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Wimbledon

Djokovic volta a ser dono da relva que comeu

É o oitavo tenista a fazê-lo: Novak Djokovic revalidou o título em Wimbledon e conquistou o torneio pela 3.ª vez. O sérvio bateu em quatro sets Roger Federer, que não vence um Grand Slam há três anos.

Novak Djokovic conquistou o torneio de Wimbledon pela terceira vez na carreira e, aos 28 anos, já está com nove torneios de Grand Slam no armário

Clive Brunskill/Getty Images

Come on!”. O gritou, mais do que bem audível, foi estranho. Não é usual ouvir isto da boca de quem quase nunca desfaz a cara séria, fechada, colada à concentração. Foi um “come on!” curto, até algo tímido, mas sentido, solto pouco depois de a bola batida pela esquerda a duas mãos de Novak Djokovic não ter dinheiro para pagar a portagem na rede. O suíço disparava uma reação porque, de repente, ficava com um ponto de break que lhe podia dar o primeiro set. Só não deu pois, do outro lado do campo, estava o sérvio que, se fosse um osso, era o mais duro de roer do ténis. Tanto o foi que, cada vez que o público gastava a voz com berros de apoio a Federer e de rejubilo por cada ponto que o suíço fizesse com estilo, o sérvio parecia crescer. E só parou de se agigantar quando pode gritar para o ar após ganhar o último ponto da final e a fechar em 7-6, 6-7, 6-4 e 6-3.

No arranque, Roger Federer pareceu mais calmo, a sacar pancadas que encostavam a bola às linhas, a subir à rede nos momentos certeiros, a ir buscar ases quando precisava deles. Demorou 17 minutos a quebrar o serviço a Djokovic, para depois Novak, que parecia estar a ceder, acordar e, logo a seguir, impor um break ao suíço — apenas o segundo que o tenista de 33 anos sofria neste torneio. Esta lengalenga durou e só no tiebreak é que um deles foi bem melhor do que o outro. Esse alguém foi Novak Djokovic, que só deixou Federer ganhar um ponto para fechar o primeiro set em 7-6.

Isto não era, de todo, um costume. Nas 39 vezes em que estes dois já tinham coincidido num court, o suíço vencera 20 jogos e o sérvio 19. No ano passado, também na relva de Wimbledon, Djokovic precisou de cinco sets para ganhar às raquetadas a Federer. Aí conquistou o seu segundo Grand Slam inglês e não deixou que o helvético que anda sempre de fita na cabeça ganhasse o seu oitavo. Nesta final era mais ou menos isso que se voltava a passar.

E no segundo set a relação entre os tenistas foi algo como “se tu me fazes isto, vou-te fazer igual”. De novo tudo se decidiu num tiebreak, depois de Djokovic, no 5-4, não aproveitar uma dupla falta de Federer para fechar o set. Não houve quebras de serviço. Às tantas, Novak bate palmas a Roger quando o vê a subir rede e a inventar um amorti em vólei para a anular um ponto de set. Depois, é o suíço quem aplaude no 5-5, quando o sérvio saca um ás num segundo serviço. Palmas à parte, o tiebreak só acabaria num 12-10 a favor do mais velhos em campo, após o mais novo desperdiçar sete pontos para fechar o set.

Ao terceiro parcial da final, e como o torneio previa, a chuva apareceu para dizer olá quando Djokovic vencia por 3-2, já com uma quebra ao serviço de Federer no bolso. As pingas caíram durante uns 20 minutos e a organização decidiu não fechar a pestana — leia-se, o teto amovível — do estádio do All England Club, em Londres. Portanto, se o diabo as tecesse e a chuva voltasse, haveria nova paragem. Enquanto ela não aparecia, Djokovic aproveitou o break de vantagem, foi-se mantendo a jogar no fundo do court, aguentava por lá as trocas de bola e obrigava Federer a arriscar pancadas difíceis para o tentar desposicionar no campo. Não lhe corria bem e Novak fechava o terceiro set por 6-4.

O público continuava a puxar, mais do que nunca, pelo seu preferido: Roger Federer. Cada ponto que o suíço fazia com subida à rede ou com uma daquelas esquerdas cruzadas, com estilo, o barulho rebentava. Mas, com mais de duas horas a jogar ténis, os quase 34 anos do homem que já tem 17 títulos do Grand Slam em casa começaram a notar-se. O suíço já não corria tanto, parecia estar cansado e já não conseguia trocar mais de 10 pancadas num ponto. O sérvio, que muito corre por todo o lado, crescia. Djokovic quebrou o serviço a Federer no quarto set para fazer o 3-2 e confirmava uma coisa — a paragem que a chuva causara não caíra nada bem a Federer.

As respostas de Novak Djokovic ao serviço saíam como nunca. Roger encolhia e de nada valia o apoio vindo das bancadas, que às tantas começou a irritar o sérvio. As pancadas de fundo do court saiam-lhe com mais força e os dois últimos jogos do encontro foram rápidos. Até ao final, Federer mal conseguiu fazer com que o número um do ranking parecesse desconfortável no court. O 6-4 foi uma questão de tempo e após bater a última direita cruzada, Djokovic ergueu os punhos no ar, à boleia de um grito de revolta — Wimbledon, quer o público quisesse, ou não, era dele pela terceira vez.

O sérvio sentiu, e muito, o momento. Ergueu o dedo indicador direito para o céu e dedicou a vitória a alguém, antes de se colocar de cócoras e, com a palma da mão, tocar na relva, como quem sente a respiração num peito. Djokovic parecia, ao seu jeito, estar a agradecer ao court. Depois, ainda se ajoelhou, colheu uma pitada de relva, levou-a à boca e comeu-a. Levou um pedaço de Wimbledon com ele, além da terceira taça que levantou, como já o tinha feito em 2011 e 2014. E também como Boris Becker, o seu treinador, o fez quando ainda era jogador. “Vamos tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Levou algum tempo para nos entendermos, ele é alemão e eu sou sérvio”, brincou, no final, Novak, já com o caneco nos braços. O treinador já não se pode rir quando a conversa for sobre Wimbledon.

Para o suíço, esta foi a terceira final perdida — já não vence um Grand Slam, aliás, desde que conquistou o toneio de Wimbledon em 2012. “Jogou muito bem hoje, como o fez nas duas últimas semanas, neste ano, no ano passado e no ano antes desse”, confessou, após o encontro. E Djokovic também teve de falar sobre o pedaço de relva comida: “Este ano soube muito bem, não sei o que os tratadores fizeram, mas estava muito boa. É uma tradição, desde criança que sonhava ganhar este torneio, e tentamos sempre inventar algo especial para fazermos quando o conseguirmos.” Mas cuidado, Novak, porque Roger Federer bem avisou que continua “com fome”.

Serbia's Novak Djokovic celebrates beating Switzerland's Roger Federer by eating a blade of grass after their men's singles final match on Centre Court on day thirteen of the 2015 Wimbledon Championships at The All England Tennis Club in Wimbledon, southwest London, on July 12, 2015. Djokovic won the match 7-6, 6-7, 6-4, 6-3. RESTRICTED TO EDITORIAL USE  --  AFP PHOTO / ADRIAN DENNIS        (Photo credit should read ADRIAN DENNIS/AFP/Getty Images)

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