E afinal não é a Apollo. O Banco de Portugal terá escolhido a Fosun, o outro grupo chinês que está na luta pelo Novo Banco, para a próxima fase de negociação, depois do falhanço das negociações com a Anbang, comunicada esta manhã. A notícia foi avançada pelo Jornal de Negócios – mas ainda não foi confirmada pelo regulador, mesmo após contacto do Observador. O Observador apurou, entretanto, que a intenção é fechar esta negociação dentro de 10 dias úteis. Sem fumo branco, aí se passará, então, para os norte-americanos da Apollo.

Contactada, fonte conhecedora do processo confirmou que a Fosun foi convidada para iniciar negociações com o Banco de Portugal. O Diário Económico acrescenta que o supervisor teve em conta outras condições contratuais previstas na oferta da Fosun e não apenas o preço para considerar esta a segunda melhor oferta e não a terceira.

A Fosun já está em Portugal, controlando a seguradora Fidelidade e também a Luz Saúde (antes chamada Espírito Santo Saúde). A Anbang e a Fosun partilham mais do que a nacionalidade. São conglomerados com presença em vários setores e companhias, com enfoque principal no negócio segurador (sobretudo no caso da Anbang). Têm promovido estratégias agressivas de aquisições internacionais, que assegurou uma expansão rápida dentro e fora da China. É um modelo de negócios que os analistas insistem em comparar com a Berkshire Hathaway, a empresa do milionário americano Warren Buffett.

O conglomerado considerou em junho que o processo de venda do Novo Banco era uma “oportunidade” que não quis desperdiçar, garantindo que iria apresentar uma oferta “racional” pela instituição. “Portugal é um portal para os clientes e os capitais chineses irem para a Europa. Qualquer investidor chinês sabe isso. Portugal é o melhor para o investimento chinês. Estou disponível para dizer isso a todos os investidores chineses”, afirmou nessa altura o CEO da Fosun, Liang Xinjum.

Em maio, a Fosun levantou mais capital no mercado para financiar aquisições – mais 1,2 mil milhões de dólares – elevando para mais de sete mil milhões de dólares o montante disponível para a compra de outras empresas, segundo a Reuters. Depois dos investimentos no setor segurador, financeiro e farmacêutico, a Fosun lançou uma aposta nas áreas do entretimento, com a compra de uma participação numa produtora cinematográfica chinesa e no Cirque du Soleil.

Ministra diz que “BdP terá entendido que não teve condições para fechar aquele negócio”

A ministra das Finanças admitiu hoje que a venda do Novo Banco é importante para a estabilidade financeira, mas acredita que o Banco de Portugal só não fechou já o negócio porque não havia condições para o fazer.

“Naturalmente – e nós já o temos dito em nome da estabilidade financeira, que é um valor importante -, quanto mais cedo este assunto pudesse ficar resolvido, e bem resolvido, melhor. Mas, com certeza que o Banco de Portugal se decidiu não concluir a venda é porque terá entendido que não tinha condições”, disse aos jornalistas Maria Luís Albuquerque, à margem de uma visita ao porto de Setúbal.

“O Banco de Portugal, no âmbito dos poderes que lhe estão conferidos pela lei, decidiu que não havia condições para fechar o negócio com aquele proponente e, de acordo com o que estava previsto, partiu para negociações com o seguinte. O Banco de Portugal é que é a autoridade da resolução nos termos da lei e a quem está atribuída a competência da venda. A mim cabe-me apenas acompanhar e desejar que as negociações corram pelo melhor”, frisou a ministra das Finanças.

Confrontada com as declarações do líder do PS, António Costa, que hoje acusou o Governo e o governador do Banco de Portugal de terem cometido um “gravíssimo erro”, quando quiseram criar a ilusão de que a resolução sobre o BES seria feita sem custos para os contribuintes portugueses, Maria Luís Albuquerque disse apenas que as matérias de estabilidade financeira “merecem reflexões e comentários muito ponderados”.

“Aquilo que digo é aquilo que sempre disse – e que tive oportunidade de dizer na comissão de inquérito ao BES (Banco Espírito Santo): que os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo com este processo. Isso cabe ao Fundo de Resolução”, disse a ministra das Finanças.

“É verdade que há um banco público (CGD – Caixa Geral de Depósitos), que faz parte dos bancos do sistema, mas isso decorre da existência de um banco público, que é um banco igual aos outros em termos de direitos e obrigações para esta matéria. Em todas as outras questões os contribuintes não serão chamados. E, no caso da CGD é uma via indireta, que decorre do facto de o banco ser público”, concluiu Maria Luísa Albuquerque.

N.R. O Observador escreveu esta manhã, depois do comunicado do Banco de Portugal, que o escolhido para a nova ronda negocial seria a Apollo, assumindo como boa a informação que foi publicada e nunca desmentida que esta seria a segunda melhor proposta em cima da mesa. A nova informação obriga-nos a pedir desculpa aos leitores – e a rever com redobrado cuidado os próximos passos desta negociação. Continuaremos, por isso, a pedir esclarecimentos adicionais ao Banco de Portugal e a dar disso conta a todos.