Literatura

Cinco anos após a morte, ainda há Saramago por descobrir

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No dia em que passam cinco anos sobre a morte do Nobel da Literatura, publicam-se notas inéditas sobre "Ensaio sobre a Lucidez". E Pilar del Río descobriu uma peça de teatro. Achava que conhecia tudo?

José Saramago morreu a 18 de junho de 2010, em Lanzarote, onde vivia com Pilar del Río

Andre Kosters/LUSA

Pilar del Río mata o mistério. “Não há mais romances inéditos” de José Saramago, disse em entrevista ao Observador, na véspera de se completarem cinco anos desde a morte do Nobel português da Literatura. O que não quer dizer que não existam textos ainda guardados à espera de serem lidos pela primeira vez por olhos curiosos. Esta quinta-feira, a Fundação José Saramago publica um número especial da revista Blimunda, dedicado à memória do escritor que morreu na ilha espanhola de Lanzarote, a 18 de junho de 2010, com notas inéditas que mostram como nasceu Ensaio sobre a Lucidez.

O Observador cita algumas passagens e aproveita para rever os livros e os textos póstumos do autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

claraboia-saramago

É a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser”. José Saramago

Saramago escreveu Claraboia em 1953, mas a obra só pôde ser lida em 2011, um ano depois da morte do autor. A justificação para a diferença temporal está contada na edição espanhola do livro, mas não na portuguesa. Foi o segundo romance que criou e, na época, enviou-o para a Editorial Notícias. O futuro Prémio Nobel só recebeu uma resposta nos anos 1990, quando era já um autor conceituado. Foi a vez de Saramago recusar. “Porque não se publicou antes? Porque a cada ano tinha um romance novo e a publicação de Claraboia seria uma intromissão porque não tinha o estilo Saramago”, explica Pilar del Río, viúva de Saramago e presidente da Fundação dedicada ao escritor.

Pilar leu o romance pela primeira vez “meio minuto depois” de Saramago lho ter dado para a mão, assim que o autor foi buscar a cópia à Editorial Notícias. Pensou imediatamente em fazer mais cópias, uma delas para entregar ao editor do escritor em Portugal, Zeferino Coelho, da Caminho. Ambos adoraram. Saramago permitiu as cópias, mas deixou orientações claras: “Enquanto for vivo não a quero ver publicada”, recorda a presidente da Fundação José Saramago, que reconhece que ambos sabiam que o texto haveria de ver a luz do dia. “Era um romance ótimo!”, diz. A Caminho editou Claraboia em outubro de 2011, um ano e quatro meses após a morte do Nobel da Literatura. Um dia, Zeferino Coelho chegou com o livro na mão e surpreendeu a viúva de Saramago. “Foi fantástico porque ele antecipou-se a possíveis medos da minha parte”, conta.

Para a mulher que quis conhecer o escritor José Saramago em 1986, depois de se ter apaixonado pelos seus livros, o universo que está naquele livro escrito em 1953 é o mesmo do que seria no futuro. No fundo, foi uma antecipação. “Está lá Fernando Pessoa, a literatura clássica, a música, as preocupações sociais, a utopia. Em Claraboia está tudo”, afirma. Menos o estilo Saramago. “E o autor é também o seu estilo”, acrescenta.

Alabardas_JoseSaramago

Seguiu-se Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, o segundo romance publicado postumamente, ainda que inacabado. De título inspirado em versos de Gil Vicente, tem como protagonista Artur Paz Semedo, o funcionário de uma fábrica de armas que vive um conflito moral decorrente de seu trabalho. Saiu em 2014, com três capítulos, acompanhados pelas anotações que o autor sempre fazia quando escrevia um romance, mas que por norma ficavam escondidas dos olhos dos leitores.

Questionada sobre se teve dúvidas em relação à publicação de Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, a herdeira do escritor não hesita: “Não. Como vou ter dúvidas? Há três capítulos de Saramago e os leitores de Saramago não têm direito a conhecê-los? Por amor de deus, fico com eles só para mim? Deito-os fora? Há que publicá-los, evidentemente! Não há a menor dúvida. E quem as tem não sabe rigorosamente nada sobre o mundo da literatura”.

