Depois de duas décadas a viver uma “profunda crise” por sucessivos cortes do orçamento e falta de funcionários, a atual presidente, Natália Correia Guedes, está a criar projetos para que se dê uma “ressurreição” da entidade nos próximos anos. “É a biblioteca especializada em História da Arte mais importante do país”, disse à agência Lusa a presidente da Academia Nacional de Belas Artes Artes (ANBA) que dirige a entidade desde novembro de 2014.

A Academia é sucessora das extintas Academia Real de Belas Artes e Academia Portuguesa de Belas Artes, e tem como missão a promoção e desenvolvimento de trabalhos de investigação e estudos na área da historiografia da arte portuguesa. A biblioteca está dividida em duas partes que totalizam cerca de 30 mil volumes: a parte histórica, que vai do século XVI ao século XIX, e a parte moderna, que vai do século XX ao século XXI.

Foi em 1836, ano da fundação da academia, instalada no Convento de São Francisco, em Lisboa, que foi constituída a biblioteca, com bens dos conventos extintos, ai depositados durante décadas, e depois dispersos por várias instituições, nomeadamente o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Ainda existe um setor com espólios desses conventos, acrescidos de doações e aquisições de outras coleções, desde fotografia, desenho, pintura e escultura.

“Esteve encerrada durante os últimos 20 anos por falta de condições para funcionar. A biblioteca histórica já está recuperada, e autorizam-se consultas a mestrandos e doutorandos, enquanto a biblioteca moderna aguarda uma definição dos espaços, eventualmente uma ampliação”, indicou a responsável.

Natália Correia Guedes disse que a eleição da nova direção, “foi sofrida”: “A Academia está em profunda crise porque só tem três funcionários, o Orçamento do Estado tem sido sucessivamente cortado, a crise geral do país também a atingiu. Contudo é preciso continuar a trabalhar para ter mais visibilidade junto do público, que muitas vezes a confunde com a Sociedade Nacional de Belas Artes”, apontou.

Em janeiro de 2016, a ANBA celebra 180 anos e conta realizar “uma exposição com algumas centenas de obras em pintura e escultura dos melhores artistas do final do século XIX e XX”, desde Carlos Reis, Dórdio Gomes, Sousa Pinto, Guilherme Santa-Rita, e na escultura Francisco Franco, Lagoa Henriques e Simões de Almeida.

“É um espólio significativo que o público ainda não conhece e vai ser exposto pela primeira vez”, reunindo peças de artistas que entraram na Academia e ofereceram uma obra que fique para memória do seu trabalho. Do acervo constam autores portugueses e estrangeiros que foram uma referência para o ensino artístico europeu, nomeadamente Vitrúvio, Alberti, Vignola, Palladio, Winckelmann e Vasari.

A biblioteca possui ainda fundos documentais provenientes da Irmandade de São Lucas, dos escultores Machado de Castro e Cirilo Volkmar Machado, e espólios doados por académicos, como os arquitetos Jorge Segurado, Fernando Batalha e José Cortez. Há livros raros do século XVI que os funcionários tratam e identificam com luvas brancas, à meia-luz, para não os danificar.

Natália Correia Guedes revelou que têm surgido alguns apoios, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, que irá patrocinar a informatização do acervo das bibliotecas. “Dentro de um ano, ou ano e meio, toda a biblioteca vai estar online”, indicou, acrescentando que o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, mostrou-se disponível para dar mais apoio à entidade.

Anteriormente dependente do extinto Ministério da Cultura, a Academia Nacional de Belas Artes passou para a tutela da Presidência do Conselho de Ministros em 2011.