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Se a Grécia foi tema em Portugal nos últimos meses, na campanha é um assunto difícil de gerir. Para Costa e o PS é uma espécie de não assunto, ou assunto gasto. Mas para a coligação é assunto todos os dias, independentemente de gasto. Há dois dias Pedro Passos Coelho inventou um novo verbo: syrizar, sinónimo de, segundo disse, fracassar; e este sábado, o líder da coligação voltou a comparar-se aos antigos primeiro-ministros gregos. Um atira, o outro sacode. Este domingo há eleições na Grécia, justamente no dia em que arranca a campanha oficial. Vai aquecer?

Quando se repete muito uma ideia, muitas vezes é para desvalorizá-la e António Costa não se tem poupado nessa tarefa. Foi o caso do programa humorístico da TVI onde respondeu “Syriza! Syriza! Syriza” depois de Ricardo Araújo Pereira ter picado com “Sócrates! Sócrates! Sócrates!”. Nas hostes socialistas acredita-se que em termos de influência no eleitorado a Grécia já não é o que era e por isso não terá grandes reflexos por cá.

“Não aquece nem arrefece”, respondeu uma fonte da campanha do PS ao Observador. “Duvido que tenha influência”, diz outra. Mas lembra que António Costa descolou do Syriza e tem até tentado passar essa ideia nos discursos, dizendo que o PS é a “alternativa credível” à austeridade, que promete um outro caminho com contas certas e com respeito ao Tratado Orçamental. Este sábado em campanha referiu ainda duas ideias-chave para este afastamento: que o “PS é um partido moderado” e que a diferença entre o PS entre a coligação “não é financeira mas ideológica”. Como quem diz que é possível fazer diferente com respeito pela disciplina orçamental e contra o que os socialistas dizem ser um “pensamento único”.

Mas as semelhanças entre Portugal e Grécia não se ficam no resgate nem na proximidade das datas de eleições. Aproximam-se também os resultados das sondagens que dão um resultado muito próximo entre duas forças. Por cá PS e PAF, por lá Syriza (partido irmão do BE) e Nova Democracia (partido irmão do PSD). As perguntas que se colocam nos dois países são: como vai ser o próximo governo?

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Um dos deputados do núcleo duro de Costa diz ao Observador que há diferenças: “Lá há uma maior pulverização de votos e de partidos. Aqui as possibilidades de coligação são mais rígidas”. Outra fonte acrescenta: “A possibilidade de coligações é diferente porque o PS tem mais alternativas do que a coligação e não tem nada a ver com a Grécia”.

Sem proveito eleitoral, mas sempre presente no discurso

Do lado da coligação, não se esconde que a ida às urnas é um novo pretexto para acender o tema e fonte da campanha afirma que “haverá seguramente reações da parte dos candidatos” ao desfecho eleitoral. Mas a verdade é que a coligação não parece querer largar o tema. Passos já o tinha mostrado no último frente a frente nas rádios, onde foi preparado para colar o PS ao Syriza, dizendo que o discurso de Alexis Tsipras sobre a mudança na Europa e a recusa da austeridade era “exatamente o mesmo” de António Costa. E voltou a mostrá-lo este sábado, em Santarém, onde puxou dos seus galões de primeiro-ministro com quatro anos de funções para sublinhar, mais uma vez, o contraste entre um governo estável (com um único governo sobrevivente) e outro instável (que já vai para o “sexto”). Ou seja, um para seis. Estabilidade contra incerteza.

“Conheço casos de países em que não houve determinação política suficiente para fazer o que era preciso. Digo-vos isto porque sou primeiro-ministro há quatro anos e sei que na Europa este drama foi vivido e sentido muito intensamente. Nestes anos de governo já conheci quatro  primeiros-ministros gregos, quatro governos. Amanhã vai conhecer-se mais um, para executar o terceiro resgate. Eu não queria isso para o meu país. E foi por isso que lutamos, para que isso não acontecesse”, disse, num jantar-comício em Santarém.

Embora repetidamente usado, nem por isso o argumento da colagem do PS ao Syriza vai cair — independentemente do resultado eleitoral deste fim de semana. Ao Observador fonte da coligação afirma que, por ser um facto político e ainda por cima estar na ordem do dia, o tema Grécia “vale por si só”. Tudo aponta para um empate, e, logo, para a necessidade de negociações difíceis. Mais um argumento que encaixa na mais recente tónica do discurso político da coligação de apelo ao diálogo e à negociação em nome do interesse do país.

Há, no entanto, entre as hostes laranja quem considere que a coligação “já tirou o proveito eleitoral que podia tirar” e que os acontecimentos em Atenas não entram na estratégia de campanha. O mais importante, dizem, é “criar condições de estabilidade na Europa e isso também passa pela resolução da crise política na Grécia”. O efeito de contágio para Portugal “é pequeno”, mas Portugal beneficia tanto mais quanto maior for a “estabilidade” europeia.