Era o único livro que Saramago estava a escrever antes de morrer. E é neste momento que Pilar trata de desfazer quaisquer esperanças em relação a possíveis manuscritos perdidos lá por casa. “Quando ele começava a escrever, publicava. Não é a arca de Fernando Pessoa, não há mais romances inéditos”, esclarece. Podia ter ideias que não chegava a concluir, como aconteceu com um livro policial encomendado pela editora brasileira Companhia das Letras. Teve de o abandonar imediatamente assim que imaginou Ensaio Sobre a Lucidez. A justificação para esse corte está, ela mesma, num texto inédito que vai ser publicado esta quinta-feira, no número 37 da revista mensal Blimunda, disponível para download gratuito na página da Fundação.

4 de Fevereiro de 2003 – Na noite de 30 para 31 de janeiro acordei às 3 horas com o pensamento súbito de que o assunto para um novo romance, de que mais ou menos conscientemente andava à procura, afinal já o tinha. Era aquela “revolução branca” de que falei em Madrid e Barcelona na apresentação do Homem Duplicado, o voto em branco como única forma eficaz de protesto contra o abençoado sistema “democrático” que nos governa. Como se isto não fosse já suficiente, tive também a repentina, a instantânea certeza de que tal livro, no caso de vir a existir, teria de levar o título de Ensaio sobre a Lucidez (…)”. José Saramago

notas saramago

A descrição sobre o processo criativo do romance Ensaio Sobre a Lucidez, que seria publicado em 2004, é o texto inédito que vai sair agora na Blimunda. No ano passado, as notas feitas para Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas foram publicadas junto com o livro, como forma de ajudar o leitor a perceber a história nos três capítulos disponíveis. Pilar del Río tinha-as no computador. Tem mais, que poderá divulgar no futuro. Entre as notas que Saramago tirou para Ensaio sobre a Lucidez está a ideia transmitida por Pilar, sobre a tomada de uma ideia e a concretização do romance, sem interrupções.

17 de março de 2003 – Tomei uma decisão que espero poder manter: desistir por agora do Mistério do Dente Perdido e lançar-me ao Ensaio sobre a Lucidez. Será um choque para a Companhia das Letras, mas eu não posso ficar à espera não sei quantos meses para me ver livre dessa obrigação mais do que aborrecida”. José Saramago

oculos-livro-saramago

O caderno original agora encontrado, segurado por Pilar del Río

Pilar del Río anunciou esta quarta-feira a descoberta de “O Fim da Paciência”, um texto de teatro escrito por José Saramago e Costa Ferreira, no final dos anos 1970. “Está aqui Saramago”, disse a viúva do escritor, referindo-se às ideias e aos apontamentos ali contidos. Há muito tempo que Pilar o tinha no gabinete que ocupa na Fundação. Olhava para a lombada todos os dias, mas, por estar ao lado do texto “Depois da Noite o Quê?, de Jaime Rocha, pensava tratar-se do caderno de “A Noite”, a primeira obra dramática do catálogo saramaguiano. “Outro dia, à procura de outra coisa, é que reparei: ‘Mas isto não é A Noite!'”, recorda Pilar.

“O Fim da Paciência” nunca chegou a ser apresentado nos palcos. “É uma adaptação de um conto publicado no livro Objecto Quase [1978]”, explica. Mais do que levar o texto aos palcos, o destino deverá ser a publicação, não se sabe ainda se pela Porto Editora, se pela Alfaguara.

Quem olhar para a bibliografia do Nobel português vai reparar num livro infantojuvenil publicado em 2011. Apesar da data, O Silêncio da Água não é um inédito, explica Pilar del Río. São textos extraídos do livro As Pequenas Memórias, de 2006, onde Saramago escreve sobre as recordações da sua infância e adolescência.

Em 2013 foram publicados dois ensaios. O primeiro, A Estátua e a Pedra, existe na sequência de uma conferência que José Saramago deu em Turim, em 1997, onde falou sobre a sua obra. Mas já tinha sido publicado antes, em Itália. Em 2013 saiu em português, pelo que não se trata de um inédito. O segundo, Democracia e Universidade, também já tinha saído antes noutro país, Espanha. Mais uma vez, apesar de a data de edição ser posterior à morte do autor, não se trata de um texto inédito.

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