O ativista angolano Rafael Marques disse que chegou o momento de mobilizar a sociedade de Angola e preparar “a bandeira” da transição para o “período pós-José Eduardo dos Santos”.

“Temos de pensar seriamente em mobilizar a sociedade para as tarefas da transição política e da mudança em Angola. Este caso dos jovens (presos em junho sob acusação de tentativa de golpe de Estado) e do Mavungo (condenado a seis anos de prisão) criam uma excelente oportunidade em torno de uma causa comum que é a causa da liberdade”, disse à Lusa Rafael Marques, que se encontra em Lisboa para uma conferência sobre direitos humanos em Angola organizada pela Amnistia Internacional.

Quando questionado sobre a possibilidade de criação de uma nova organização política em Angola, Rafael Marques fala de “bandeiras” em defesa da liberdade “através de todos os angolanos amantes da paz e da liberdade e amantes do bem-comum”.

“Todo o angolano que se identifica com a liberdade deve juntar-se e deverá ser feito – e será feito – eu estou aqui no exterior do país, em Portugal, e irei aos Estados Unidos e a outros países e tenho uma missão: mobilizar para que a causa da liberdade seja uma bandeira em Angola e que os angolanos se revejam nesta bandeira porque precisamos, já não da independência, que temos há 40 anos, e que foi usada mais para destruir os angolanos do que para construir a sociedade e o Estado”, disse Rafael Marques.

O ativista defendeu ainda que é preciso união: “Chegou a hora de assumirmos as nossas responsabilidades como cidadãos e eu sou um cidadão e ninguém me pode tirar esse direito porque se trata de uma questão de consciência. Não vamos mais — e eu assumo também esta tarefa — dividir os angolanos entre militantes partidários e a sociedade civil”, acrescentou, sem detalhar a forma como tenciona organizar a mobilização.

Destacando que conhece “muito bem” os atores angolanos “quer ao nível do poder, quer ao nível da oposição, quer ao nível da sociedade civil”, Rafael Marques disse que sabe “o que deve ser feito para que os angolanos criem uma corrente de solidariedade a favor do bem”.

“Chega de estarmos sempre a claudicar a favor do mal. A favor dos abusos de poder, a favor de um Presidente que nunca teve, e se algum dia teve nunca o demonstrou claramente, qualquer respeito e interesse para o bem de todos os angolanos e temos de ultrapassar isto”, afirmou.

Segundo o ativista, “Angola não se faz com um só homem” e entre os 24 milhões de angolanos “há muitas pessoas inteligentes que podem assumir a tarefa de mostrar outro caminho para a sociedade”, considerando que “esta é uma luta do bem contra o mal”.

O ativista de direitos humanos angolano foi condenado, em maio, em Angola, a seis meses de prisão com pena suspensa durante dois anos, na sequência de denúncias de violações de direitos humanos feitas no livro “Diamantes de Sangue, Corrupção e Tortura em Angola”.

O caso encontra-se em fase de recurso nos tribunais angolanos.

Rafael Marques participa numa conversa aberta sobre Angola, na sexta-feira, em Lisboa, organizada pela Amnistia Internacional, que vai decorrer na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em que participam a eurodeputada Ana Gomes e o escritor angolano José Eduardo Agualusa.