parlamentar. De todos os partidos que podem ajudar a desbloquear um impasse pós-eleitoral, foi o PNE que se oferece de forma mais óbvia para esse fim: “Enquanto a Escócia se mantiver no Reino Unido, tudo faremos para trabalhar com pessoas com pensamentos próximos ao nosso”, disse Sturgeon, numa clara alusão aos trabalhistas. Depois de conseguirem 6 deputados num universo de 650 nas últimas eleições, os escoceses estão agora na calha para conquistar 43 lugares na Casa dos Comuns.

Acabaram os debates para Cameron

O processo de negociação que esteve à volta dos debates durante a campanha para estas eleições não foi pacífico. A imprensa britânica refere que o Partido Conservador fez os possíveis para evitar que David Cameron estivesse frente a frente com Ed Miliband, especialmente a sós. “Qualquer pessoa próxima de Downing Street sabe que a equipa de David Cameron quer fugir dos debates lhe prejudicaria a sua imagem, mas não tanto quanto aparecer na televisão ao lado de Ed Miliband”, escreveu Patrick Wintour, editor de política do The Guardian.

Esse esforço compensou, uma vez que o debate de quinta-feira foi o único em que o primeiro-ministro esteve frente a frente com o líder do maior partido da oposição. Mesmo aí, não estiveram a sós, obrigando a que o debate sobrasse necessariamente para os restantes candidatos.

Além disso, David Cameron, juntamente com Nick Clegg, está dispensado do próximo debate, a 16 de abril, que está reservado apenas para os cinco partidos da oposição. Por fim, a 30 de abril, Cameron voltará a ter de responder em televisão, tal como o líder dos trabalhistas e dos democratas liberais. Porém, será num formato em que cada candidato é interpelado pelo público e depois por um jornalista. Uma semana depois, o Reino Unido vai a votos.