“Os europeus não amam a Europa”, “Tsipras é um homem que perdeu as suas referências” e “o Estado grego não existe” são algumas das frases proferidas por Jean-Claude Juncker na sua mais recente entrevista ao jornal belga Le Soir. Para além de ter dito que foram países como Irlanda, Espanha e Portugal que rejeitaram discutir a dívida grega antes de outubro, ou seja, antes das eleições que vão ocorrer nestes países, o presidente da Comissão Europeia deu a sua versão sobre as negociações, fez as suas considerações sobre Tsipras e revelou ainda um vislumbre sobre o futuro da Europa.

Usando um tom pouco habitual para quem ocupa um lugar de topo em Bruxelas, Juncker, que acabou por desempenhar um papel secundário nas negociações, onde o protagonismo foi do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, quis reivindicar agora mais protagonismo e falou com o jornal belga, naquela que foi a sua primeira entrevista após o acordo para o terceiro resgate da Grécia. Fique a conhecer algumas das principais frases do sucessor de Durão Barroso.

Negociações com a Grécia

O luxemburguês disparou em praticamente todas as direções, dizendo que durante as negociações houve “um sentimento anti-grego”, afirmando que este foi expresso não só pela Alemanha, mas também por outros países como a Eslováquia ou a Lituânia, argumentando que, enquanto os primeiros-ministros dos 19 procuram justificação para dar aos seus eleitorados sobre um novo acordo – eleitorados perante os quais têm compromissos e mandatos limitados -, cai-se numa lógica “irracional”. O presidente da Comissão diz que foi surpreendido pelas declarações do FMI, que antes do referendo convocado pelo governo do Syriza disse que a dívida da Grécia não era sustentável, mas admitiu que “não se pode censurar” o FMI. Juncker disse ainda que, afinal, a ideia do fundo de privatizações é dele, mas não se importa que as suas propostas “se tornem nas ideias dos outros”.

“Notei, nalguns países da zona euro, e mesmo fora dela, que há um sentimento anti-grego que se explica por motivos unicamente nacionais e de política interna, que olha apenas para a questão económica. Eles ignoram os aspetos sociais da solução da crise. Há uma ferocidade nos debates internos de vários países, não só na Alemanha, mas também na Eslováquia, Eslovénia, Malta, Estónia, Lituânia e Letónia”

“[Quando era presidente do Eurogrupo] Dizia a mim próprio que era importante existir alguém na Europa em quem os gregos pudessem confiar. De outra forma, os gregos vão ficar com a impressão de que a Europa é uma invenção e que se transformou numa máquina anti-grega. Ainda hoje tenho o cuidado de falar sobre a Grécia com ternura, ao ponto de, quando volto a ler aquilo que digo, achar que é ridículo”

Sobre a relação com Tsipras

O presidente da Comissão Europeia diz que o primeiro-ministro grego é simpático e merece ser tratado com todo o respeito, já que foi eleito pelos gregos. Juncker disse ainda que Tsipras teve de abandonar a sua ideologia ou “seria o fim da Grécia”, especialmente quando lhe explicou o plano humanitário que estava a ser preparado para o país, caso se verificasse a saída do euro.

“Acho que Alexis Tsipras é simpático e acolhi-o, mais do que com boa educação, com muita amizade. Alguns ficaram incomodados com o entusiasmo com a maneira como construí esta nova relação. Ele é o primeiro-ministro grego, foi eleito, deve ser respeitado. Eu passei mais de 30 horas frente a frente com ele, sem contar com os telefonemas, e nunca quis que ele perdesse a face, porque esse não é o método de negociação usado na Europa”

“Tsipras perdeu as suas referências, porque, de repente, ele compreendeu que se levasse as suas ideias até ao fim, seria o fim para a Grécia. Eu expliquei-lhe em detalhe o programa de ajuda humanitária que iríamos pôr em prática no dia a seguir à saída da Grécia do euro”

A Grécia, os gregos e o Estado (ou a falta dele)

O presidente da Comissão, que apelou aos gregos para votarem sim no referendo no final de junho, disse que o Estado grego “não existe”.

“Uma nação é a vontade de viver em conjunto. Essa vontade existe na Grécia. Mas o Estado grego não dá corpo a essa vontade nacional: a nação grega existe, mas o Estado grego não existe. Os gregos tornaram-se vítimas de erros eleitorais que perduraram por décadas, porque elegeram sempre os mesmos. Eu fiquei surpreendido, quando tive de ser eu, um conservador fanático, a dizer ao novo Governo grego que era preciso impor cortes aos armadores e à parte mais rica da sociedade grega”

O que o senhor Europa acha da Europa

Juncker diz que o projeto europeu continua “um pouco por sorte” e que é atualmente um “projeto de elites”. O único país com postura de fundador, para o presidente da Comissão, é a Irlanda, um país que diz admirar – mas que noutra altura da entrevista acusou de prejudicar as negociações por cálculos eleitorais. Defende ainda que os restantes Estados-membros não compreenderam “a grandeza da mensagem” e que os próprios fundadores “mudaram a sua atitude”. Sobre o novo projeto de François Hollande, que inclui um Governo para a zona euro e um parlamento, o presidente da Comissão diz que, quando pediu contributos para o relatório dos cinco presidentes, conhecido em junho, ao eixo franco-alemão, as propostas que daí vieram eram muito diferentes – ou seja, deu a entender que Hollande esteve sempre a mudar de opinião.

“Os europeus não amam a Europa […]. A construção europeia, que nasceu da vontade dos povos, tornou-se um projeto de elites, o que explica o fosso entre as opiniões públicas e a ação europeia”