Qual é o melhor sítio para se estar num dia de calor sufocante em Paredes de Coura? Junto ao rio, claro. Eram milhares os jovens que ocupavam todas as sombras e metros cúbicos de água, os barcos de borracha batiam uns nos outros como carrinhos de choque, sem notícia de acidentes ou feridos. Deitados na relva a dormir, a ler, a conversar, boa disposição e (ainda) poucos excessos, que o dia ia ser longo e o cartaz prometia agitação.

A juntar à música, uma enchente como não há memória na vila: pela primeira vez, o Vodafone Paredes de Coura esgotou os bilhetes dos quatro dias, a confirmação foi dada esta quinta-feira. São 25 mil festivaleiros na praia fluvial do Taboão e até António Costa, o líder do PS, aqui apareceu. Paredes de Coura entrou no mapa dos importantes, ponto.

Este segundo dia foi o primeiro a esgotar, pouco depois dos passes gerais, e o argumento era de peso. Os australianos Tame Impala voltaram a cruzar o mundo para aterrar nesta ponta da Europa, desta vez para dar início à digressão mundial de “Currents”, o terceiro e novo álbum, uma viragem do rock para a pop psicadélica que muitos adoram e outros tantos detestam. Considerando este cenário de quase rotura, agradar a gregos e troianos é quase impossível mas a banda de Kevin Parker deu conta do recado, na medida em que não se limitou a desfilar os singles orelhudos do novo disco, andou também pelos caminhos do rock psicadélico que os colocou nas bocas do mundo.

Azar e sorte, num outro aspecto. Por um lado porque foi este um dos primeiros espetáculos da nova digressão e por isso a “afinação” ainda não está toda feita — não que se tenha notado por aí além, ao longo dos anos os Tame Impala já fizeram muita estrada — e por outro fomos dos primeiros a assistir ao novo alinhamento, que é feito por uma banda instrumentalmente competente, tem um visual (que continua) psicadélico e um Kevin Parker conversador. Fossem as pausas entre os temas mais curtas e o espetáculo teria tido melhor ritmo.

“Currents” não é um disco fácil de reproduzir ao vivo, é estruturalmente complexo e tem detalhes de produção difíceis de replicar. Mas os Tame Impala sabem disso melhor que ninguém e por isso arriscaram, sem medo e com graça, introduziram sons, detalhes “fora da caixa”, numa espécie de experimentação ensaiada. Quem sabe sabe e estava ali tudo, ritmo, melodia e complexidade, sem grande desarrumação. Esgotaram o dia e estiveram à altura, sempre muito aplaudidos, apesar de o público preferir as canções mais antigas, ou porque não gostam da tal “viragem pop” ou porque ainda não tiveram tempo para a digerir (ou ouvir) o novo “Currents”. Seja como for, foram 25 mil que se aguentaram até ao fim. Valeu a pena vir de tão longe.

O resto do segundo dia do Vodafone Paredes de Coura 2015 resume-se numa palavra: ROCK, assim, em letras gordas. Se os cabeça de cartaz eram a grande atração, Paulo Furtado foi o melhor dos complementos. The Legendary Tigerman é um senhor, impecável no traje e na atitude. A atenção e expetativa foi visível ao primeiro sinal vindo do palco, que fez com que toda a gente se levantasse do chão quase num único movimento. Nem o rumor de fundo dos Iceage, no secundário, distraiu os olhares do palco Vodafone.

Tigerman é um artista talentoso e experiente, está entre os artistas mais rodados (dentro e fora de portas) e é conhecido por todos. Em suma, foi nas calmas, uma hora sem parar, de berros e de instrumentos a falar uns com os outros. Despediu-se em apoteose e aos gritos: “Rock ‘n’ Roll”! Perdemos a conta ao número de vezes que o disse. Toda a gente percebeu. Não é preciso trazer vedetas de longe para levar ao rubro um anfiteatro deste tamanho.

Antes tocou o norte-americano Joshua Tillman, ex-baterista dos Fleet Foxes. Father John Misty é um nome pomposo que carrega às costas um passado que vai para além de dois discos a solo — o último chama-se “I Love You, Honeybear” (2015). J. Tillman tem um séquito de fãs e isso ficou bem patente esta noite. Desfilou a folk sofrida no tom e na expressão, ele ajoelhou-se enquanto cantava (e bem), houve ali uma espécie de manifestação de culto a roçar a histeria na frente de palco. O sucesso de uma canção ou de um artista pode ser medido de muitas formas e uma delas é quando o vocalista acaba de cantar mas o público não. Foi o que ali se viu, uma atuação que vai continuar certamente, na memória de muitos, por muito tempo.

Steve Gunn fez uma belíssima banda sonora para o final de tarde. Voz e instrumentais equilibrados, country folk rock macio que casou bem com aquela luz. Quase toda a gente sentada, foi uma pausa para apreciar, conhecer, esticar as pernas. Na abertura do palco principal estiveram os portugueses Peixe:Avião e foi sempre a abrir. A banda de Braga despachou serviço com virtude, o indie rock é denso e não mereceu um “olá”. Competentes e bem ensaiados, desfilaram cancões em contínuo. Chegar e andar.

À mesma hora, no palco Vodafone FM, havia muita gente para ver e ouvir os australianos Pond. Ficou a sensação que deveria ter sido ao contrário, a troca de palco com os Peixe:Avião. Sem demérito para a banda portuguesa, mas foi um erro de programação (porventura difícil de adivinhar). A banda australiana partilha membros com os Tame Impala, talvez também por isso a suscitar curiosidade. Dão continuidade ao rock psicadélico, e do bom. Foram divertidos e animaram a assistência que se apinhava e empurrava no moche e no crowdsurfing.

O Hugo Amaral (o nosso fotógrafo) conta com graça o que viu lá à frente. O fosso do palco secundário (a zona que separa a assistência do palco, onde estão os seguranças e onde se posicionam os fotógrafos) é muito estreito, e logo à segunda música “começou a chover gente!”. O público adorou, é um estilo que não passa de moda.

Também passaram pelo palco secundário os Iceage, um degelo de rock pesado, melodia lenta, assíncrona, difícil. Começam com as mãos cheias: “All My Fingers”, mas só se viam silhuetas. Antes ainda, na abertura do Vodafone FM às seis da tarde em ponto, as espanholas Hinds entraram com barulho, som estridente e desafinado, rock saído de uma garagem pequena pejada de adolescentes.

Muitos destes momentos foram partilhados ao longo do dia no Twitter e nas várias intervenções que fizemos no Periscope. Siga-nos por lá, amanhã é dia de War On Drugs.

Paredes de Coura esteve esta quinta-feira com tempo seco, hoje (sexta-feira) o cenário vai manter-se mas para o final do dia de sábado e domingo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera prevê mudanças: vem aí chuva forte, afinal a tradição vai cumprir-se. Trouxeram as galochas?