“‘O PS vai apoiar o Tomané?'”. A pergunta tem acompanhado a corrida de Sampaio da Nóvoa a Belém. Esta quarta-feira, na apresentação da comissão da candidatura do antigo reitor, Miguel Alves, socialista, presidente da Câmara de Caminha e membro desta comissão, não fugiu ao tabu e recordou uma conversa com os ex-companheiros de carteira de Tomané, “o menino de pernas tortas, mas de remate certeiro”. “Apoiar António Sampaio da Nóvoa não é só um ato natural, como um ato de inteligência e patriotismo. [O] PS que eu conheço vai apoiar o Tomané”, respondeu Miguel Alves. Será mesmo assim?

Numa altura em que uma eventual candidatura de Maria de Belém ameaça ganhar força no Largo do Rato, o PS prepara-se para cerrar fileiras em torno da candidatura de Nóvoa. Entre os apoiantes do ex-reitor não faltam socialistas, como os antigos ministros Correia de Campos, Mário Lino, Ana Jorge, Gabriela Canavilhas, João Cravinho, Elisa Ferreira, Augusto Santos Silva e António Mendonça, por exemplo, além dos antigos chefes de Estado, Mário Soares e Jorge Sampaio – assim como Ramalho Eanes. Mas da direção do PS, ninguém – os socialistas ainda não se comprometem com Nóvoa. Só depois de fechadas as listas a deputados.

No Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, o antigo reitor voltou a afastar a colagem ao PS e sublinhou, “para que não haja dúvidas”, que a sua candidatura “é independente, na sua raiz, na sua organização, na sua dinâmica”, “feita de baixo para cima” e “não depende dos partidos”. Essa foi, de resto, uma mensagem muito repetida ao longo do discurso de Nóvoa, que se propõe a promover um “novo tipo de presidência”, com a “marca da liberdade e da independência” e “suprapartidária”.

“Se em 1986 se verificou a transição de um presidente militar para presidentes civis, durante 2016 podemos assistir à transição de presidentes oriundos da vida partidária para um Presidente que vem da sociedade civil não-partidária. É uma evolução natural e sem contradições (…) [E] porque é que este novo tipo de presidência pode ser útil no atual momento histórico? Por uma razão simples: não tendo origem na vida partidária, disponho de maior liberdade para dialogar com todas as forças sociais e políticas e para, com elas, celebrar compromissos de futuro para Portugal”, explicou o antigo reitor.

Antes de Sampaio da Nóvoa, já Ramalho Eanes tinha definido o tom: o antigo reitor é um homem “descomprometido” com as “elites político-partidárias” e com os “lobbies’ que têm desestruturado o Estado”. O homem que quer suceder a Cavaco Silva seguiu-lhe os passos e garantiu que esta é uma candidatura “que não se esconde” nem “se enreda em calculismos e oportunismos”, criticando aqueles que “desvalorizam as presidenciais, transformando-as numa mera segunda volta das legislativas”.

Ao mesmo que tempo que disparava contra aqueles que querem usar as presidenciais “para disputas entre os partidos ou dentro deles”, Nóvoa deixava claro: a sua candidatura é independente, “ainda que agradeça e deseje o apoio de todos – partidos, grupos, movimentos, pessoas – de todos os que se reconheçam na Carta de Princípios”.

Já no final, confrontado pelos jornalistas sobre a (aparente) indecisão do PS em relação à sua candidatura, Sampaio da Nóvoa acabou por desvalorizar: “O tempo dos candidatos é completamente diferente dos tempos dos partidos”. Mas, e a hipótese Maria de Belém? “Todos os candidatos que se apresentem são bem-vindos e engrandecem a nossa democracia”. No entanto, com ou sem o futuro apoio do PS, o ex-reitor da Universidade de Lisboa deixou a garantia: “[A minha candidatura] não será alterada em função de nenhum apoio de partidos ou de pessoas”.

Os quatro pilares de Nóvoa

Ao longo do discurso de apresentação da sua comissão de candidatura, Sampaio da Nóvoa definiu quatro pilares de atuação, que o vão orientar caso seja eleito Presidente da República. Primeiro, a Europa, onde é preciso unir esforços e deixar de “assistir, em silêncio,” ao “regresso aos tempos de cólera, como se todos fôssemos rivais e até inimigos”. Para Nóvoa, a Europa, que antes era uma “’casa comum’”, transformou-se num “campo de batalha”.

“Não há apenas um problema grego, ou português, ou finlandês, ou francês, ou inglês, ou alemão. Há, sobretudo, um problema europeu. Temos de o reconhecer e de o enfrentar, sem medo”, defendeu Nóvoa.

O candidato presidencial defende, também, que os vários atores políticos procurem, em conjunto, “soluções realistas e viáveis” para o problema da dívida pública, mas também da dívida privada, que continua a afetar “a vida de milhares e milhares de pessoas e de pequenas e médias empresas”.

Na mesma linha, Nóvoa elege como prioridade a construção de uma “estratégia de futuro” que ajude a “traçar as grandes linhas do nosso modelo de desenvolvimento”, com uma aposta séria no compromisso “entre [as] forças partidárias e sociais”. “Compromissos que liguem o conhecimento à economia e à sociedade, que promovam o ‘crescimento verde’ e sustentável” acrescentou.

Por último, o ex-reitor disse ainda estar comprometido em construir consensos “nacionais em torno do combate às desigualdades, ao desemprego, à desertificação e ao despovoamento das zonas rurais”. “Ninguém pode ser Presidente se não estiver disposto a travar uma batalha diária contra as injustiças sociais. É isso que farei, sem descanso, pois essa tem de ser a causa maior de um Presidente da República, a causa que ilumina todas as outras”, disse.

Mas para chegar a Belém, Nóvoa precisa de convencer os portugueses de que é o homem certo para suceder a Cavaco. E, citando o poeta José Gomes Ferreira, o ex-reitor pediu: “Acordai”- “acordai raios e tufões que dormis no ar e nas multidões. Vinde incendiar de astros e canções as pedras do mar, o mundo e os corações”. A alternativa é “votar nos mesmos, nos mesmos de sempre, com mais vírgula ou menos vírgula”, disse.