Declarações recentes de Fernando Ulrich voltaram a mostrar sinais de incómodo perante a força do investimento chinês em Portugal. “Faz-me muita impressão que, num curto espaço de tempo, haja tanto investimento chinês”, disse o presidente do BPI. Nas declarações, proferidas na sexta-feira numa conferência do Jornal de Negócios, o banqueiro manifestou-se “chocado” por tanto investimento chinês e por Portugal “ser o porta-aviões da China para entrar na Europa”.

Sem polémica, o tema foi discutido esta terça-feira, a propósito do lançamento em mandarim do site Portugal Economy Probe, que agrega informação sobre a economia nacional, por altos responsáveis de empresas que têm dois pontos em comum: o maior acionista é chinês e a experiência tem sido muito positiva. Números não oficiais apontam para que o fluxo do investimento made in China em ativos portugueses supere os nove mil milhões de euros, valor que irá crescer se os chineses comprarem o Novo Banco para o qual terão feito as ofertas mais altas.

Para o presidente do conselho geral e de supervisão da EDP, Eduardo Catroga, o investimento chinês em Portugal deve ser analisado em função de uma nova ordem económica mundial, salientando que a “China, ao contrário da Rússia, tem aparecido como uma potência estabilizadora no contexto mundial”. O economista lembra que apesar da recente expansão, a Europa tem 18% do stock do investimento na economia chinesa, enquanto os chineses têm apenas 1% do stock de IDE (investimento direto estrangeiro) na União Europeia.

Portugal foi “pioneiro neste movimento estratégico e irreversível”, diz Catroga, lembrando que a China Three Gorges venceu em 2011 a privatização da EDP por mérito e num processo competitivo. Este investimento, sublinha, foi um marco e induziu outros investimentos importantes que permitiram ao país “ganhar o respeito da China como parceiro sério e responsável”. Portugal, realça “não podia perder este comboio porque é do seu interesse desenvolver este relacionamento”, acrescenta, elogiando a participação portuguesa no novo banco para a Ásia.

Jorge Magalhães Correia, presidente da Fidelidade, fala da experiência de convívio com o acionista chinês, a Fosun, que dura há um ano. Reconhece que as diferenças culturais existem e são marcantes: no estilo de comunicação, na avaliação das situações, nos argumentos usados, no tipo de decisão mais hierárquica ou participativa e no tipo de confiança. No entanto, acrescenta, que as diferenças são esbatidas pela forma como portugueses e chineses abordam a relação.

A agilidade na decisão e execução das decisões é enorme, realça. “Espera-se que façamos num ano, o que demorava três anos a fazer”. Mas destaca também uma enorme curiosidade e vontade de aprender.

Chineses investem a pensar no longo prazo

Luís Sáragga Leal, sócio da PLMJ, escritório de advogados que trabalha há décadas com empresas chinesas, salienta que os chineses quando decidem investir já têm o financiamento assegurado, o que contrasta com a engenharia financeira de outros investidores, referindo operações recentes protagonizadas por angolanos.

O investidor chinês também é instrumental para encontrar financiamentos. E se demoram algum tempo no processo de decisão, quando ela está tomada é rapidamente implementada. A pressão do investidor sobre as empresas, em termos de rentabilidade no curto prazo, não existe do lado chinês porque as operações têm uma componente estratégica e de longo prazo.

Segundo Sáragga Leal, o investidor chinês vê ainda Portugal como uma plataforma para entrar no mercado europeu e nos países de língua portuguesa e América Latina. Reconhece também que os chineses não fazem investimento de origem, compram empresas já maduras, mantendo as equipas de gestão. Considera por isso que são investidores que “apostam nos centros de competência nacionais”. Os negócios feitos por chineses têm um efeito multiplicador, porque são sensíveis às histórias de sucesso dos grupos chineses que já investiram em Portugal.

Rodrigo Costa recém-chegado à presidência da REN (Redes Energéticas Nacionais), salienta o papel da State Grid, empresa que detém 25% do capital, na melhoria do financiamento da empresa. Refere ainda a cooperação técnica e a relação de trabalho pragmática. “Temos muito a beneficiar das relações, mas o nosso acionista também olha para nós como um dos seus melhores exemplos de internacionalização”.

A fechar o debate, que decorreu na Fundação Oriente, o vice-primeiro ministro Paulo Portas, alinhou pelo mesmo tom. “A China é mais importante do que nunca. É um parceiro inultrapassável. E Portugal é um dos poucos países europeus com quem a China tem uma parceria estratégica”.

Paulo Portas lembra que as empresas chinesas fizeram investimentos em Portugal num momento particularmente difícil, embora ao contrário do líder do PS, António Costa, não tenha “agradecido aos investidores da China”. O governante conclui ainda que o facto das empresas chinesas terem vencido as privatizações em Portugal prova que “uma empresa não europeia pode vencer se apresentar a melhor proposta”.

E as críticas? São receios de velhos do Restelo, diz Catroga

O debate continuou já depois do debate com as perguntas dos jornalistas. Confrontado com o choque do presidente do BPI, Eduardo Catroga desvalorizou os ataques ao investimento chinês.

“Isto são receios de velhos do Restelo”, disse o presidente não executivo da EDP. “Se é excessivo ou não [o investimento chinês em Portugal], devo dizer que aparecem opiniões desse tipo, mas nem sempre ou quase sempre não [são] devidamente fundamentadas, os números não mostram isso”, reforçou.

Eduardo Catroga argumentou que o peso do investimento direto chinês em Portugal no ‘stock’ português de investimento direto estrangeiro “ainda é muito pequeno”, afirmando que os fluxos têm sido importantes e contribuído para o financiamento da economia e das empresas portuguesas.

“A participação de empresas chinesas em todos os setores é importante também como veículo para a internacionalização das empresas portuguesas, como mostra o caso da EDP [comprada pela China Three Gorges], da Fidelidade [adquirida pela Fosun] e da REN [adquirida pela State Grid]], entre outras.

Para o presidente da APB (Associação Portuguesa de Bancos), Portugal precisa de investimento direto estrangeiro para haver crescimento. Faria de Oliveira considera o exemplo do investimento chinês muito positivo. Questionado sobre a resistência à compra do Novo Banco por grupos chineses, Faria de Oliveira afirmou: “Não vejo razão nenhuma para não serem bem recebidos pelo mercado [as propostas chinesas], vamos é esperar o resultado do concurso”, lembrando que há outros competidores.