O comediante e líder do Movimento Cinco Estrelas, Beppe Grillo, parece estar disposto a cavalgar o crescente descontentamento dos italianos com a Europa. Num texto publicado no seu blogue, Grillo defendeu o regresso de Itália à “soberania monetária” e a saída da “camisa de força antidemocrática” em que se transformou o Euro.

Com um discurso inflamado, Grillo disparou contra Bruxelas, contra Tsipras, mas, e sobretudo, contra a Alemanha de Merkel e Wolfgang Schäuble. “Seria difícil ter feito pior do que o que Tsipras fez na defesa dos interesses do povo grego. A recusa em sair do euro foi a sua sentença de morte”, escreveu, antes de se voltar para Berlim: “[Tsipras] estava convencido que conseguiria quebrar o casamento entre o euro e a [política] de austeridade, mas acabou por entregar em mãos o seu país à Alemanha, como um vassalo”.

Uma Alemanha que, acusa, encarou e continua a encarar os países periféricos na Europa com um espírito de “nazismo explícito” que atravessa todas as negociações. E Grillo não esquece o papel desempenhado pelo ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble – ou “Adolf”, como o chega a rotular.

Por isso, e para evitar que a Itália tenha o mesmo destino que a Grécia, Grillo defende uma negociação feroz, usando como trunfo o peso da dívida pública italiana. “[A dívida] é uma vantagem que nos permite estar sempre ao ataque em qualquer futura negociação. Não deve ser um papão que nos obrigue a comer qualquer exigência dos nossos credores”. Por outras palavras, Grillo quer usar a bomba nuclear que é a dívida pública italiana contra a Zona Euro.

Como recorda o Financial Times, e de acordo com as últimas sondagens, se as eleições fossem hoje o Movimento Cinco Estrelas conseguiria 25% dos votos. Mais: o partido populista tem vindo a reduzir a diferença para o partido socialista de Matteo Renzi, atual primeiro-ministro. O discurso de Grillo, que nos últimos tempos tem feito questão de se distanciar das políticas de austeridade mas também da linha de atuação do Syriza, parece estar a dar resultados em Itália.