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Onde está o Wally? Fomos à procura de ebooks na Feira do Livro de Lisboa

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Na viragem do milénio, previa-se que os ebooks já dominassem o mercado livreiro por esta altura. No dia em que a Feira do Livro de Lisboa começou, o Observador foi à procura de livros eletrónicos.

A Alêtheia foi a única editora que levou cartões de promoção aos ebooks. Fez uma promoção especial para esta altura, tal como a Leya

© Sara Otto Coelho

Autor
  • Sara Otto Coelho

A entrada no século XXI trouxe ao mundo o Microsoft Reader, o primeiro software capaz de ler livros eletrónicos, ou ebooks. No ano anterior, em 1999, na primeira conferência de ebooks organizada pelo National Institute of Standards and Technology, Dick Brass, da Microsoft, mostrou previsões que mostravam como os ebooks seriam o futuro da leitura. “Estamos a assistir a uma revolução que vai mudar o mundo da mesma forma que Gutenberg mudou”, disse, acrescentando que, em 2018, os livros eletrónicos representariam 90% do total de livros vendidos.

A três anos da profecia de Dick Brass se cumprir, é seguro dizer que, pelo menos em Portugal, esta revolução eletrónica ainda está longe. Longe daqueles valores e longe da maior feira do livro do país, a de Lisboa, que começou esta quinta-feira. Organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, ali se concentram quase todas as editoras nacionais. Um colecionador de “nãos” seria feliz na Feira de Lisboa, se tivesse como missão encontrar catálogos de ebooks, ou conhecer promoções.

O primeiro “não” foi ouvido pelo Observador logo à entrada junto ao Marquês de Pombal, depois de passar a zona de alfarrabistas. “Pavilhão anti-crise” é o slogan da editora Saída de Emergência, que está a apostar forte nas promoções, e que tem um grande número de títulos a cinco e a oito euros, e que na compra de dois oferece o terceiro. E ebooks? “Não temos. Só no site”, disse a funcionária.

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Todos à Feira! Menos os ebooks. © Sara Otto Coelho

Quase em frente está a Chiado Editora, que possui um vasto catálogo de ebooks. Mas só no site. “Na Feira não vamos ter nenhuma referência”, explicou o diretor comercial Filipe Costa. Ainda assim, a aposta na vertente eletrónica é forte. “Apresentámos recentemente uma importante inovação na abordagem ao mercado de ebooks ao assumir frontalmente e sem preconceitos que livro em papel e ebook são produtos diferentes, com custos diferentes, em que questões como o número de páginas ou os processos logísticos não têm o mesmo sentido como critérios para o preço de venda ao público”, disse. Todos os ebooks saídos recentemente e que vão sair de futuro custam três euros, quando não são mesmo de graça. “A cada livro comprado no nosso site, o leitor recebe gratuitamente a versão ebook. E comprando apenas o ebook, pode descontar o valor numa futura compra do livro em papel”, contou.

O terceiro “não” foi ouvido no stand da Assembleia da República, que na internet já disponibiliza algumas publicações gratuitamente, como a Constituição. Mas nada de ebooks, nem na Feira, nem em lado nenhum. “Está pensado”, disseram as duas responsáveis pelo espaço, sem quererem adiantar datas. O quarto “não” veio da Gulbenkian. Já existem oito ebooks, dos Guias de Portugal, mas na Feira preferem não promover essa funcionalidade. Nos manuais universitários até era mau para o negócio, como explicou Rui Sebastião, que estava à frente daquele espaço. É que na rede universitária são distribuídos gratuitamente. “Deixava de vender esses livros”, admitiu.

A Relógio D’Água não tem, mas no início do ano tinha anunciado que os primeiros chegariam este mês ao catálogo. O Grupo LIDEL, que tinha feito o mesmo anúncio, ainda está a estudar a melhor forma de os lançar. O grupo norte-americano Penguin Random House instalou-se em Portugal no ano passado e, no mercado internacional, trabalha muito com títulos eletrónicos. Mas ainda não chegaram cá, por isso o Observador trouxe mais um “não” como resposta.

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Dentro de cada livro vai estar um cartão como aquele que se pode ver no telemóvel, com um QR Code que direciona a pessoa para o ebook. © Sara Otto Coelho

E eis que se encontra o Wally. Ou melhor, uma aposta na venda de ebooks no recinto da Feira. A Alêtheia Editores parece remar contra a maré e vai colocar, a partir de sábado, um cartão dentro de cada livro físico com um QR Code (como se pode ver na fotografia do telemóvel, em cima). “Fazendo o scan vai-se diretamente para o ebook no site”, disse Alexandra Louro, responsável pela comunicação da editora. Mais: na página da editora haverá uma campanha em que todos os livros vão estar com o preço de feira: menos 20% nas novidades e 40% nos restantes. “Achamos que a feira não deve ser só para Lisboa”, disse. Os ebooks também vão ter desconto, mas mais reduzido. 10%. “Porque os ebooks já têm preço reduzido”.

O peso dos ebooks no universo da editora, que começou a apostar neles em 2012, ainda é residual, mas está a crescer e a tendência, acredita Alexandra Louro, irá no sentido crescente, a par do que se vê no mercado internacional. “Temos vendido muito para o estrangeiro, sobretudo Brasil, o que permite ter visibilidade”. Outra das vantagens é a de poderem disponibilizar títulos portugueses em outras línguas, sem estarem dependentes de negociar com agentes de cada país os direitos da obra, nem de esperarem que alguém aceite editar o título. “Traduzimos para inglês o Foi Assim, da Zita Seabra, e vendêmo-lo”. O mesmo para Portugal: Aqui existe espírito russo, de José Milhazes, que a Alêtheia traduziu para russo e colocou à disposição do mercado internacional. “Não é uma porta que se abre, é um portão gigante”, disse.

Um dos fatores que pode estar a atrasar o crescimento dos livros eletrónicos é o preço. “São muito caros. Mais do que lá fora. Os nossos [Alêtheia] estão sempre a metade do preço, a diferença não é tão grande”, mas nem todas as editoras chegam a esta redução, disse a responsável.

Preços altos: Provavelmente a maior barreira ao crescimento

O Grupo Porto Editora é o único que tem uma chancela dedicada exclusivamente aos livros eletrónicos, a Coolbooks, criada em 2014 e que disponibiliza obras em português. Mas quem passar no espaço onde se encontram todas as chancelas detidas pelo grupo não vai encontrar referências a ebooks. “Não faz sentido”, disse Paulo Rebelo Gonçalves, responsável pela comunicação da empresa. Mas, no ano passado, o grupo preparou uma ação específica, que consistia na oferta de vales para que as pessoas pudessem ir descarregar o catálogo no site. Não correu bem.

“As pessoas vêm à Feira para manusear o livro. Para sentir o papel. É muito físico, não é para os ebooks”, explicou, acrescentando que há melhores formas de promover este produto. Para além da Coolbooks, a Porto Editora tem o catálogo normal de títulos que transitaram do papel para o digital, e que estão à venda na Wook, a maior livraria virtual de Portugal, também detida pelo grupo. Paulo Rebelo Gonçalves também admite que o peso dos ebooks é ínfimo na faturação. “1%, se tanto. A evolução nas vendas não existe”, desde que se lançaram neste mercado. E concorda que o preço é “provavelmente uma das grandes barreiras atuais para o crescimento da sua utilização”.

O Grupo LIDEL fez uma prospeção de mercado na livraria situada no Saldanha, em Lisboa, para saber se o cliente compraria o livro em ebook. “Todos diziam que sim, mas só se fosse muito mais barato. O ebook não tem custos de papel, nem de armazenamento, mas aderir a plataformas seguras tem custos”, disse Anabela Parente, técnica comercial que conduziu o inquérito.

De acordo com a União Europeia, os ebooks devem estar sujeitos à taxa máxima do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) porque são um serviço, o que no caso de Portugal representa 23%. Bem mais do que os 6% aplicados aos livros impressos. “O IVA nos ebooks de 23% é ridículo. São livros. A França foi multada recentemente por não seguir essa diretiva”, sublinhou Alexandra Louro. Por causa do imposto mais alto, o responsável pela comunicação da editora fundada há 71 anos no Porto afirma que não dá para descer mais do que 30% o preço nos ebooks face aos irmãos em papel.

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O grupo Leya não faz referência a ebooks, mas se o cliente perguntar pode comprar no posto online. © Sara Otto Coelho

O outro gigante do mercado português, o Grupo Leya, também tira 30% aos ebooks, também entrou no negócio em 2012 e também não faz qualquer referência aos títulos eletrónicos na Feira do Livro. Mas não ficou esquecido. “Temos uma app para iOS que tem uma campanha para a Feira do Livro, em que os ebooks dos livros em destaque na feira estão com a mesma percentagem de desconto”. O discurso de Pedro Sobral, gestor de marketing da empresa, é mais otimista. “Neste momento o ebook tem crescimento na ordem dos três dígitos. No primeiro quadrimestre de 2015 face ao período homólogo houve 111% de crescimento”, adiantou. Vendem mais ebooks para o estrangeiro do que físicos, até porque o livro físico exportado tem um custo muito maior. “O ebook neste momento já tem um peso muito grande em vendas exteriores. Até 2014 tivémos mais de 180 mil downloads na Leya”, e 2015 continua a mostrar uma tendência de crescimento. “Ainda que já não esteja na ordem dos 200% e 300% como antes”. Mas se a questão é se um dia o livro digital vai ter maior peso que o papel, ficam dúvidas. “As pessoas gostam do livro pelo cheiro, pelo tato… É um objeto”.

“Acho que já se começa a perceber que o ebook não vai substituir o papel”

No stand da Feira, a Esfera dos Livros não tem qualquer referência à vertente digital. Só vendem através da Amazon, mas o negócio é “baixinho”, disse Rui Godinho, responsável comercial da editora. A Gradiva também não recorre ao evento para publicitar os ebooks e o peso da faturação face ao papel é igualmente “inexpressivo”, disse Helena Rafael, do gabinete de comunicação. “No entanto, acreditamos que é uma linha que devemos desenvolver. Entrámos há dois anos”. Até ao momento, a Gradiva tem sete ebooks publicados, mas no próximo mês vão publicar mais cinco.

“As razões pelas quais as pessoas não consomem mais ebooks têm de ser estudadas de forma mais profunda. O que percebemos da relação com os leitores, e contrariamente às opiniões de quando os ebooks começaram a aparecer de que o livro físico ia desaparecer, não estamos a assistir a isso”, comentou. “Talvez ainda não seja um meio disseminado, o dos e-readers. Falta mercado. O que nos preocupa é que não se leiam livros suficientes tanto num formato como noutro”.

A Editorial Presença não está a promover na Feira os cerca de 200 ebooks que possui em catálogo. A Guerra e Paz ainda não entrou no negócio. “Os dados que temos são os de que este mercado é, ainda, residual e portanto só quando adquirir uma maior relevância é que, eventualmente, avançaremos”, respondeu a administração. “Não há também uma plataforma, com as características da Amazon, por exemplo, que potencie a comercialização. É preciso um forte salto quantitativo, o que significa também investimento, para que valha a pena. O leitor português é, como o leitor europeu em geral, muito tradicional e prefere o papel aos gadgets eletrónicos para leitura de livros”.

Para Pedro Sobral, da Leya, o ebook neste momento em Portugal “é uma experimentação”. 2012 foi o ano de arranque para várias editoras porque foi poucos meses antes que nasceu o iBookstore especificamente para o mercado português. Depois apareceu o Google Play. “Se olharmos para os mercados mais maduros, esses retalhistas tiveram presença muito mais cedo. E a estrutura de crescimento cá é parecida”. Mas, olhando para o mercado norte-americano, que cresceu muito desde 2007, Paulo Rebelo Gonçalves acredita que se atingiu o pico. “Acho que já se começa a perceber que o ebook não vai substituir o papel”, afirmou. Haverá espaço para os dois, cada um a servir as necessidades e os gostos de determinado público. Pelo menos por agora, a Feira do Livro de Lisboa é território do papel.

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